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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

14
Set11

Escolas


Eremita

Rogério Casanova escreveu recentemente (Público) o primeiro texto decente sobre David Foster Wallace a aparecer na imprensa lusa e talvez contribua para que alguém traduza o americano (good luck). Dito isto, Casanova é mais um discípulo da escola que se rege pelo mandamento "Não falarás do suicídio de DFW", que se opõe diametralmente à escola adepta de uma reinterpretação da obra de DFW à luz da sua morte. Não querendo com isto provocar o Judeu, é natural que os debates se polarizem. O problema não está no pólo que se escolhe, mas no que essa escolha pressupõe. Não é um perigo universal. No debate sobre a possível causa humana para o aquecimento global, a escolha não coloca ninguém numa posição à partida subserviente. Já nos debates entre cristãos e ateus, os primeiros assumem sempre a dianteira, pois os segundos são definidos ou definem-se a si próprios pela negativa. No caso de DFW, a polarização também não favorece quem faz do seu suicídio um tabu. Isto não me ocorreu lendo algum dos textos de DFW mais facilmente associáveis ao suícidio, como o The Depressed Person. Foi ao ler o ensaio sobre a autobiografia de Tracy Austin, o prodígio do ténis feminino que viu a sua carreira terminar aos 21 anos. Uma das teses do texto é a de que o discurso habitualmente aborrecido e cheio de chavões dos campeões traduz uma autoconfiança e incapacidade de entrar nas espirais da dúvida que são essenciais ao sucesso, mas há um subtexto, provavelmente inconscientemente censurado, alimentado pelo absoluto desconcerto de um DFW a tentar entender como aquela mulher não soçobrou com o fim da sua carreira no ténis. 

 

Sem tempo para mais agora, prometo voltar aqui. Prometo mesmo. Por uma vez, acreditem em mim.


26
Jul11

Cheiro e riso


Eremita

 [reformulado - umas 5 vezes]

James Orin Incandeza, Jr., pai de Hal, Mario e Orin, suicida-se colocando a cabeça dentro de um aparelho de microondas. É Hal quem primeiro o encontra morto e a experiência leva-o a umas sessões de terapia.

 

'The grief-therapist encouraged me to go with my paroxysmic feelings, to name and honor my rage. He got more and more pleased and excited as I angrily told him I flat-out refused to feel iota-one of guilt of any kind. I said what, I was supposed to have lost even more quickly to Freer, so I could have come around HmH in time to stop Himself? It wasn't my fault, I said. It was not my fault I found him, I shouted; I was down to black street-socks, I had legitimate emergency-grade laundry to do. By this time I was pounding myself on the breastbone with rage as I said that it just by-God was not my fault that —’
That what?’
'That's just what the grief-therapist said. The professional literature had a whole bold-font section on Abrupt Pauses in High- Affect Speech. The grief-therapist was now leaning way forward at the waist. His lips were wet. I was in The Zone, therapeutically speaking. I felt on top of things for the first time in a long time. I broke eye-contact with him. That I'd been hungry, I muttered.’
'Come again?’
'That's just what he said, the grief-therapist. I muttered that it was nothing, just that it damn sure wasn't my fault that I had the reaction I did when I came through the front door of HmH, before I came into the kitchen to get to the basement stairs and found Himself with his head in what was left of the microwave. When I first came in and was still in the foyer trying to get my shoes off without putting the dirty laundry-bag down on the white carpet and hopping around and couldn't be expected to have any idea what had happened. I said nobody can choose or have any control over their first unconscious thoughts or reactions when they come into a house. I said it wasn't my fault that my first unconscious thought turned out to be —’
'Jesus, kid, what?’
' "That something smelled delicious!" I screamed. The force of my shriek almost sent the grief-therapist over backwards in his leather chair. A couple credentials fell off the wall. I bent over in my own nonleather chair as if for a crash-landing. I put a hand to each temple and rocked back in forth in the chair, weeping. It came out between sobs and screams. That it'd been four hours plus since lunchtime and I'd worked hard and played hard and I was starved. That the saliva had started the minute I came through the door. That golly something smells delicious was my first reaction!’
'But you forgave yourself.’   David Foster Wallace, Infinite Jest

 

O cheiro apetitoso que Hal sente, ainda sem estar a par da tragédia que acaba de ter lugar, é o da cabeça chamuscada de seu pai. O estereotipado episódio do incesto involuntário, presente dos Gregos a Eça de Queirós e capaz de induzir a insidiosa culpa que vem de uma revelação que nos torna cúmplices inimputáveis mas consumados, é aqui pervertido, embora apenas no que tem de acessório, para dar origem a uma cena hilariante. A cena é extraordinária porque o riso não é um simples indicador de prazer ou de empatia. Hal sofre e o  leitor ri - aliás, ri justamente por estar iluminado por aquilo que Hal desconhecia. Mas é como se estes extremos se tocassem e ambos - personagem e leitor -  fossem vítimas da mesma experiência. A única diferença qualitativa, além da brutal diferença de intensidade, é que o leitor não pode ser salvo por aquilo que poderia eventualmente salvar Hal (a percepção da sua ignorância). Hal não chega sequer a ser traído pelos seus sentidos, é traído pela realidade. O leitor sofre uma traição mais íntima, porque é o seu corpo que falha, visto que há um instante em que, no contacto com o mundo livre de constrangimentos sociais que só o solitário acto de ler permite, não conseguimos reprimir a vontade de rir. E no fim não dá para reler esta cena macabra sem rir e poder, assim, reclamar alguma civilidade, tal como seria inútil a Hal ter voltado a passar por aquela porta em busca de paz. Mas é esta a forma de nos aproximamos de Hal e experimentamos com ligeireza - obrigado, David - a sensação de que os traumas, com ou sem terapia, não seriam traumas se não fossem irreversíveis.  A salvação é aguentar, não há mais nada. Agora preciso de ir jogar bilhar com o Judeu.

03
Abr11

Infinita mortalidade


Eremita

 

Já foi por outros tratada a angústia do leitor. Ele começa a fazer contas ao tempo de vida que lhe resta, aos livros que leu, à sua velocidade de leitura, medida em número de páginas ou centímetros de lombada por unidade de tempo, e conclui que não lhe será fisicamente possível ler tudo o que gostaria de ler. Como há alguma matemática neste exercício, talvez as gentes das humanidades falhem a estimativa e vivam numa ilusão de imortalidade, mas quem sempre acertava no ponto em que se cruzam o comboio que parte de Lisboa em direcção ao Porto à velocidade de 90 Km e o comboio que, ao mesmo tempo, sai do Porto em direcção a Lisboa a 80 Km, tem uma noção exacta do fim da linha. Em regra, esta angústia traduz-se num lamento público e, na sua forma mais criativa, o lamento gera soluções, sendo a seguinte ainda mais estapafúrdia do que a anterior: fazer um curso de leitura acelerada, abandonar os filhos, a mulher e o trabalho, contratar um actor que ande sempre ao nosso lado e nos leia ao ouvido, inventar uma engenhoca que se aplique na cabeça e coloque o livro à distância ideal, deixando as mãos livres e o ângulo de visão ainda amplo o suficiente para evitar acidentes enquanto se caminha. Na forma mais aborrecida, o leitor apenas refere os livros que leu, os que conta ler e os que provavelmente já não lerá e gostaria. Sinto esta sofreguidão com todos os autores que me parece importante conhecer, menos com David Foster Wallace. Devoro imediatamente tudo o que encontro escrito sobre ele, de que é exemplo esta recensão de The Pale King (belo título, livre de verbos), a obra póstuma e inacabada, mas consumo a sua prosa muito devagar, parecendo dar goles pequeninos no último copo de um vinho precioso. Pode ser que se trate de uma espécie de tributo, uma forma de lhe prolongar a existência, como se ele continuasse vivo enquanto houver prosa virgem por descobrir, mas eu apenas já só acredito no critério da parcimónia para decidir entre duas explicações e aprendi a desconfiar das que são belas porque me comovem. 

18
Nov10

Um problema tipicamente foster-wallaciano


Eremita

Ler Infinite Jest em espaços públicos é embaraçoso. O livro é tão grande que há o risco de sermos confundidos com um praticante de um novo culto monoteísta. Acresce que ter o livro aberto ainda no início deixa-me numa posição algo frágil. Daí ter tentado ler com o livro rodado a 180 graus. Para quem me observasse, parecia que estava perto do fim. Mas o esforço era insuportável, embora naquela orientação a mancha gráfica parecesse ter sido escrita em cirílico, o que por momentos acrescentou autoridade à obra.

16
Out10

Eu devia era acabar o livro


Eremita

Este texto de Rui Catalão sobre David Foster Wallace não é mau. Catalão mergulhou um mês na escrita de Foster Wallace e é evidente que não poderia voltar à superfície com a pérola - mas trouxe uma ostra, o que é honesto. Ele faz com Wallace o que Wallace fez com o Festival da Lagosta e os direitos dos animais. Para fazer com Wallace o que Wallace fez com Federer, o Ípsilon teria de ter feito com Rogério Casanova o que fez com Rui Catalão: encomendar-lhe um texto sobre Wallace (creio que não troquei nenhum nome). Mas o texto não é mau, repito, e devemos tolerar os pecados da pesquisa via internet, bem como as 10 notas de rodapé à Foster Wallace, um misto de homenagem e de impulso adolescente de que ficamos reféns no início do convívio com o escritor.

 

O texto é sobretudo muito eficaz a despertar interesse na tradução da obra de David Foster Wallace*1, por alimentar o culto da imagem do escritor sobredotado e suicida - no fundo, a Sylvia Plath*2 de que a rapaziada com a mania da prosa e uma relação íntima com a posteridade andou durante décadas necessitada. Não me parece desajustado, pois Wallace passa precisamente essa impressão. Por outro lado, cheguei ao fim do texto e lembrei-me de um comentário de Gore Vidal a um então futuro artigo sobre ele escrito por Martin Amis: "... a bit too short on the work" (cito de memória).

 

* Se me permitem esta nota de rodapé, não estou certo de que traduzir Infinite Jest seja uma boa ideia. Não só a escrita é tão idiomática que muito se perderia, como o tradutor zeloso teria necessidade de introduzir numerosas notas de rodapé às mais de trezentas notas de rodapé do romance. Nesse processo, não é improvável que ficasse louco e começasse a adicionar notas de rodapé às suas próprias notas de rodapé, fazendo o seu próprio triângulo de Serrpinsy, mas à laia de quadratura do círculo. Preocupa-me pois que haja a tentação de traduzir esta obra, sobretudo porque a pessoa mais competente e a escolha natural é Rogério Casanova - e seria trágico vê-lo consumir-se nesta empreitada [muitas exclamações]. Havendo uma garantia com peso legal de que Rogério Casanova nunca traduzirá Infinite Jest, é evidente que a cabeça começa logo a divagar. Nos momentos mais pervversos, penso no rácio entre o tamanho da letra dos nomes "David Foster Wallace" e "Vasco Graça Moura" na capa da tradução do Jest; penso também se os alicerces da fortaleza psicológica que Graça Moura aparenta ser resistiriam, mas é a inveja a tomar conta de mim. No fundo, o que me fascina em Graça Moura ao ponto de provavelmente vir a fazer dele a única referência viva em BW é a fusão da ética de trabalho e competência com a aparente solidez psicológica. É possível ter ética e competência (Lobo Antunes) e solidez psicológica (Pacheco Pereira), mas é raro ter as duas coisas.

 

*2 Para ser perceber o comentário de Sérgio Lavos, escrevi "Platt" na primeira versão - foi gralha (e até uma gralha interessante), mas a blogosfera é como os directos televisivos e privar o leitor de episódicos ascendentes plenos de  meritocracia e oportunidade seria perder a autoridade moral. Sylvia Plath, Plath, Plath. Castigo: ler 20 poemas de Sylvia Plath até segunda-feira e escrever um texto de 2000 palavras sobre o declínio da palavra "poetisa".

 


10
Out10

Ransom Center


Eremita

 

Primeira página do manuscrito de Infinite Jest

A série Infinite Jest passa a ser ilustrada com imagens retiradas do arquivo David Foster Wallace  do Ransom Center, da Universidade do Texas, que, para possível desespero de Rogério Casanova, é composto por"works, personal and career-related materials and copies of works by Don DeLillo".

O mais impressionante no Jest - gosto muito da tensão que vem de uma escolha discutível do género - é a qualidade média de cada frase, tendo em conta a dimensão do livro. Se, para criar uma escala de competência, um chimpanzé, a Vera Roquete e aquela senhora inglesa que diz ser capaz de falar com os mortos (ou seja, também com o falecido David Foster Wallace) escolhessem citações do livro, todas teriam sensivelmente a mesma qualidade. Perante isto, a única prova de que estamos mesmo a ler o livro seria catar as raríssimas passagens menos boas, algo que obviamente não farei pois a adolescência foi há muito tempo. Aqui fica mais uma passagem, andolitá cara de amendoá...

 

I’m predicting it right here, young sir Jim. You are going to be a great tennis player. I was near-great. You will be truly great. You will be the real thing. I know I haven’t taught you to play yet, I know this is your first time, Jim, Jesus, relax, I know. It doesn’t affect my predictive sense. You will overshadow and obliterate me. Today you are starting, and within a very few years I know all too well you will be able to beat me out there, and on the day you first beat me I may well weep. It’ll be out of a sort of selfless pride, an obliterated father’s terrible joy. I feel it, Jim, even here, standing on hot gravel and looking: in your eyes I see the appreciation of angle, a prescience re spin, the way you already adjust your overlarge and apparently clumsy child’s body in the chair so it’s at the line of best force against dish, spoon, lens-grinding appliance, a big book’s stiff bend. You do it unconsciously. You have no idea. But I watch, very closely. Don’t ever think I don’t, son. página 158


 

 

 

 

 

30
Set10

Infinite joy


Eremita

São tantas as imagens e as passagens de Infinite Jest que se instalam na cabeça, que seria estúpido ler o livro em três semanas de dedicação exclusiva e não prolongar o prazer. Esta obra precisa de tempo para render o máximo. O único problema é a comparação com escritores que vou lendo em paralelo. Bolaño? Por amor de Deus... Wallace estava mesmo noutra dimensão. Não vou ao ponto de afirmar que me está a dar mais gozo do que outros autores que li no último ano, como F.S. Fiztgerald (a melancolia da prosa), Chesterton (a elegância da retórica) e Melville (as passagens sobre o cachalote, de longe as melhores descrições de animais de sempre que encontrei na literatura, incluindo descrições de mulheres), mas já vai para semanas que li a entrevista a Hal Incandenza, o primeiro e único encontro quase-romântico de um dos seus irmãos, uma tese sobre o Capitão Furillo, reflexões sobre as três formas de lidar com o (in)sucesso, e o valor no mercado negro da imaculada urina de menino, procurada por aqueles que precisam de passar um teste de dopagem nestes "chemically challenged times". Tudo isto parece ter ficado permanentemente gravado na memória e é a experiência oposta a quando sou exposto a uma anedota, que invariável e imediatamente esqueço. É isso. Wallace transforma todos os escritores medianos e medíocres em anedotas ambulantes. Apetece fazer dele, a título infelizmente póstumo, o segundo melhor homem do mundo (muito perto de Leo Brouwer).

22
Ago10

This is funny


Eremita

 

Infinite Jest - notas de rodapé

Contexto: um rapaz está a ser entrevistado por um painel para entrar na Universidade. O painel sabe que o rapaz é um bom atleta (tenista) mas levanta dúvidas sobre o seu currículo académico. O rapaz tinha ido acompanhado pelo tio, que foi fazendo as despesas da conversa, até que, pressionado pelo painel, começa a falar pela primeira vez.

 

"My application's not bought", I am telling them, calling into the darkeness of the red cave that opens out before closed eyes (1). "I am not just  a boy who plays tennis. I have an intricate history. Experiences and fellings. I'm complex. (2)

 

"I read", I say. "I study and I read. I bet I've read everything you've read. Don't think I haven't. I consume libraries. I wear out spines and ROM-drives. (3) I do things like get a taxi and say: "The library, and step on it". (4)

 

 

(1) O momento Mendes Bota da passagem, isto é, aquele em que o autor estabelece um vínculo com todo e qualquer leitor, embora Wallace consiga fazê-lo sem comprometer a sua inteligência, nem a do leitor, o que também nos lembra que morar em Massamá é uma característica irrelevante se um dia Pedro Passos Coelho tentar a internacionalização da sua carreira. A frase serve ainda para informar o leitor de que a personagem começa a falar com os olhos fechados e que só os abrirá no fim da sua erupção discursiva ou curto percurso oratório, se preferirem- a escrita por vezes é só isto, informa as pessoas.

(2) isto é um clichê que esvazia as expectativas do leitor.

(3) isto é só para para ganhar tempo.

(4) isto é hilariante. Deeply goofy, completamente inesperado, económico e cinematográfico. Mas o mais impressionante é que o melhor surge a seguir.

 

Terminado o Moby, inicio a leitura de um calhamaço ainda maior: Infinite Jest, de David Foster Wallace. Se não acabar até ao Natal, votarei em Cavaco Silva. Este anúncio não mancha o meu percurso cívico e opinativo, antes visa frisar o meu compromisso com a leitura. Espero que o meu percurso blogosférico e interventivo seja suficiente para não deixar dúvidas a esse respeito.

 

É claro que houve planeamento prévio. Cronometrei o tempo que demoro a consumir 2 páginas de Infinite Jest. Para minha surpresa, demorei mais de 6 minutos. A surpresa foi tanta que repeti a cronometragem (obviamente, para um par de páginas virgens), demorando nesta segunda vez 8' 7''. Nunca pensei que lesse tão devagar e um dia terei de calcular o tempo médio de leitura em função da língua e do autor, da hora do dia, da época do ano, do dia da semana, do que comi na véspera, do período que separa o momento de leitura da última leitura de um texto de Domingos Amaral e de um texto de Brodsky, da qualidade do papel, do tipo de letra usada na impressão, da minha postura, do número de estímulos inanimados circundantes, da presença de pessoas e dos seus graus de simpatia, beleza, sensualidade e exposição de pele, do efeito da presença de uma linha do horizonte, etc., estudo que conto apresentar, numa primeira fase, sob a forma de histogramas de barras com desvio padrão e, numa segunda fase, mediante financiamento estatal atribuído por um dos programas de incentivo à leitura, na forma de análise de componentes principais que extrairá os grandes segredos desta matriz de dados, para benefício da comunidade e em total acerto com o que seria a projecção do  meu percurso individual enquanto pessoa. Retomando: 4' por página, 1079 páginas, 4316' (uma estimativa por defeito, visto que a minha edição não tem notas de rodapé mas um capítulo de notas, o que provavelmente se traduzirá em 10'' extra para encontrar cada uma das 388 notas e retomar a leitura), ou seja, 3 dias de leitura ininterrupta. Impressionante? Nem por isso.

 

Nem por isso.  Uma pessoa organizada, que consiga ler 12 horas por dia, mesmo lendo a um ritmo como o meu, que pode ser confundido com o dos que mergulham na etimologia de cada palavra e vão teletransportados até à Grécia à Roma antigas antes do primeiro ponto final, mas também com o daqueles que têm alguma dificuldade com os endadeamentos lógicos e precisam de um dicionário, como dizia, essa pessoa despacha Infinite Jest em menos de uma semana de dedicação exclusiva, o que não me parece hercúleo. Convém pois começar logo por desconstruir o mito dos leitores de fundo.

 

Dito isto, Infinite Jest tem um dos melhores arranques que conheço e, apenas pelo impacto, sem procurar outros paralelos, coloco-o junto de Para sempre, A Jangada de Pedra D. Quixote, entre outros, impondo-se aqui uma nota de rodapé derradeira para as falhas de memória, que serão poucas e eventuais, e para as falhas que resultam de décadas de leituras em atraso, que são infinitas e uma certeza - recentemente, vejam bem a vergonha, depois de eu ter elogiado a expressão, esclareceram-me com uma delicadeza que traduz um nobre conflito interno entre rigor, modéstia e caridade, sobre a autoria de "azorean torpor". Enfim, não poderia terminar já e violentar aquilo que é o meu percurso consciencioso e ético. Por isso sublinho que estou apaixonado por David Foster Wallace como se fosse uma colegial (de college) de 18 anos e que o David escreve para mim como se jogasse em casa, beneficiando de uma diferença de idade que o transforma num irmão mais velho ideal, se me é permitida a incestuosa associação de ideias, enquanto Lobo Antunes sempre escreveu para mim como se viesse a um campo onde, por tradição, nunca ganha, o que faz da minha cabeça um desses infernos,  se me é também permitido - abuso da paciência do que aqui chegou - este futebolês pouco consonante com o meu percurso nas suas múltiplas direcções, mas que é até um eufemismo para o prazer culposo - tradução de guilty preasure - que espremi da epifania que foi perceber como o virtuoso Lobo Antunes (dos primeiros livros) é completamente esmagado (em virtuosismo vistoso) pelo David (pronunciado aqui à portuguesa, sff). Agora é que é: sim, há neste novelo elementos reconhecíveis na prosa do maradona, mas foi mais ou menos casual, porque a ideia desta série sobre a Jest - nasce um petit nom - é que a voz se aproxime de um discurso falado forjado, cheio de avanços e recuos, envios e reenvios, ressalvas, guinadas, verborreia e até o ocasional palavrão, como "foda-se?" e  "levar no cu?", nas suas múltiplas declinações.  Aliás, para esclarecer que não há pastiche, relembro que a única voz que me entra na cabeça sem pedir licença é a voz de Herzog a falar inglês (nota mental: usar este detalhe no BW, talvez fazendo Guillaume depender da voz de Hans falando em inglês para se conseguir acalmar)... Ah, e aproveitar "prazer culposo" para um poema, mas que não poderá conter alusões à pornografia nem a drogas e deverá sobretudo focar-se nas falhas íntimas que não têm moldura penal, tanto na Justiça como no relacionamento social (se mantidas secretas, bem entendido).

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