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Ouriquense

05
Fev09

Uma conversa com o inventor

Eremita

Mas nunca mais a viu?

Nunca mais.

E sem explicação?

Nem uma.

Nem um sms?

Naquela altura não havia.

Nem um bilhete?

Nada, nem sequer um escrito no espelho embaciado.

Ficou de rastos, imagino.

Não. Só a tinha visto duas vezes.

Ah, mesmo assim é estranho.

"Mesmo"? Não. Sobretudo. Sobretudo por isso é estranho.

De facto. Tentou encontrá-la?

Não. Só a tinha visto duas vezes.

Claro. Mas deve ter sentido algum vazio.

Ela morreu.

Foi como se tivesse morrido para si, percebo-o bem.

Não.

Então?

Não morreu para mim. Morreu. Imaginei que tinha morrido para toda a gente, inclusive para mim. 

Percebo a diferença.

Percebe mesmo?

...Não. E se morreu mesmo? E se a mataram?

Eu teria sido o principal suspeito, a polícia daria comigo.

E ninguém o contactou?

Ninguém.

Imagino que isso seja reconfortante.

Sim, sobra só a hipótese da morte natural.

Acreditando  que era uma pessoa decente, bem entendido.

Lembre-se que eu chego até a acreditar na competência da polícia. 

Sobra ainda a hipótese de lhe ter feito alguma.

É uma hipótese meramente académica.

Não se lembra de nada?

De coisa alguma.

E se foi tão terrível que se forçou a esquecer?

Como quer que rebata esse argumento?

Justamente.

Em todo o caso parece-me inverosímil.

E ela reaparecer?

Ainda mais inverosímil.

Mas e se reaparecer...

O melhor será não fazer perguntas.

Receia a verdade?

Não, receio a mentira. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

05
Fev09

Deste filistino que vos ama (I)

Eremita

Este filistino tem a forte convicção de que se aprende e se goza mais a ler a primeira página de quaisquer 400 romances que da leitura de um qualquer romance de 400 páginas.  É esse o valor intrínseco de uma grande biblioteca. Pois bem, descobri que o inventor tem uma bibioteca que, não sendo grande é - vá lá - bem catita. Tenho andado a deliciar-me com as suas estantes, quando ele se fecha no atelier. Hoje descobri um magnífico começo. É no Maria Alelaide (1938), de Teixeira-Gomes. 

 

Maria adelaide completara dezasseis anos quando lhe colhi as primícias, e, à semelhança do que sucede com frequência na terra onde habitávamos, os pais, que eram pobres, consentiam em que mantivéssemos relações coram populo, indo eu todas as noites dormir na sua companhia. Podia tê-la tirado logo à família, montado-lhe casa à parte, mas nem eu nem os pais sentíamos grande desejo de efectuar a separação: eles porque tendo-a em sua companhia melhor lhe exploravam os proventos da mancebia; eu para não dar mais solidez à ligação, esperando vagamente que fosse passageira...

21
Jan09

Ave verum corpus

Eremita

 

Esta noite, em casa do inventor, deu-se uma daquelas coincidências órfãs de plateia, isto é, que dizem algo apenas à pessoa que as experimenta, sem que adiante estar a fornecer ao outro todos os elementos que julgamos necessários e suficientes para partilhar o espanto. Naturalmente, poupar-vos-ei aqui a tal proselitismo e o que se segue apenas me serve. Há uns dias coloquei no Ouriquense um vídeo com o Locus iste, de Bruckner. Trata-se de um peça para coro, muito simples, muito bela, muito popular entre os coros amadores e totalmente desconhecida do resto da população, inclusive dos melómanos. A peça diz-me muito porque em tempos cantei num coro e aqueles foram anos felizes. Há poucas experiências musicais superiores a estar dentro de um acorde e para mim o prazer de cantar no coro vinha exclusivamente da harmonia. Gozo superior só tive quando um solo de guitarra sobre uma outra guitarra me saía bem, o que não aconteceu muitas vezes. Cantar num coro é também uma experiência que, a posteriori, beneficia muito do estereótipo do "menino do coro". Pode ser que o estereótipo seja válido para meninos propriamente ditos, mas entrar para um coro aos 18 ou 19 anos é sobretudo ser posto perante a angústia de uma decisão: contralto ou soprano? Se há coristas que seguem o Ouriquense, abdico momentaneamente  da suspensão do proselitismo e o conselho é inequívoco: apaixonem-se por uma contralto. Se não se conseguirem apaixonar por uma contralto, mudem de coro ou de orientação sexual, mas não cedam nunca às sopranos. Uma soprano  é uma mulher má com uma voz boa e não há cá serpente, não há mais mistério. Bernard-Henry Lévy casou com uma soprano. Parece-vos um homem feliz? Justamente. Trata-se da excepção que confirma a regra.

 

Mas retomando: em casa do inventor, não tendo eu abandonado a janela de onde contemplávamos os baloiços da casa do meu tio, o meu anfitrião afastou-se de mim, sem que tivesse perdido o fio ao seu raciocínio (apenas subiu o volume de voz em conformidade com o afastamento), para logo voltar. Instantes depois, dir-se-ia mais atrás que detrás dele, ouviu-se uma orquestra. Era o começo do Ave verum corpus, de Mozart, uma peça muito  simples, muito bela, muito popular entre os habitantes do planeta minimamente educados. 

 

(cont)

11
Dez08

...

Eremita

 

 

Tenho passado os serões em casa do inventor. Adio confrontá-lo com o facto de que a máquina de movimento perpétuo é uma invenção que as leis da física não permitem. Não percebi ainda se esta sua quimera é um modo de vida ou uma penitência. Não parece resultar da ignorância, pois ele tem uma biblioteca bem fornecida e pela forma como se expressa pareceu-me muito inteligente. Diria mesmo que é excessivamente lógico, o que cria um novo paradoxo. Em regra estas pessoas induzem-me uma sensação de profunda desolação, mas ele consegue atrair-me e até deixar-me naquele torpor com que reconheço de imediato quem me faz sentir bem. Quando era adolescente cheguei a tomar esta sensação por atracção sexual, o que me trouxe grandes angústias. É verdade que se trata de uma sensação com uma expressão muito física  - chega a subir pela espinha e parece que alguém nos deu uma massagem - mas fiquei em paz quando a experimentei também diante de uma paisagem. Foi como se as acusações de incesto, homossexualidade e bestialismo que me vergavam tivessem de repente sido apagadas. Mas insisto: não percebo mesmo o que me atrai no inventor. 

10
Dez08

...

Eremita

 

A entrada do inventor que persegue a máquina de movimento perpétuo coloca uma série de problemas cuja resolução tenho vindo a adiar. Que nome lhe dar? É pouco prático continuar a tratá-lo por "aquele que persegue a máquina de movimento perpétuo". Admito optar por "inventor" e deixá-lo sem nome próprio, para continuar a centrar a trama em Tatiana - e em Igor, por quem começo a sentir alguma simpatia. Que idade tem este homem? Sinto-me tentado a afastá-lo de mim uma geração -  duas começaria a soar pouco verosímil, pois o homem deve ter ainda algum vigor físico. Que vida passional para ele? Nenhuma. O inventor vive obcecado com um único desafio - e seria interessante fazer-lhe uma biografia sem trauma amoroso ou excentricidade que o explique. Que interesse então lhe desperto eu? Um interesse que nasça de uma mentira minha para o cativar. Mas como justificar o meu investimento nessa mentira? 

02
Dez08

A mão de Igor

Eremita

Os encontros com Tatiana fora do  Pingo Doce escasseiam, mas na sexta passada encontrei-a ao serão no café. Quando entrei estava sozinha à mesa e desviou o olhar, mas antes que me pudesse aproximar vi que Igor saía da casa de banho, ainda a ajeitar a braguilha. "O Igor não lava as mãos", pensei. Sentei-me a duas mesas de distância, diante de Tatiana, mas com as imensas costas de Igor entre nós. 

 

Os serões no café são dominados pela televisão, que Tatiana e Igor acompanham sem reagir ao zapping. Igor passou a noite a descascar pevides e a beber aguardente. Visto pelas costas, com aquele excesso de corpulência que lhe faz uma prega no pescoço grosso, o cabelo rapado a pente de tamanho 5 e os cotovelos ligeiramente afastados do corpo e simétricos  - uma tentativa de concentrar a destria na ponta dos dedos, mas que não evitava um chavascal de cascas a seus pés -, Igor parecia um símio. Talvez por isso, quando por momentos se espreguiçou, esticando os braços para trás com os os punhos cerrados, a sua mão direita ficou tão perto de mim e exactamente no enfiamento de Tatiana que se gerou um trompe d'oeil: vi nele um King Kong de loira presa no abraço dos seus dedos crispados. Tive uma reacção instintiva, levantei-me da cadeira e gritei: "Igor!". O símio virou-se então para mim, com os olhos pequeninos e brilhantes, a tez das bochechas vermelha  como as nádegas de um mandril  e um sorriso de anestesia. Atrás dele, Tatiana olhava-me  com um esgar de horror, quem sabe se por se lembrar daqueles que Igor  despachou nas pancadarias de bar. Só me ocorreu rematar a exclamação com "... Stravinsky! Estão a tocar Stravinsky na televisão... Um homónimo seu, Igor". Igor abriu o sorriso numa gargalhada, creio que sem ter percebido o que eu dissera, ofereceu-me a mão e depois do cumprimento voltou à sua pose prostrada de macho dominante. Tatiana baixou e levantou os olhos para mim, com um misto de condescendência e de cumplicidade. Eu mantive o braço direito pendido, e a mão abaixo do nível do assento, afastada do resto do corpo. A noite decorreu sem mais incidentes. Só à saída um homem de porte enxuto que devia ter uns 60 anos me pegou pelo braço, para me sussurrar: "então o amigo confunde Smetana com Stravinsky? Fixe o que eu lhe digo: sempre que estiver a passar um daqueles separadores na televisão com lagos e cisnes, é provável que se trate da Die Moldau". Foi assim que conheci o inventor que persegue a máquina de movimento perpétuo. Ofereci-lhe a mão esquerda e ele nem reparou - pode ser que seja canhoto como eu.

 

19
Ago08

...

Eremita

 

 

Dois elementos a usar recorrentemente: os estendais de roupa e o baloiço da casa do tio. Não me convém a fama de tarado por roupa interior - até porque seria injusta - e delegar a missão numa personagem que ninguém conhece e que actua pela calada é uma solução. A tara desta criatura não é por roupa interior feminina, o que seria aborrecido, mas sim por boxers e outras cuecas. Acompanhar-se-á depois a génese de um mito na vila, de dinâmica comparável ao mito urbano, apenas diferente na escala: o homem roubaria as cuecas para curar um desgosto de amor, agravado por ter  respondido à convocação para que fosse buscar as suas cuecas a casa da namorada. Impossibilitado de corrigir esse erro diplomático, vergado pela imagem das cuecas lavadas, dobradas e  entregues com a solenidade de quem devolve um estandarte que deixou fazer sentido hastear naquelas paragens, só resta a esta desequilibrada criatura roubar todas as cuecas nos estendais da roupa enquanto rosna baixinho: "sou um frouxo, o Chamberlain da cueca". Trata-se de um gesto vingativo, de quem pretende perturbar a harmonia doméstica que lhe foi negada, mas também profundamente idiota, de quem confunde causa com efeito, algo que em antropologia se designa por cargo cult  - passo o academicismo.


Quanto ao baloiço da casa do tio, o melhor é fazer dele um objecto com propriedades hipnóticas ou então um mero artifício para a analepse. Explorar também a possibilidade de o baloiço ser usado por um inventor da vila, mistura do cigano Melquíades (Márquez) com o velho Atílio (telenovela O Casarão) que pretendia fazer ouro a partir do esterco que remexia numa banheira. Este inventor julga que a solução para a máquina de movimento perpétuo é um lubrificante feito à base de um azeite por ele muito alterado, obtido a partir de umas oliveiras que só crescem nas redondezas. O homem actua também pela calada, embora os seus propósitos sejam mais nobres e aparentemente menos idiotas. Noite sim noite não, galga o muro da casa dos meus tios para lubrificar os 3 baloiços de forma distinta, imprimindo-lhe depois exactamente o mesmo movimento. Apressa-se a deixar a casa e é da rua principal que mede o tempo que cada baloiço demora a parar. Noite não noite sim, trabalha até de madrugada com base nas observações feitas na véspera. Evitar ao máximo falar da rapariga que muitos anos depois se suicidou e com quem baloucei tantas vezes.

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