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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

14
Jan15

3


Eremita

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Anos antes de entrar para a faculdade, Julião começou a pensar acima das suas possibilidades, como alguém lhe viria a dizer com poucos meses antes de a expressão se tornar frequente no espaço público. Apesar de maliciosa, havia algum rigor na descrição. Julião viciara-se no constante retalhar da humanidade em dois grandes grupos e num maniqueísmo radical que não seria grave se ele desse menos importância à sua própria palavra. Mas como aliara o fascínio pelas expressões grandiloquentes que nele pareciam nascer sem grande esforço a uma obsessão pela coerência, o pensamento de Julião passou a estar mais dependente da sua palavra do que a palavra do pensamento. 

 

Armado com os resultados de uns testes psicotécnicos do seu filho, durante o Outono e Primavera de 2007 o seu pai tentou convencê-lo a seguir Direito, mas Julião já se sentia prisioneiro de uma máxima sua - "aprende um ofício que não corresponda à tua vocação" - e garantiu que conseguiria média para entrar em Bioquímica na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Julião nem sequer elaborou uma teoria para justificar a máxima a posteriori, limitando-se a enunciar uma longa lista de escritores que exerceram profissões técnicas, como "Fernando Namora", anuiu o pai, e "Primo... Levi, pai" rematou o filho, gozando a pausa. 

 

13
Jan15

2


Eremita

imagem-do-filme-2001-uma-odisseia-no-espaco.jpg

 

Por insistência dos pais, Julião começou a comer a sopa com a mão direita por volta dos 5 anos de idade. Eles eram pessoas sensatas e esclarecidas. Se na viragem para o século XXI o canhoto já não era discriminado na escola há algumas décadas, menos razões havia para uma reeducação forçada em casa. Comer a sopa era o único acto social que criava um problema ao canhoto, a saber, o choque de cotovelos à mesa. Por isso os pais lhe disseram para contrariar o hábito de pegar na colher com a mão esquerda, o que acabou por suceder. Foi já na adolescência que Julião recuperou o seu instinto natural. Tratou-se então de um gesto de tal modo deliberado que podemos facilmente identificar a causa próxima: uma sessão na Cinemateca de 2001, Odisseia no Espaço, o filme de Kubrick. Todos recordarão a cena em que um hominídeo põe o engenho ao serviço da violência, mas quase ninguém nota que o fémur mortal é levantado do chão com a mão direita. Julião notou. No dia seguinte, mas só ao jantar, pegou na colher com a mão esquerda e mergulhou-a no caldo verde com a lentidão de quem está consciente de viver um episódio importante da sua biografia e se esforça por registar todos os pormenores, como a presença de uma rodela de chouriço na sopa. Os pais só repararam ao fim de algumas refeições, provavelmente por serem apenas três à mesa. E depois não se preocuparam com a reposta seca do rapaz, a esvaziar qualquer hipótese de voltar a usar a mão direita para comer a sopa; pelo contrário, interpretaram a surpreendente firmeza de Julião como o despontar já algo tardio de uma "personalidade forte".

09
Jan15

1


Eremita

Paul-Newman-Arvo-Ojalla-Left-Handed-Gun.jpg

 

 

“Temos de aspirar a tornarmo-nos canhotos e não a reconhecer que o somos.”

 

Esta frase foi escrita por Julião a esferográfica numa tira de papel quadriculado que ele colou com fita-cola na parede lisa, para que estivesse à sua frente quando sentado à secretária. A sua mãe deu com a frase numa lide doméstica e sorriu. Contou então ao pai, que não achou nenhuma graça, mas nada fez. Durante o resto do percurso universitário de Julião, nenhum dos progenitores se deu conta de que a frase é uma paráfrase de uma conhecida citação de Foucault. Antes assim. Para aquele pai, muito pior do que ter um filho comunista seria ter um filho homossexual. Mas Julião não era homossexual e  o seu comunismo foi efémero impulso infanto-juvenil.

 

07
Jan15

Uma solução


Eremita

north-by-northwest-1959-007-roger-and-eve-toasting

Por ser canhoto, ando há anos a pensar em escrever um livro sobre esta condição, mas que não seja uma repetição dos livros de divulgação em inglês que já existem, nem apenas mais um título luso para aumentar uma bibliografia algo pífia  - "O Direito de Ser Canhoto", "Canhoto", "O pequeno livro dos canhotos", "A Criança Canhota"... -  que vive hoje subjugada pelo pícaro "A Punheta do Canhoto", do surrealista-abjeccionista Luís Filipe Coelho. A solução surgiu ontem e parece-me agora tão evidente que experimento uma ressaca de ovo de Colombo. Obviamente, será uma comédia política com muitas notas de rodapé. O Ouriquense alimentará uma sebenta para esta empreitada, a série Canhotismo.

 

 

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