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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

20
Fev13

Quem matou Igor?


Eremita

 

 

 

Folhetim rico em ganchos, sexo explícito e xenofobia

 

[parental advisory]

 

[Spoiler warning - o primeiro policial com "spoiler warning"]

 

1. Um cidadão ilegal vem com uma mais-valia: a verosimilhança do relato da sua morte, na ausência de um corpo. É uma vantagem que não beneficia apenas os escritores; o Estado também ganha, porque entende o enigma da morte de um ilegal como uma solução para um problema que nunca chegou a formular. Isto, se não tem expressão nos indicadores de melhoria de desempenho, sempre se traduz num difuso e subtil aumento do bem-estar que alastra vertical e horizontalmente a toda a hierarquia e ramificações do funcionalismo público. "Morreu um ilegal? Não digas mais nada, deixemo-lo*. Morreu como viveu". Assim foi com Igor.

 

A morte de Igor não chegou sequer a ser sentida pela população da vila de Ourique. Se perguntarem por lá quem foi Igor, não obterão reposta. Os ouriquenses não são mais xenófobos do que a restante população portuguesa, só que em cada cidadão mora um burocrata. Uma morte trágica reabilita qualquer patife, que passa a ser recordado com alguma saudade, mas só acentua a condição de ilegalidade do ilegal, que pode ser definitivamente esquecido. Ou, para lembrar um desabafo de Chibanga, que chegou a partilhar pacotes de alcagoitas com Igor em algumas tardes de tédio, "faz-se hoje mais barulho por um touro do que por um ilegal". Serve então este relato para recuperar alguma desta honra de que desistimos colectivamente. Não pretendo prestar uma homenagem póstuma a Igor, que continuo a ver como uma besta e um idiota. Alás, eu queria matar Igor e continuaria a alimentar esse desejo se ele ainda estivesse vivo, embora agora pense sobretudo em matar quem matou Igor; temo até transformar-me no primeiro serial killer em pensamento, caso venha a descobrir o assassino de Igor e outro assassino por identificar se antecipe a mim, forçando-me a transferir o meu desejo de matança - e assim sucessivamente.

 


 

10
Mai11

Consuela


Eremita

 

Quem matou Igor? é um Folhetim rico em ganchos

e o primeiro policial com "spoiler warning

 

13. Não sei que impacto nos sansilvestreros terá tido o baloiçar de ancas em público de Consuela. O prostítulo não fica na periferia do ayuntamiento, está inclusive muito perto da igreja. Por fora parece uma casa normal, só que numa povoação com aquelas dimensões seria impossível não se reparar no afluxo de clientes e nas seis colombianas. Consuela não é a mais procurada pelos locais, talvez por ser a mais espalhafatosa e os homens temerem que ela os desmascare no supermercado com um comentário brejeiro. Quanto ao impacto de Consuela na economia local, creio que não deve ser desprezível - lembrei-me disso enquanto almoçava sozinho num restaurante da vila. Ela atrai turismo a um lugarejo que o ninho de cegonhas no campanário não consegue tornar distintivamente pitoresco. Mas com estas perturbações sociais não vale a pena perder tempo, pois todos nos lembramos de Asa Branca e das mães de Bragança.

 

Quando entrei no prostíbulo, ainda estava frustrado com Lucinha, zangado com o Judeu e admirado por ter feito o caminho para San Silvestre de Gúzman desabafando com o Citroën. O carro do Judeu pertenceu ao meu avô. Não sei por quantos outros donos terá passado. O avô morreu nos anos oitenta e eu conheci o Judeu em 2008. Preferi nunca lhe dizer nada pois haveria o risco de ele me interpretar mal. Um negócio é um negócio e eu nem tive grande contacto com o carro ou sequer com o meu avô. Mas é verdade que experimento uma vaga sensação de posse. Não sei se há um termo para isto, é como que o equivalente da usucapião para os assuntos da memória. O Citroën  entrou na minha cabeça antes de chegar à do judeu, o que estabelece uma precedência, e terei depois recordado o carro as vezes suficientes para poder dizer que fiz uso dessa memória. Atendendo aos preços baixos que se praticam no mercado dos automóveis e ciclomotores em terceiríssima mão, e ainda à travessia do deserto que precede o vintage, é natural que a altercação com o judeu tivesse aguçado a minha sensação de posse.

 

Consuela saltou do sofá com um entusiasmo infantil, embora seja maior de idade. Na nossa primeira noite, escrevi-lhe um poema enquanto ela dormia. A inibição para a poesia costuma chegar na mesma altura em que chega a descrença em certas emoções. Daí eu ter guardado os meus versos para a menor das musas, como um ourives em crise que já só aceita trabalhar o latão. Seria incapaz de escrever um poema a Lucinha, porque ela é muito inteligente, e seria incapaz de escrever a Tatiana, porque estou apaixonado por ela.

 

Sinto nas tuas coxas, Consuela

Um conforto que é quase de poltrona

 

(excerto)

 

A grande diferença entre Consuela e Lucinha acontece no pós-coito. Enquanto a colombiana é carinhosa e pede que me encoste a ela pelas costas, em spooning, a brasileira não me toca e levanta-se quase de imediato. Só que Consuela foge com o rosto e Lucinha desafia-me com um olhar que acusa alguma superioridade. Ou então os seus olhos espelham a minha inferioridade.

 

Continua

 

Continua

 


05
Set10

Decisões estruturais


Eremita


 

Tenho usado diferentes manchas de sangue para ilustrar cada entrada desta série, mas doravante a imagem será esta, em versão miniaturizada:

 

 


A acreditar na fonte, trata-se de uma mancha de sangue de um empresário, mas aqui representa o sangue de um outro indivíduo. As imagens anteriores são demasiado estilizadas e a recorrente busca nos minutos que antecedem a escrita do texto obriga-me a percorrer sites de cultos satânicos, páginas de fãs de séries de vampiros e outros lugares invariavelmente anglo-saxónicos, distraindo-me do iberismo que deve guiar Quem Matou Igor? Num momento de alguma loucura, cheguei a pensar em degolar uma galinha e andar a fazer de Pollock nas paredes em ruína do monte, para produzir manchas de sangue originais, mas lembrei-me depois que a honestidade na literatura não passa pelos gestos de grande espectacularidade da arte conceptual. Voltemos pois a Espanha.

04
Set10

O Judeu explica a amizade ao telefone


Eremita

 

 

 

Quem matou Igor? é um Folhetim rico em ganchos

e o primeiro policial com "spoiler warning


12. Na encruzilhada para San Silvestre de Guzmán resolvi telefonar ao Judeu, pois daí em diante a quilometragem a que sujeitaria o Citroën iria disparar - se é estereótipo não tenho culpa, o Judeu aponta mesmo os quilómetros antes e depois de eu lhe entregar o carro. Nunca me cobrou por isso, mas tal hábito causa-me algum desconforto.
- ´Tou, Judeu?
-  Com quem quer falar? O Judeu é meio surdo
- Judeu?! Sou eu.
- Ah, tiveste um acidente?
- Não.
- É que nunca telefonaste antes. Estás em Ourique?
- Ando por aí. Olha, preciso de um favor teu.
- Diz lá.
- Posso ficar com o carro até amanhã? Surgiram uns imprevistos.
- Mas o que é que se passa?
- Precisas do carro hoje?
- Nunca se sabe. Talvez. Mas o que é que se passa?
- Não é nada de grave. Não fazes um favor ao teu amigo?
- A quem?
- A mim, Judeu.
- ...
- Não somos amigos?
- ...
- Judeu?
- Não sei.
- Não sabes? Se me emprestas o carro até amanhã?
- Não, isso sei que não empresto. Mas o que é que se passa?
- Não somos amigos? Eu sou teu amigo, Judeu.
- Não sei se somos, não há critério.
- Não há o quê?
- Critério. Ou melhor, não posso saber se sou teu amigo. Não tens nada que me interesse.
- Tiveste maus resultados com o baloiço e por isso está assim, não?
- Não, tive até o melhor tempo de sempre. Entro devagar na eternidade...
- Eu faço vigílias a olhar para a merda do baloiço a oscilar e não me consideras teu amigo?
- Não sei. Tu não tens vida. Não te acontece nada, como saber se sou teu amigo?
- Bebeste?
- Só há uma forma de saber se alguém é meu amigo.
- Queres uma prova de amizade? Ao telefone?
- Não tens de fazer nada por mim. Seria melhor que fizesses algo por ti.
- Porra, Judeu, deixa de falar por enigmas. Pergunta o que quiseres, anda.
- Não é fazendo perguntas que saberei se sou teu amigo.
- Eu nunca te menti, Judeu.
- Mas desde quando a honestidade é esclarecedora?
- Estou a ficar sem bateria, despacha-te.
- Traz o carro. Onde é que estás?
- Só até amanhã. Eu sou teu amigo, Judeu.
- Provavelmente nunca pensaste nisso. Qual é o teu critério para me veres como um amigo?
- Temos empatia, não?
- É isso? A amizade é a empatia?
- Judeu, diz que sim. Deixa-me ficar com o carro até amanhã. Encho-te o depósito.
- Já ca faltava o anti-semitismo.
- Encho o depósito porque te respeito.
- E sou Judeu.
- Porra, não faças isso.
- Está bem.
- Posso então ficar com o carro?
- Não. Deixo apenas de fazer de judeu.
- Vai acabar a chamada.
- Mas já conversámos tudo...
- Diz-me que és meu amigo.
- Não posso. Falta o teste.
- Que teste?
- É preciso que conquistes algo que eu também deseje.
- Para quê?
- Para eu saber se senti mais alegria do que inveja. Desses serei amigo. Dos outros, não.
- Aprendeste isso sozinho?
- Sim, é da minha experiência.
- Mas queres o quê? Que eu invente uma máquina de movimento perpétuo melhor do que a tua?
- Por exemplo, mas deves pensar num exemplo exequível. Até ver, traz o carro, sim?
- Não sou teu amigo. Não sou teu amigo.
- Não aceitas a dúvida? Tens de saber viver na incerteza. Anda, falamos mais logo. Traz o carro.
- Está mesmo a acabar.
- Trazes o carro?
- A incerteza, meu cabrão. Tens de aprender a viver na incert...
Acelerei para San Silvestre de Guzmán disposto a passar o serão e a manhã seguinte com Consuela. Lembrei-me até de rebater os assentos dianteiros e de a trazer para dentro do Citroën, que tem a manete das mudanças junto ao guiador... Critério para a amizade. Ninguém atura aquele homem.

03
Set10

Handicap


Eremita

 




 

Prometo não abusar destes making of de Quem matou Igor?, mas a enorme dificuldade que tenho sinto em descrever espaços deve ser assinalada. A culpa só pode ser da televisão. Antes da televisão, o texto precisava de transmitir tudo e dessa necessidade nasceram as grandes descrições - Os Maias, etc. Isso eu já sabia e provavelmente todos sabemos. O que eu não sabia, apesar do ditado, é que essa necessidade nem sempre cria esse engenho. Primeiro, porque necessidades genuínas há poucas; depois, porque é cada vez mais difícil adquirir aptidões novas, pois  geralmente vamos apenas apurando o que se salvou da infância e adolescência.  Quem matou Igor? será também a aprendizagem possível do acto de descrever - não é um disclaimer, é só um aviso (para os quatro fiéis leitores que acompanham as minhas aventuras por Espanha).

 

Vamos em 11 entradas (os making of não contam). Depois de Inés Sastre, creio que será inevitável esbarrar com Emilio Butragueño, Felipe González, Tomatito, Lluís Llach, Carmen Maura e Victoria April, entre outros*. Evitarei o Verano Azul enquanto me for fisicamente possível. Falar do Verano Azul é um truque fácil, quase pornográfico, o que não deve ser confundido com fantasias envolvendo a personagem Bea e remete antes para a ideia de que "a nostalgia é a nova pornografia".

 

* Eduardo Pitta é grande adepto de organizar nomes por ordem de nascimento. Eu prefiro a organização pela ordem de chegada à memória, que só os menos atentos interpretarão como preguiça. Este método  - é um método, que passo a designar por enumeração automática - cria um gradiente de importância decrescente, o que é uma opinião que não se enuncia explicitamente.

 


28
Ago10

Uma aposta


Eremita

 

A série Quem Matou Igor? cumpriu o período de estágio com aproveitamento e chegará às 115 entradas antes de Julho de 2011. Até lá teremos visitado (não necessariamente por esta ordem): El Granado, Villanueva de los Castillejos, Madrid, Barcelona, San Sebastián, Burgos, Córdoba e Sevilla, entre outras cidades e pueblos do país vizinho. O Ouriquense assume-se como um espaço ibérico, apesar da xenofobia e ódio que se encontrará em Quem matou Igor?, folhetim que não perderá uma oportunidade para denegrir a indústria espanhola de panificação.

 

Haverá flamenco, touros, Gonzalo Torrente Ballester, mulheres narigudas, Camilo José Cela, uma mulher louca que jura ter dormido com Juan Carlos e guarda um pêlo púbico que diz pertencer ao monarca, fantasias oníricas com bisnagas de leite condensado, e um rasto de sangue que ninguém sabe muito bem a quem pertence mas que podemos entender como a materialização de um fio condutor.

 

É claro que assim se prova que minha ética de trabalho e ética como artista são incentivos muito menos seguros do que o desejo primário de não perder uma aposta. Se perder, farei um donativo de 2000 euros à Sociedade Protectora dos Animais*. Se ganhar, ficarei muito feliz. Ninguém sai a perder, é uma win-win situation para a humanidade.

* A aposta não me obriga a visitar todas as cidades que referi. Cada entrada terá pelo menos 300 palavras.

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