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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

06
Jul09

"É um menino"


Eremita

Pedi ao moço de recados que indagasse e ele indagou para lá do que lhe havia pedido. Tatiana está de 4 meses.

 

Dizem  que as maternidades se enchem nas noites de lua cheia. Hoje é noite de lua cheia e só me resta pedir um céu nublado. Que estranha reclusão isto de não poder olhar  o céu, por nos recordar algo que queremos esquecer.

29
Jun09

Cartuchos para um cartuxo


Eremita

 

A gravidez de Tatiana põe em causa o plano para matar Igor. O crime com consequências transgeracionais é uma péssima ideia. Preciso de repensar a minha existência em Ourique e resolvi ir acampar uma semana nas margens da barragem do Monte da Rocha. Levo uma caçadeira, a cana de pesca, o camaroeiro para o peixe-rei, um canivete suíço e o Quixote. Viverei como caçador-recolector. Perdizes extraviadas das reservas cinegéticas, passarada, achigãs sacados das águas lodosas da barragem - tudo isto polvilhado com ervas aromáticas. Eremita a sério. Como não tenho wireless, só voltarei aqui quando encontrar uma solução, pelo menos enquanto me sobrarem os cartuchos.

20
Jun09

Um agradecimento


Eremita

 

 

Defendo a tese de que a generalidade das dosagens nos produtos de supermercado embalados ainda estão desajustadas do tecido social. As famílias desagregam-se e o pai divorciado é hoje uma criatura desprezada pela indústria alimentar e órfã de organização que defenda os seus interesses. Urge corrigir esta injustiça. Um pequeno passo nesse sentido, grandioso no simbolismo, parece ter sido dado pela Mimosa. Trata-se da embalagem de manteiga de 125 g, um produto desenhado para o ritmo de consumo do solteiro, divorciado ou eremita. No mercado dos derivados lácteos convivem diversas marcas. Quase todas têm as opções manteiga magra e manteiga sem sal, mas creio que apenas a Mimosa conseguiu lançar um produto abaixo dos 250 grama. A marca é pioneira na tentativa de evitar uma chicotada psicológica existencialista no consumidor, pois se a solidão tiver um sabor, será certamente o travo da manteiga rançosa a uma segunda-feira de manhã. Disso a Mimosa me salvou. E como bónus tive o sorriso terno de Tatiana, no preciso momento em que ela alinhava o código de barras da embalagem com o leitor óptico. As meninas das caixas registadoras devem vencer o tédio imaginando a vida dos clientes pela composição do que cada um compra e Tatiana pressentiu a minha vulnerabilidade, podendo por isso demorar o seu olhar no meu e até sorrir. 

28
Mai09

Da precedência


Eremita

Ainda não aprendi a retirar consolo da precedência. Ontem imaginei-me a conhecer os pais de Tatiana e fiz todo um inventário de incompatibilidades culturais, que de algum modo eram atenuadas pela barreira da língua. Que imagem terá uma família tradicional ucraniana de um português? Não faço ideia. Ouvi dizer que na Bulgária se oscila a cabeça na horizontal para transmitir concordância e na vertical para a negação, e testemunhei que os indianos oscilam a cabeça em todas as direcções do espaço para transmitir algo que talvez não se encaixe no nosso entendimento dicotómico da realidade. Como será o oscilar de cabeça ucraniano? O bidé chegou à Ucrânia? Chegou e também está hoje em declínio? Não preguei olho a imaginar a minha audição impossível diante dos pais da minha adorada, mas sei que é fraqueza de espírito. Esta mania de convocar todos os problemas não é mais do que uma desculpa para não lidar com o problema mais urgente. Há sempre uma precedência. Igor deve morrer primeiro e depois logo penso nos modos de seduzir a mãe de Tatiana e de discutir política com o seu pai.

 

21
Mai09

Quo Vadis?


Eremita

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Acordei de um pesadelo estranho ou inventei esta cena em vigília? O cenário era a arena de um coliseu romano onde se encontrava Igor, de tanga e tronco nu. Agora que volto a pensar na imagem, Igor parecia-se muito a Salvação Barreto, o forcado que actuou em Quo Vadis. Seria natural pensar que Tatiana estivesse atada ao poste, mas quem estava atado era o inventor. Aliás, o inventor armou-se em Peter Sellers no sonho, pois fazia também o papel do Imperador, do centurião e ainda de um elemento mais exaltado da plebe. Como interpretar isto? Foi talvez uma manifestação pouco subtil da minha frustração com a incapacidade de desenvolver as personagens ouriquenses. O inventor ainda não ganhou espessura psicológica e já se passaram meses desde a sua entrada em cena. A máquina de movimento perpétuo, que deveria ser o metrónomo para o ritmo desta ficção, nem sequer foi descrita. As madrugadas das duas libertinas de Lisboa são um trunfo que continua por ser usado e faria disparar o número de leitores. Tatiana permanece como o único atractor. Talvez por isso, demorei a dar por ela no meu sonho, vindo só a descobri-la imediatamente antes de acordar. Toda a segunda metade do sonho foi dominada pela actuação de Ricardo Chibanga, que entrou  à super-herói na arena, usando o capote para abrandar a aproximação ao solo, acercando-se depois em passada oblíqua do touro, que media forças com Igor, para espetar um par de bandarilhas no dorso do ucraniano. A besta tombou e o touro enfiou-lhe um corno entre a tanga e o rego do rabo,  arrastando-o de seguida pela areia grossa em círculos de rabejador, até o deixar completamente esfolado, ensanguentado, numa desintegração que quase ameaçava os órgãos internos e remetia para a cena em que Messala está reduzido a bife tártaro falante num outro épico hollywoodesco, o Ben-Hur. Não houve sequer tempo para chorar Igor, pois Chibanga de imediato reciclou as bandarilhas e com ambas vazou os olhos do cristão atado ao poste, projectando-as de seguida, com a técnica de um ninja, de encontro aos outros dois inventores que estavam na tribuna imperial, morrendo um com a bandarilha no coração (o imperador) e o outro com a bandarilha na testa, talvez por ter uma armadura (o centurião). O inventor plebeu escapou a tempo e com alguma sorte não terá sido espezinhado pela multidão em fuga que se afunilava nas portas. Ricardo Chibanga, com um salto verdadeiramente alado, ganhou depois o parapeito da tribuna imperial e, sem nunca desviar o seu olhar dos meus olhos, começou a afagar os seios de uma estátua em tamanho natural. A estátua era Tatiana. Eu viria então a acordar, em grande sobressalto, ao som de uma gargalhada diabólica de Chibanga misturada com um bizarro barulho de seixos rolando sobre seixos ao sabor das ondas que só podia vir dos dentes partidos do matador à solta na sua boca. É que Chibanga não se saciou a apalpar os seios marmóreos e precisou de os morder violentamente. Ignorando a grande crítica literária, creio que algo em mim exige mais realismo mágico no Ouriquense e um papel de relevo para o fantasma de Ricardo Chibanga. Que se lixem os críticos, pois não quero outra noite assim. Enfim, feitas as contas, é verdade que acabámos de assistir à primeira  morte de Igor. Talvez valha a pena fazer uma série com as mortes imaginadas desta criatura. A crise aumentou a minha simptatia pelos desempregados, mas ainda estou dominado pelo delírio do crime passional

15
Mai09

Uma despedida anunciada?


Eremita

Hoje, logo pela manhã, houve grande excitação no Pingo Doce. Pelas conversas das colegas de Tatiana, ela vai deixar o supermercado. Parece que será empregada doméstica na casa de campo de uma actriz "famosa" de novelas e cuidará dos bebés do jovem casal. "É uma casa de sonho", disse uma delas, que provavelmente acompanha a imprensa dos mexericos. Deve ser um daqueles montes alentejanos que ficaram na moda entre os lisboetas, há já uns anos. Espero que não seja muito longe de Ourique e que Tatiana não fique interna. Mas depois de ter visto na net a cara da actriz "famosa" fiquei desesperado. É uma mulher linda, uma jovem mãe e uma sex symbol cobiçada por metade do país. É inevitável que o seu marido se tente aliviar com Tatiana. Urge actuar.

15
Mai09

Tatiana e a mancha no lençol


Eremita

Era inevitável seguir Tatiana até casa. Mora a 5 minutos do Pingo Doce, numa zona de casas geminadas que podemos considerar como fazendo parte dos subúrbios da vila. Segui-a sempre a grande distância e sem cruzar a estrada para o passeio em que caminhava. Por algum motivo, não cruzar a estrada pareceu-me equivalente a não cruzar a linha que separa o admirador do stalker. Mas depois de identificar a sua casa e de estudar os seus horários, não resisti a espreitar para dentro do quarto dela, num dia em que sabia que ela e o seu homem estariam fora até à hora de almoço. Creio que não há hábitos de leitura naquela casa, pois apenas uma das mesas-de-cabeceira tem candeeiro. Mas o que mais me surpreendeu foi a cama desfeita e uma mancha de sangue ao centro, como se Tatiana tivesse perdido a virgindade ontem ou uma Tatiana menstruada não demovesse Igor. Qualquer destes cenários me deprimiu. Aliás, a simples imagem da cama desfeita foi uma desilusão, porque Tatiana tem cara de dona de casa prendada.

13
Mai09

Os livros são ciumentos


Eremita

 

 

Esta noite sonhei que era perseguido por um tupperware em que a base e a tampa se articulavam como as mandíbulas de um crocodilo. A interpretação parece-me óbvia: Tatiana anda a tomar conta de mim e a leitura tem ficado esquecida. Acordei a instantes de uma mordidela que me teria roubado a masculinidade. Suava. 

05
Mai09

Tatiana e as laranjas


Eremita

Num fim de tarde de um dia lento no supermercado, dei comigo a espreitar Tatiana furtivamente. Em minha defesa só posso argumentar que cheguei ali por acidente, pois conferia a composição de uma caixa de cereais. Como as caixas se empilham na esquina que faz a transição para os enlatados, ao retirar uma criou-se uma fresta que abriu uma vista para a zona das frutas e hortaliças e por onde podia espreitar sem ser visto, como se estivesse num posto de observação de aves. Tatiana e duas colegas gozavam uma pausa sentadas no parapeito de um dos expositores refrigerados, de costas voltadas para o alho-porro, os nabos e a alface frisada. Em frente delas tinham as caixas de fruta. Estavam muito divertidas e à distância a que me encontrava não consegui perceber de que falavam. Mas a dada altura, parecendo intuir que alguém mais a observava, Tatiana levantou-se, pegou em duas laranjas, enfiou-as dentro da bata, pelo decote, colocando-as ao nível do peito, uma de cada lado. Com destreza, deslizou depois as mãos  pelo corpo abaixo, mantendo sempre a bata sob tensão, para que as laranjas não descaíssem. As mãos acabaram por lhe ficar à altura da cintura, numa posição natural, mas sempre mantendo a bata tensa. O resultado final foi uma silhueta de pin-up, que Tatiana se apressou a animar, com uma passada lenta, um abanar de ancas exagerado e trejeitos de estrela de cinema. As colegas quebraram-se em gargalhadas e eu fui forçado a retirar com cuidado mais uma caixa de cereais, para abrir o ângulo de visão. Tatiana tem graça, o que é raro numa mulher. E tem um jeito teatral, talvez até alguma loucura, o que é essencial. 

 

 

 

02
Mai09

Tatiana em perigo


Eremita


 

A invenção de Tatiana sempre foi um risco assumido. Na ausência de um amor real consequente, temia uma materialização da ucraniana - Tatiana como o Hobbes, eu como o Calvin. Na presença de um amor real e consequente, o risco seria o oposto: que esse amor a possuísse  - Tatiana como personagem de uma ficção de cariz autobiográfico. Seriam duas situações patéticas. No primeiro caso, é inventada uma mulher que salta da página para a vida real. No segundo, uma mulher real reencarna Tatiana, que perde vida própria. É preciso ir navegando entre os baixios da tolice e da falta de imaginação.

 

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