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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

15
Dez11

Retrato-robô


Eremita

Devemos tomar ainda por banal qualquer ideia diametralmente oposta a uma ideia banal. Isto vale como regra de base e não como ortodoxia, sendo a explicação muito simples: quando a operação de transformação de uma ideia noutra ideia qualquer é simples, a desconfiança faz sentido, pois as manifestações de inteligência aparente, não ficando ao alcance de qualquer um, passam para as mãos de qualquer pessoa minimamente engenhosa que tenha descoberto o truque - o papagaio, por exemplo, é apenas um bicho que descobriu o truque da reprodução vocal, não o bicho que descobriu a fala com gramática sofisticada, mas, por momentos, ambos podem falar como Winston Churchill. É claro que esta vigilância deve ser tão mais apertada quanto mais importante para nós for a pessoa que produziu a ideia; por outras palavras, este processo ocorre sobretudo dentro da nossa cabeça e vigia  o nosso próprio pensamento. Vem isto a propósito da tão batida autonomia das personagens literárias, pelo menos no nosso país, que é um país à mercê das entrevistas de Lobo Antunes. Não tive propriamente a ideia oposta, o que seria um embaraçoso caso de ignorância  - Nabokov, como é sabido, cultivou a ideia de que o escritor é um tirano para as suas personagens. Mas a ideia que tive não consegue sair deste espectro lobo-nabokoviano e, nesse sentido, é uma ideia suspeita.

 

A verdade é que me cruzei com um cartaz colado à parede que anunciava, pela pose e olhar magnético de um maestro, um concerto de música clássica, algo raro em Ourique, que é sobretudo terra para anunciar touradas e festas de Verão, e vi ali, mas distintamente, como se me lembrasse, o rosto de Guillaume, o compositor em BW. Ora, a personalidade de Guillaume é exacerbada a partir da de um amigo, mas se um fosse posto ao lado do outro ninguém os tomaria por irmãos; os true events no rosto de Guilhaume são apenas as suas expressões genuínas. Para que isso acontecesse...

 

Continua

 

 

 

 

 

 

08
Mai11

Ansiedade na escrita


Eremita

Está um dia propício para a prática da escrita e sinto-me muito ansioso. Terminei dois capítulos que tiveram apenas mixed reviews de um painel de 5 leitores, mas a ansiedade é outra: sinto-me como a Alice do Carroll, quando a Rainha Vermelha lhe diz " Now, here, you see, it takes all the running you can do, to keep in the same place. If you want to get somewhere else, you must run at least twice as fast as that!" O esforço que tenho de fazer para evitar a solução fácil de injectar biologia nesta história consome-me. Entretanto, têm surgido algumas ideias e esclareci dúvidas.

 

1. Parece-me óbvio que não vou conseguir fugir à actualidade. O BW não será o primeiro romance sobre a crise, será talvez o vigésimo quinto, se tudo correr bem.

 

2. A misoginia na literatura é um recurso muito fácil e batido. Devo guardar a misoginia para a vida real em Ourique.

 

3. Sendo Hans alemão, é importante que o homoerotismo em BW não se reduza a ele, pois não há nada mais esterotipado do que um alemão straight com pinta de gay.  Talvez valha a pena consultar um psicanalista e expulsar da minha cabeça esta cena recorrente em que Hans está a sair do mar e é observado em silêncio pelo narrador e por Guilhaume, enquanto para eles caminha (nota: descobrir o psiquiatra não-freudiano mais próximo de Ourique).

 

4. É importante evitar tentar resolver os problemas da nação com este livro; nas cenas passadas em 2036 Portugal estará como sempre esteve: em crise. Porém, penso criar uma metáfora política com o Sporting Clube Portugal e tenho-me divertido muito com esta ideia. O Sporting terá um ano glorioso em 2036, depois de décadas de decadência e o que o salvou foi um sistema comunista.

 

5. O tema central do BW continuará a não ser tratado nestas notas sobre o BW.

 

21
Jan11

2 down, 38 to go


Eremita

A conclusão do segundo capítulo de BW (que será um dos finais) libertou-me para começar a pensar nos capítulos intermédios. É a tarefa mais complicada. Como It was a dark and stormy night corre no nosso sangue, começar é sempre trivial, no conto e no romance.  A dificuldade está na conclusão. Mas se no conto o grande desafio é o fim, no romance (pela minha experiência de leitor) é a parte central que mais problemas levanta. Ainda assim, creio que tive duas ideias promissoras. Uma é sobre a relação de Hans com o seu biografado. A outra é sobre um plano para vencer a crise, posto em prática em 2020, que se articula bem com o tema central. O plano em si é  absurdo e demasiado actual, o que é sempre um risco, mas a ideia de tratar essencialmente o mesmo problema a dois níveis distintos - o individual e o colectivo (ou estatal) - parece-me organizadora.

11
Jan11

2036


Eremita

 

 

BW terá três tempos: 1994, 2006 e 2036. A terceira parte começará mais ou menos assim:

 

Quando penso naquele ano, emerge sempre a imagem da página dos meus arquivos sobre o Sporting Clube de Portugal em que escrevi  "14 de Junho de 2035: Campeões, porra!". Os anos chegavam como chegam sempre, um após o outro, num longo e ininterrupto contínuo de que eu, alheado do ritmo das estações, dos balanços feitos pela imprensa e do réveillon, só ia dando conta pela dificuldade crescente em adoptar a nova data. Na infância era raro esse erro sobreviver à primeira quinzena de Janeiro, talvez pela prática quotidiana de escrever as datas nos cadernos da escola. O certo é que, depois de adulto, em Fevereiro dava por mim ainda no ano anterior e a cada ano esse atrito do tempo foi ficando mais forte, para chegar a Março, a Abril, a Maio e a "14 Junho de 2035", o meu record pessoal, estabelecido - já se viu - em 2036. Apressei-me a emendar a data, também por ter presente a impossibilidade de o Sporting bisar um título. 2036 foi um ano absolutamente singular,  na história do meu clube e na minha vida.

 

Esta história parece estar a ser pensada para non-bestseller. Não o escrevo como disclaimer para um eventual fracasso comercial, o que seria cobarde e até parvo, nem no sentido de tratar a condição humana de um modo incompatível com o consumo em massa, o que seria pretensioso e até ridículo, mas por uma constelação de escolhas que afastarão o produto do grupo que lê mais romances: as mulheres. A misoginia de Guilhaume, o niilismo passional do narrador e, sobretudo, a usurpação de um tema que é tradicionalmente tido como feminino, jamais farão deste produto a primeira escolha da Oprah lusitana, quando aparecer uma. Mas até no futebol a escolha parece ter sido má. Para seduzir o editor e os futuros leitores, qualquer romancista experiente teria escolhido o Sport Lisboa e Benfica.

 

04
Nov10

2035


Eremita

 

Há fortes indícios de estar a produzir um manuscrito planeado para não ser um bestseller. Isto será interpretado como uma fuga ao duro confronto com a realidade, mas tudo tende naturalmente para um romance sem uma grande história de amor, em que não há trama policial, em que os capítulos têm nomes de homens estranhos, em que o tom é levemente misógino, em que o protagonista é adepto do mais decadente dos três grandes de Portugal, em que haverá apenas duas referências concretas à trepidante realidade nacional do pós-25 de Abril (Vasco Graça Moura e Rui Jordão) e em que o "tema" é absolutamente secundário, a julgar pelas prioridades que a sociedade elegeu.
03
Nov10

Baby steps


Eremita

 

 

 

The loathsome cruelty of mankind to man forms one of his inescapable, characteristic and differentiative features; and it is explicable only in terms of his carnivorous, and cannibalistic origin.

The blood-bespattered, slaughtergutted archives of human history from the earliest Egyptian and Sumerian records to the most recent atrocities of the Second World War accord with early universal cannibalism, with animal and human sacrificial practices or their substitutes in formalized religions and with the world-wide scalping, head-hunting, body-mutilating and necrophilic practices of mankind in proclaiming this common bloodlust differentiator, this predaceous habit, this mark of Cain that separates man dietetically fom his anthropoidal relatives and allies him rather with the deadliest of Carnivora. Raymond Dart

Tenho uma história e tenho um método. Falta recriar uma atmosfera de gabinete de filosofia natural, em que os conceitos da Biologia funcionam mais como animais empalhados e preservados em formol do que como teses. Por outras palavras, falta o mais difícil.

05
Out10

Uma solução


Eremita

 

 

 

Hooke

 

Hoje resolvi um problema complicado: os nomes dos capítulos. A solução é muito simples. Com excepção do primeiro e muito provavelmente do último capítulo, todos os outros terão nomes de biológos e de um ou outro médico. É importante que Darwin não apareça. Darwin é um dos nomes mais maltratados na história da civilização ocidental e não contem comigo para isso. Lamarck também não entrará, por ser demasiado batido; aliás, como aproveito apenas o apelido de cada nome, nem poderia gozar "Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de la Marck" em toda a sua plenitude. Mas quase todos serão figuras grandes da Biologia.  Penso em Vesalius, Leeuwenhoek, Haeckel, Buffon, Cuvier, Spallanzani, Kammerer e Goldschmidt, entre outros. Weismann terá honras de título e não acumulará nenhum capítulo.

 

Esta ideia ajuda-me a manter a concentração necessária à escrita de cada capítulo e o nome estará perfeitamente ajustado ao conteúdo, embora a associação não seja sempre óbvia, nem sequer para biólogos. Para o leitor, é mais importante que os nomes valham pela sua sonoridade do que pela biografia.

 

Estou em pulgas para começar o Spallanzani, mas por agora debato-me com o Leeuwenhoek - e não é que isto funciona mesmo muito melhor do que os números, mesmo quando são números romanos?

16
Ago10

Tábua de personagens de BW


Eremita

[actualização permanente]

 

Guillaume: maestro e compositor francês, com uma carreira internacional, que se instalou em Lisboa por amor. Hedonista, excêntrico, radical e sedutor, tem uma tara por violoncelistas que o envergonha por ser tão estereotipada. É uma "força da natureza", com a segurança de Yevgeny Vasil'evich Bazarov, a personagem de Turgenev, e o radicalismo de Carlos Vidal, a personagem do blog 5 Dias. Padece da síndroma de Waardenburg, que lhe deu um olho de cada cor. A única kriptonite de Guillaume são as comédias de Louis de Funès, nomeadamente uma cena, recorrente na sua cabeça e que ele já não consegue associar a nenhum dos filmes, em que o actor diz: "Oh, j'va mourir".

 

Paulo: é o primogénito de Guillaume, filho do seu primeiro e único casamento, e órfão de mãe. Tem uma inteligência matemática acima da média.

 

Patrícia: a única filha de Guillaume e também órfã de mãe. Tem uma destreza verbal acima da média e a partir dos seis anos deixou de contar anedotas, para passar a exprimir-se em versos decassilábicos, não resistindo a um ocasional alexandrino. É a única personagem propositadamente inverosímil, não só pela peculiar forma como se expressa, mas também pelo conteúdo das suas afirmações, que incluem previsões acertadas e uma capacidade de análise rara numa criança de 10 anos. Outra manifestação do seu génio foi a precoce fixação pelo poeta, tradutor e ensaísta Vasco Graça Moura, iniciada com um tropismo irresistível que a levava a gatinhar na direcção da imagem televisiva do poeta e que depois foi ganhando qualidades adequadas ao cumprimento das grandes etapas da vida, como a primeira vez que caminhou, a primeira menstruação e o seu primeiro orgasmo.

 

Pedro: é o benjamim da família de Guillaume e o único que não foi amamentado pela sua mãe, que morreu no parto. Tem uma inteligência emocional acima da média e é impossível não gostar dele.

 

Hans: um académico alemão na reforma que veio para Portugal escrever a biografia de August Weismann e que nada todos os dias de madrugada no Tejo. O manuscrito da biografia ascenderia a mais de 20 000 cartões manuscritos (Hans é grande fã de Nabokov), mas ninguém o verá. Segundo ele, a demora na publicação da obra explica-se por se tratar da biografia definitiva, que é sempre uma "segunda morte para o biografado".

 

 

Note to self: recorrer a apelidos apenas em caso de estrita necessidade (mas evitar os eslavos).

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