Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ouriquense

12
Jul18

Qual é a vossa coutada de irracionalidade?

Eremita

Para muita gente, é o clube de futebol. Não tenho essa relação com o Sporting. Não sei sei há alguma vantagem em manter coutadas de irracionalidade, apesar de ver com simpatia a ideia de que, podendo funcionar como sorvedouros de defeitos, nos deixam mais capazes de agir e pensar correctamente quanto a tudo o resto. São duas as minhas excepções em que a irracionalidade impera: o Japão e os japoneses (a melhor nação e o melhor povo do mundo) e a localização geográfica da Batalha de Ourique. Nunca discutam estes dois temas comigo, pois seria uma pura perda de tempo. 

12
Jul18

Cinco Reis Muçulmanos para Dom Afonso Henriques?

Eremita

Portogallo_Alentejo_Alfonso_Henriques.jpg

Como disse antes: é impossível alterar o passado. Mas podemos alterar o presente. Mas para alterar o presente precisamos compreender e reconhecer o passado. Como maneira de reconhecer a história complexa e interrelacionada de Portugal e África, e da própria escravatura, e para contribuir para a criação de uma narrativa arqueológica das futuras gerações, faço uso de uma sugestão de Linda Heywood, historiadora e professora na Universidade de Boston, EUA. Numa palestra sobre o seu livro Nzinga de Angola. A Rainha Guerreira de África (editado em Portugal pela Casa das Letras, 2018) na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no último dia 10 de maio, a historiadora sugeriu que Lisboa tivesse uma estátua de Rainha Njinga. Creio que a sugestão deve ser considerada, uma vez que esta figura feminina africana representa a complexidade da história da escravatura. Além de ter rompido estereótipos de género ao liderar verdadeiros exércitos, Rainha Njinga possuiu escravos e também os vendeu, tendo assim participado no tráfico de escravos. No entanto, também defendia que havia limites de quem poderia ser ou não ser escravizado e também lutou contra os colonizadores portugueses. No fim da sua vida, converteu-se ao cristianismo e fez as pazes com Portugal. Quem sabe se a materialização de uma Rainha Njinga no espaço urbano de Lisboa nos ajude a despir-nos de uma visão maniqueísta da escravatura? E quem sabe se, ao despir-nos de uma visão maniqueísta da escravatura, conseguimos reconhecer melhor o passado? Cláudia Silva, Público

Ainda não sujeitei esta proposta à tortura da lógica que devemos aplicar a qualquer opinião, nomeadamente as opiniões originais. Foi a originalidade o que me atraiu. Em vez de um revisionismo histórico que nos obrigue a tirar dos pedestais todos os homens brancos que se destacaram no nosso passado mas praticaram actos que hoje condenamos, teríamos um revisionismo histórico que daria pedestal a todos os protagonistas de outras etnias que também se destacaram, independentemente de terem igualmente praticado actos hoje censuráveis. A ideia, se a percebi bem, é manter os critérios de selecção e alargar a base de recrutamento, adoptar um All Bastards are Equal Act. Assim, em nome de uma visão da História adulta, isto é, que reconheça a realpolitik, mas também multicultural, veríamos materializada em alguma rotunda ou até numa praça uma estátua da rainha Njinga, que também teve e vendeu escravos. Não sei sinceramente o que pensar. Levada ao extremo, a política identitária cria absurdos - se cada grupo identitário se for fragmentando em subgrupos até à atomização, isto é, até ao indivíduo, cada um de nós ganha o direito a propor a sua estátua (en passant, que não demore a estátua do Vitor Silva Tavares!), e podemos vir a ter mais estátuas em Lisboa do que habitantes ou mesmo turistas. Mas argumentar com slippery slopes improváveis é uma péssima forma de discutir, sobretudo a política, que é a arte do possível, do entendimento,  da ponderação. Por isso, convoquei o Fausto, que já está a preparar um relatório sobre as vantagens e os perigos de colocarmos junto à estátua do Dom Afonso Henriques, alusiva à Batalha de Ourique*, uma estátua dos cinco reis mouros que ele derrotou ou então - estamos atentos, podemos sempre inovar a inovação - de um elemento anónimo da infantaria mourisca. Aguardemos. 

 

* [paráfrase]: Discutimos Deus e a virtude. Discutimos a pátria. Discutimos a autoridade e o seu prestígio. Discutimos a família e a sua moral. Discutimos a glória do trabalho e o seu dever. Mas não pomos em causa que a batalha de Ourique ocorreu perto da actual vila de Ourique e quem o fizer será imediatamente censurado.

10
Jul18

Delayed gratification

Eremita

Agora que os doze miúdos, o jovem treinador e, exceptuando o mergulhador que morreu, todos os restantes elementos das equipas de socorro saíram ilesos desta incrível história, mas não sem antes ter libertado a tensão acumulada ao longo destes dias, falado com a L. como se os tailandeses fossem nossos vizinhos e de nó na garganta quando ela me relatou, com emocão, a nobreza, altruísmo, humildade e coragem do treinador de 25 anos, tendo a seguir prolongado esta grande e rara alegria lendo vorazmente sobre o assunto e indo em busca das inúmeras ilustrações inspiradas que foram sendo feitas um pouco por todo o mundo sobre o que parece ter sido um dos mais expressivos instantes de empatia global dos últimos anos, talvez já não seja precipitado, antes pertinente, mas em todo o caso não mais adiável, sugerir a Elon Musk que enfie o raio do mini-submarino pelo cu acima e documente no Twitter como a invenção vai vencendo as partes mais sinuosas do seu intestino grosso. 

09
Jul18

Do catolicismo de Marcelo

Eremita

img_757x498$2017_10_20_08_36_45_678336.jpg

Lusa / Nuno André Ferreira

"O Presidente da República invocou "razões sociais" para promulgar o diploma do Parlamento que suspende temporariamente despejos de inquilinos em situação vulnerável, idosos a partir de 65 anos e cidadãos com elevado grau de deficiência." Público

Em jeito de provocação para uma pessoa muito anticlerical que comenta neste blog: não dou por garantido que nesta Europa, neste tempo, um presidente de centro-direita ateu, agnóstico ou de religiosidade - digamos - "não-praticante", fizesse o que Marcelo acaba de fazer. E eu, que sou ateu, justamente por reconhecer que o que lhe guiou a mão não foram apenas as "razões sociais", mas algo que os maluquinhos da laicidade não deixam que se diga, aplaudo de pé o gesto do presidente e orgulho-me da nossa matriz judaico-cristã. Amanhã já terei recuperado o cinismo e a desconfiança, já serei capaz de defender que não precisamos de Deus para sermos pessoas decentes e voltarei a gozar com as selfies e os abraços. Só amanhã. 

 

09
Jul18

Como e quando explicar o "efeito de Mateus" às criancinhas?

Eremita

A propósito deste artigo, que o Vasco me indicou, fiquei a pensar em qual seria a melhor altura e a forma adequada de explicar o "efeito de Mateus" às crianças.  "Ao que tem dar-se-á e terá em abundância. Mas ao que não tem até o que tem lhe será tirado". Há várias formulações equivalentes: a distribuição ou princípio de Pareto (para os mais elitistas), a regra 80-20 (para as pessoas mesmo muito aborrecidas), a canção "The winner takes it all", dos ABBA (para os mais descontraídos). Pergunto: haverá algum primata por socializar que aceite o efeito de Mateus? Duvido.

Já conhecia as experiências de um primatologista holandês com macacos, a propósito de como surge e se manifesta a sensação de ter direito às bananas que o vizinho recebeu, e também a teoria do desejo mimético, de René Girard, ciência experimental e teorização que o meu posterior convívio diário com gémeas monozigóticas ("verdadeiras")  me levaria a considerar como triviais, pois é evidente que os bebés e até as crianças possuem um sentido de injustiça apuradíssimo e uma capacidade de reivindicação que depois se perde ou atenua, preservando-se apenas nos adultos num contexto de deformação profissional (entre advogados, sindicalistas e políticos, por exemplo) ou então em quem sempre esteve muito acima da média quanto a estas características de personalidade, como aquelas pessoas que passam uma vida a mandar a comida para trás em restaurantes - um acto que nunca pratiquei e me fascina, devo confessar. A pergunta é: em que altura nos vergamos ao efeito de Mateus, que passamos a aceitar como inevitável e inquestionável, sob pena de blasfémia contra o sacrossanto princípio da meritocracia quando resolvemos pôr em causa a ordem das coisas? Não pretendo entrar em considerações classistas a apontar para teses de conspiração ou até nietzscheanas, isto é, sobre a indução e domesticação do ressentimento e a influência destes processos na estrutura das sociedades. A dúvida é mais pueril e de ordem prática: será que explicar o efeito de Mateus imuniza as crianças contra os efeitos da perversa máquina de socialização, dando-lhes uma resiliência acrescida ou um distanciamento que lhes protegerá o âmago ao longo da vida quando as comparamos com as crianças que não são nunca tiradas da bolha em que o mundo é cor-de-rosa e a meritocracia pura? Ou será contraproducente, por antecipar nas crianças o aparecimento do cinismo conformista que geralmente só surge no adultos de meia idade? A TSF, na sua rubrica sobre pais e filhos, podia entremear temas deste calibre com os conselhos sobre protectores solares. É que eu penso muito nestes assuntos e até já de modo pavloviano sempre que como uma banana, fruto muito apreciado no nosso lar. 

 

08
Jul18

Kosinski e Kosiński

Eremita

Screen Shot 2018-07-08 at 14.35.31.png

"The aim of his research, Kosinski says, is to highlight the dangers. Yet he is strikingly enthusiastic about some of the technologies he claims to be warning us about, talking excitedly about cameras that could detect people who are “lost, anxious, trafficked or potentially dangerous. You could imagine having those diagnostic tools monitoring public spaces for potential threats to themselves or to others,” he tells me. “There are different privacy issues with each of those approaches, but it can literally save lives.

 (...)

Kosinski says his critics missed the point. “This is the inherent paradox of warning people against potentially dangerous technology,” he says. “I stumbled upon those results, and I was actually close to putting them in a drawer and not publishing – because I had a very good life without this paper being out. But then a colleague asked me if I would be able to look myself in the mirror if, one day, a company or a government deployed a similar technique to hurt people.” It would, he says, have been “morally wrong” to bury his findings.” The Guardian

Figuras algo excêntricas, que pontificam em pequenos nichos académicos, têm alertado para os perigos crescentes da Biopolítica. Michal Kosinski, um belo (digo eu) e brilhante (antes do"AI Gaydar" inventara a psicometria de Facebook)  rapaz (36 anos), tem o apelido do nom de plume de um escritor polaco já desaparecido (Jerzy Kosiński), um intelecto poderoso e figura controversa que emigrou para os EUA e aí singrou, tendo sido uma estrela da rádio, televisão e cinema nos anos 70, vendendo dezenas de milhões de exemplares, embora viesse a ser acusado de plágio e aldrabice no tempo em que isso era grave e a deixar um notável bilhete suicida (porém algo overwritten), para hoje já ninguém o ler  - há algo de surpreendentemente relaxante neste encandeamento de informação. Enfim, não há nada mais estúpido do que procurar causalidade ou mesmo apenas paralelos em meras coinciências, mas o discurso dúbio com que o Michal fala de um futuro horrendo e da responsabilidade social do cientista é algo jerziano. 

08
Jul18

Nuno Artur Silva

Eremita

Pitching

 

Preciso de contactar o Nuno Artur Silva, mas não tenho - nem quero ter - Facebook. Se alguém souber o seu email ou conhecer quem estiver na posse dessa importante informação, agradecia que entrasse em contacto comigo através do envelope no cimo do Ouriquense. Como com traduções não me safo, na época 2018/19 vou apostar na agropecuária e no pitching de artigos sobre variadas matérias, nomeadamente livros que importa discutir em Portugal. Será um will write for food com preocupações patrióticas. 

 

Inside Jokes, de Matthew M. Hurley, Daniel C. Dennett e Reginald B. Adams, Jr.  (MIT Press, 2011), é um livro de teoria do humor que vale a pena recensear, cuja tradução preencheria o actual vazio que existe na discussão desta misteriosa faceta do nosso pensamento. Não sei quantos livros já saíram na série de humor da Tinta da China, mas posso garantir que estão a falhar se ainda não pensaram em traduzir esta maravilha, sobretudo se entretanto já fizeram a enésima tradução de O bravo soldado Schweik ou dos textos de humor do Woody Allen. Os autores não ficam pela abordagem histórica das teorias do humor, o que é refrescante, não pretendem ensinar a fazer humor, o que me parece honesto, nem se deixam apanhar pelo vórtex das considerações sobre liberdade de expressão e incorrecção política, o que revela uma inteligência assinalável e um genuíno desejo de produzir conhecimento, pois desenvolvem uma teoria que me convence plenamente e deve ser um dos poucos textos de psicologia evolutiva dos últimos 40 anos chegar a conclusões luminosas e nada triviais, aquelas que para os pobres de espírito são ovos de Colombo. 

Este post inaugura a série Pitching. A desertificação do interior também se combate assim. 

06
Jul18

De 6 para 9 foi um 31

Eremita

O erro no sorteio da Liga, a saber, um seis de pernas para o ar que se metamorfoseou em nove, é um caso de estudo. Pelo menos três jornais descreveram o incidente como "insólito", mas - também a este nível - é tudo uma questão de perspectiva. Ou de personalidade. A humanidade já foi dividida em metades mais vezes do que uma veterana partenaire de mágico ainda em actividade, mas se há uma dicotomia válida é esta: aqueles que se surpreendem com os erros (homens de tipo I, para adaptar uma terminologia estatística) e os que se surpreendem com a ausência de erros (homens de tipo II). Naturalmente, desperdiçou-se este preciosíssimo episódio com teorias da conspiração e no apuramento da culpa. Ai os interesses ocultos! Ai a culpa! A esperança média de vida ainda não nos permite perder tempo com essas teorias. Quanto à culpa, não há grande discussão: talvez algum homem de tipo I que não perdoe à rapariga a inversão do algarismo, mas os homens de tipo II estão a perguntar como foi possível a organização não ter tudo feito para evitar este erro clássico, que até já o cinema imortalizou numa cena em que o número da porta do quarto de hotel também roda 180 graus, com todas as consequências de tipo libido-criminal que se imaginam.

 

Nos laboratórios em que escrever números na tampa de tubos faz parte da rotina, há várias estratégias que previnem este erro, tendo todas por princípio a quebra da simetria que existe entre os dois algarismos. Se uns escrevem sublinhando o seis ou o nove, nunca ambos, outros usam uma referência na tampa do tubo para escrever todos os números sempre com a mesma orientação. Eu habituei-me a escrever o nove em numeração romana e o truque só funcionava porque o todos os outros números continuavam a ser escritos em numeração árabe, nomeadamente o 11. Não sei sinceramente se inventei este truque ou se o aprendi de alguém. A haver um predecessor, será um chefe norte-americano que era forte em citações em latim. Em todo o caso, os meus esforços para formar discípulos na arte de combinar as heranças árabe e romana fracassaram. Outro mais carismático do que eu talvez tivesse contribuído para forjar toda uma geração capaz de retardar o choque de civilizações e evitar o erro da Liga. Está por escrever a "small man theory" da História. 

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Links

Revistas literárias [port]

Guitarra

Blogs

Cultura

Ajude Fausto:

  • Uma votação em curso

Ouriquense, S.A, Redacções por encomenda

Séries

Personagens ouriquenses

CineClube- programação

  •  

Filmes a piratear

  •  

Filmes pirateados

Alfaias Agrícolas

Apicultura

Enchidos e Presuntos

Pingo Doce

Imprensa Alentejana

Portal ucraniano

Judiaria

Tauromaquia

Técnicas de homicídio

John Coplans

Artes e Letras

Editoras Nacionais

  •  

Literatura Russa

Leituras concluídas

Leituras em Curso

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D