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OURIQ

Um diário trasladado

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10
Jul19

Quando a direita critica a "usurpação cultural"


Eremita

A "usurpação cultural", uma acusação que nos diz que o contrabaixista dinamarquês Niels-Henning Ørsted Pedersen teve um comportamento indigno em 1977, quando tocou com Oscar Peterson uma música inventada por negros, tende a ser usada por fanáticos de esquerda. Mas hoje, no Observador, podemos ler um belo exemplo de acusação de "usurpação cultural" pelo maior especialista nacional no tema, o cronista Gabriel Mithá Ribeiro, que há muitos anos explora um nicho raro. 

Em dias de tempestade verbal como esta, se me sobra algum respeito (ainda assim muito) reservo-o a brancos que falam em nome próprio, em defesa da sua identidade branca, como Maria de Fátima Bonifácio. Não me sinto obrigado a respeitar brancos que usurpam sentimentos, identidades, representatividades de terceiros. Não por uma birra qualquer, mas porque usurpar identidades alheias é profundamente imoral.  Gabriel Mithá Ribeiro

09
Jul19

Bernard Williams contra Singer e Pinker


Eremita

Quando me cruzo com alguém mais capaz, sobretudo se encontro precisamente a resposta que já havia intuído mas ainda não fora capaz de formular e me apercebo de que jamais o trabalho do tempo me faria chegar sozinho ao achado, experimento um segundo de humilhação e uma infinitude de humildade. Que alegria poder escutar este homem. 

 

06
Jul19

O triunfo de João Miguel Tavares


Eremita

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João Miguel Tavares (JMT) está a viver o ano da grande consagração. Para quem o acompanha de longe, o discurso no 10 de Junho é a data a recordar, mas quem se dedica ao close reading sabe que o 6 de Julho é ainda mais marcante. Hoje, no Público, José Pacheco Pereira e Vasco Pulido Valente, dirigem-se a JMT. Ignoraram-no durante muito tempo, mas o protagonismo de JMT atingiu a massa crítica e a dinâmica é agora a das reacções em cadeia. Os grandes senadores da crónica capitularam e ofereceram o pescoço ao sucessor como lobos vencidos, uma comparação insuficiente para o nosso Valupi, que provavelmente recorreria à imagem da submissão ritualizada em postura receptiva de pseudocópula. Pulido Valente nomeia o vencedor de forma a despachar a coisa sem dor. Pacheco, pelo contrário, oferece resistência negando-se a escrever o nome do cronista, mas acaba por descrevê-lo de uma forma mais inequívoca do que as que encontramos nos concursos públicos feitos à medida do candidato preferido, o que acaba por ter um efeito contraproducente, como um silêncio ensurdecedor. Para os mais velhos, a crónica de Pacheco deve ser lida escutando a sinfonia de Antón García Abri que se ouvia no genérico da série sobre a natureza El Hombre y la Tierra, porque hoje o Público oferece-nos um subtil festim de masculinidade, conflito intergeracional, dominância social, testosterona e cortisol, cheiros intensos e suor velho, dentes e garras, feridas lambidas e uivos agudos. Tã-tã-taã-tã-tã-taã...

Os populistas modernos são, na sua maioria, de direita. (...)

Este [o populismo] caracteriza-se principalmente pela dicotomia “nós” (o povo) e “eles” (os políticos, os poderosos). (...)

Mas já passou daí [das redes sociais] para certos programas televisivos e para certo tipo de articulistas justicialistas, que vivem da “denúncia” e da indignação moral, e, basta fazer uma lista dos casos, para ver como são selectivos e dúplices na indignação. Em todos os casos têm audiências. (...)

O tema central do populismo é a corrupção, a real, a imaginária e a inventada. A corrupção é o estado natural da política e dos políticos, de “eles”. Ao não se distinguir entre a corrupção real e a inventada, o discurso torna-se genérico e sistémico. Ao atacarem o “regime” e o “sistema” perceba-se que consideram a democracia o terreno ideal para a corrupção. Não é. É a ditadura, mas não vale a pena lembrar-lhes isso. (...)

No populismo português o tema da corrupção é ainda mais dominante. Os partidos e movimentos na direita que quiseram utilizar outros temas do populismo contemporâneo, como seja a emigração, a islamofobia, ou temas conexos, falharam. (...)

O populismo concentra os seus ataques nos procedimentos da democracia, vistos como uma forma de empecilhos para combater o “crime” e a “corrupção”. Isso inclui os direitos de defesa, as garantias processuais e, em particular, o ónus da prova, a obrigação de ser de quem acusa, que tem que provar. (...)


Os seus heróis são magistrados e juízes. Não todos, mas alguns. E alguns comentadores, alguns blogues, alguns jornais, alguns programas de televisão. (...)

Os alvos dos populistas são aquilo que eles designam como elite. Os políticos, os funcionários públicos, os professores, os médicos, os enfermeiros, os motoristas, os sindicalistas, os que fazem greve.(...)

O populista é um activista do ad hominem. Quando fala e quando escreve enuncia nas suas falas e nos seus títulos nomes de pessoas. Depois passa dos nomes, para a família, para os amigos, para os companheiros de partido e por fim para “eles”. Os critérios da culpa são por contiguidade, familiar em primeiro lugar, relacional, e partidária. A culpa é nomeada pessoalmente e depois torna-se colectiva. É de X, nome no título para vender, e porque é de X, é de “eles”. (...)

Quando os populistas, os políticos que eles gostam, os partidos que eles gostam, estão mais próximos do poder, a zanga transforma-se em arrogância e autoritarismo. (...)

Os populistas vivem do apodrecimento do sistema político democrático, da oligarquização dos partidos políticos, da indiferença ou do compadrio dos estabelecidos com a corrupção, da corrupção realmente existente, mas as suas soluções são piores do que os problemas. E são, na sua maioria, anti-democráticas e autoritárias.  (...) José Pacheco Pereira, Público

05
Jul19

Vingança


Eremita

 

Percebi recentemente o brilhantismo desta cena, apesar de me ter enamorado dela logo quando vi o filme, há muitos anos. A vigança é compreensível entre homens, mesmo a vingança cruel, mas matar um animal para vingar alguém seria absurdo e revelador de uma crueldade gratuita. Assim, talvez a vingança, mais do que a capacidade cognitiva,  seja o verdadeiro critério de demarcação da nossa espécie. Só tratarás por igual aquele de quem um dia te poderás vingar*. 

* Este princípio falha obviamente, porque há pessoas com capacidade mental diminuída que jamais poderiam ser alvo de uma vingança justa, mas funciona em termos genéricos. O único critério de demarcação da espécie é a definição de espécie. Infelizmente, os filósofos não gostam de tautologias.

05
Jul19

O partido dos pés de vidro


Eremita

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Execuções extrajudiciais, existência de esquadrões de morte, repressão violenta contra opositores e críticos de Nicolás Maduro, manipulação de cenários de crime, responsabilidade na morte de 5287 pessoas em 2018 e de outras 1569 nos primeiros cinco meses deste ano. São estas as principais denúncias do relatório sobre a Venezuela, realizado por Michel Bachelet, ex-Presidente do Chile e actual Alta-Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, que foi divulgado esta quinta-feira e que será apresentado na sexta-feira ao Conselho de Direitos Humanos da organização internacional. Público

 

Fiz um Skype com o Judeu, Não me disse onde estava e no fim parafraseou o bordão com que o jornalista Artur Albarran, durante a primeira guerra do Golfo, se despedia nas suas peças e directos: “O teu Judeu despede-se agora, algures no deserto da Arábia Saudita”. Falámos sobretudo do PCP. O Judeu fica com a consciência em sobressalto sempre que, a propósito de um acontecimento internacional, o PCP o embaraça com comunicados que desculpam as atrocidades cometidas por comunistas e afins. Desta vez antecipou-se, pois creio que ninguém do PCP se apressou a desvalorizar o relatório da ONU que a notícia refere como propaganda ao serviço do imperialismo ou algo assim. 

Haverá nome para o contrário de "advogado do diabo"? É o papel que sempre assumo nestas conversas. Lembro o passado antifascista dos camaradas, que são políticos inpolutos, a dedicação que é quase um sacerdócio laico, a defesa dos desvaforecidos, o enternecedor salário de Jerónimo. Mas desta vez de nada serviu. O Judeu está até convencido que é idiota a tese de que o PCP absorveu o descontentamento popular, impedindo assim o crescimento do populismo. "O populismo não cresce porque não temos imigrantes muçulmanos ou negros e o resto é conversa de oportunista ou lírico". Incapaz de o demover com os argumentos do costume, desenvolvi uma tese que deve muito a Lombroso, uma espécie de frenologia do ditador assente na bonomia enganadora dos rostos de Maduro, Bashar al-Assad e Kim Jong-un. O primeiro lembra um talhante simpático de bairro, o segundo tem cara de totó e o terceiro parece um boneco sempre-em-pé. Nenhum irradia a loucura de Gaddafi, a crueldade de Saddam, o terror de um Pinochet de óculos escuros e braços cruzados. Mas o Judeu não foi nesta conversa tonta e já me disse que vai votar no Livre. Livre do lastro e da bagagem ou embarcando na ilusão de um futuro por não se ter passado – mas isto não lhe disse.  

04
Jul19

Matilde e o pecado original


Vasco M. Barreto

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A caridade cristã gera actos de grande beleza. A solidariedade entre compatriotas, conterrâneos, amigos e familiares, também. Mas é extraordinário que pessoas com estudos e conhecimentos de economia muito acima da média, como Henrique Pereira dos Santos ou Luís Aguiar-Conraria, fiquem em êxtase com a generosidade dos portugueses e não aproveitem a atenção dada à situação trágica da bebé Matilde e da sua família para lançar uma discussão sobre uma perversão evidente do mercado que se estabelece muito a montante de onde a conversa tem decorrido. 

As farmacêuticas justificam os preços exorbitantes de medicamentos como o Zolgensma (uma terapia génica que introduz nas células uma cópia funcional do gene que na Matilde está mutado) com base nos custos envolvidos na pesquisa. A Novartis, na verdade, não fez nada, apenas comprou a empresa que produziu o medicamento. Este detalhe anda a ser esquecido pelos (pub) pundits do costume, mas o problema é outro. Em regra, as farmacêuticas só entram na fase final do desenvolvimento dos medicamentos e o financiamento do esforço inicial, que corresponde ao momento "eureka" da descoberta científica ou tecnológica necessário para convencer os investidores privados, é feito em institutos e universidades por académicos cujos ordenados e projectos são pagos por dinheiro público. A grande arte na manipulação destas estatísticas está na forma como se calcula a contribuição dos governos e do sector privado. Dependendo dos critérios utilizados, é possível concluir-se o que der mais jeito para sustentar a nossa ideologia. Por exemplo, eu poderia citar um estudo que associa contribuições do sector público norte-americano a todos os 210 novos medicamentos aprovados pela FDA entre 2010 e 2016, enquanto um liberal vai preferir centrar-se no volume das contribuições de cada um dos sectores, provavelmente considerando apenas o financiamento estatal de projectos directamente relacionados com o medicamento (esquecendo todas as contribuições indirectas da investigação básica, que é 100% financiada por dinheiro público) e a maior parte dos gastos com recursos humanos (salários pagos pelos governos). Entre maniqueístas, a discussão incluirá argumentos como a insignificância das medicinas cubana, soviética ou norte-coreana para a humanidade versus as virtudes do capital. Entre pessoas sensatas que se posicionem longe do marxismo radical e do endeusamento do mercado, como Mariana Mazzucato, talvez se chegasse à conclusão de que as farmacêuticas praticam preços demasiado elevados que não reflectem apenas o investimento feito mas também o valor da vida, isto é, a necessidade absoluta e irrecusável do tratamento, que talvez não devam ser das indústrias mais lucrativas do planeta sem que isso prejudique grandemente o desenvolvimento de novos medicamentos – existe algum contrafactual que rebata esta tese? – e que talvez haja soluções de compromisso que afinem a interacção entre os sectores e corrijam a imoralidade que é o financiamento público a fundo perdido do risco associado à investigação e a completa privatização do lucro de medicamentos resultantes dessa investigação. É absurdo que esta solução, pontual e muito criticada quando há crises no sistema bancário, na área que lida com o que temos por mais precioso se tenha tornado estrutural e recebido o carimbo TINA ("there is no alternative").  

03
Jul19

Censos, etnias e evidência


Eremita

Screen Shot 2019-07-03 at 09.16.00.png

Distribuição das diferentes etnias no Canadá (censo de 2016)

fonte

Surpreendentemente, saber se deve haver uma pergunta sobre a pertença étnico-racial no Censo de 2021" tem sido uma discussão pouco animada. Tem também sido uma má discussão. António Barreto é contra e Cláudio Tomás a favor, mas os articulistas coincidem na mania de discutir o assunto no plano dos princípios. O problema é que facilmente chegamos a um impasse, mesmo quando temos o mesmo objecitvo (a diminuição da discriminação racial), pois há bons argumentos para não incluir a pergunta e bons argumentos para fazer o contrário.

Esta parece-me ser uma das situações típicas em que todos teríamos a ganhar se alguém lembrasse o que sucede nos países que incluem este tipo de perguntas nos censos. Não tenho a ilusão de pensar que a pergunta ficaria respondida com uma resposta empírica. Sei que a ideologia e complexidade das sociedades mantêm viva a discussão sobre as virtudes e deméritos do salário mínimo, apesar das montanhas de dados de que dispomos. Também no caso presente seria difícil estabeler relações de causalidade entre a existência da pergunta nos censos e o grau de discriminação étnica, inclusive numa série temporal (antes e depois do aparecimento da pergunta), mas gostaria que os especialistas entrassem na discussão pública lembrando os exemplos conhecidos. Caso contrário, vai parecer que Portugal inventou o multiculturalismo, o que soaria a excepcionalismo português ou — para pior  — a resquício de luso-tropicalismo.

PS: Interrompi as minhas férias para deixar claro que quem manda aqui sou eu. O Ouriq é uma democracia, sim, mas turca.  

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Comentários recentes

  • Anónimo

    https://www.scribd.com/document/27843291/A-Invasao...

  • Eremita

    Saí do Twitter, entre outras razões, por me parece...

  • Anónimo

    Eremita: o tipo fez-te uma simples pergunta, pouco...

  • P. P.

    Infelizmente, TRUE.

  • Eremita

    O Ouriq não precisa de trolls.

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