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Ouriquense

23
Jan19

Meritocracia histérica

Eremita

Ou o objectivo Panenka

A única vaca sagrada que parece ter o futuro assegurado é a meritocracia, não no sentido de caminharmos inexoravelmente para uma sociedade cada vez mais meritocrática, apenas na medida em que não podemos criticar a meritocracia sem que caia sobre nós a suspeita do ressabiamento. Para esta ausência de discussão também conta - na intimidade - a dificuldade em se admitir a falta de mérito e - na esfera pública - a dificuldade em se admitir que somos diferentes à nascença, seja qual for a qualidade do berço. Daí que se fale muito mais frequentemente nas vítimas da mundialização do que nas vítimas da meritocracia, apesar de estes dois grupos se equivalerem em grande parte. Porém, se ninguém nega que a democracia, inventada há mais de 2000 mil anos, pode sempre ser melhorada, não estará também a meritocracia sujeita a afinações? Naturalmente, estes pensamentos invadiram-me quando a minha carreira começava a ruir.  Mas - insisto - o contexto e a causa próxima são irrelevantes para avaliarmos a pertinência da reflexão. Até um ressabiado merece o benefício da dúvida e pode estar cheio de razão na tese geral que apresenta, independentemente de sabermos se a tese explica o seu falhanço concreto. 

 

Uma carreira começa a ruir um pouco como as casas - daí a escolha do verbo. Há uma primeira hipótese perdida (a primeira racha) que espoleta um ciclo vicioso (as infiltrações) e rapidamente a situação deixa de ter remédio. Com o abandono da carreira, tudo desaparece então a uma velocidade surpreendente, tal como a casa abandonada que, parecendo ressentir-se da falta de atenção, tende a acelerar  a sua ruína de um modo que faz um aldrabão do mais consciencioso e capaz avaliador resistência e durabilidade dos materiais. 

 

Continua

 

11
Jan19

Lagostas

Eremita

Notas avulsas

As generalizações podem ser tão reveladoras como um lapso freudiano e nunca sabemos se andamos a ler o que os outros lêem, perfeitamente sintonizados com o zeitgeist, mas arrisco: o chimpanzé (comum) e o bonobos pelas semelhanças sociais e genéticas com o homem, mas também pelo star power de primatologistas como  "Frans" de Waal e Robert M. Sapolsky, são vedetas do reino animal com extraordinário tempo de antena e boa imprensa (excluindo os relatos sobre a agressividade). Porém, se tivermos em conta a falta de complexidade e o grau de divergência com a nossa espécie como factores de ponderação, o animal que nos últimos anos tem recebido uma atenção inusitada de intelectuais e dos media é a lagosta, que só parece ameaçada pela importância constante do polvo e a moda da flora intestinal (uma expressão demasiado explícita que tende a ser substituída por um termo mais genérico e higiénico: "a microbiota").   #David Foster Wallace, #Jordan Peterson # Michel Houellebecq.

 

09
Jan19

Uma promessa resoluta

Eremita

Ainda sou do tempo em que fazíamos promessas na passagem do ano. Agora já ninguém faz promessas, toda a gente apresenta "resoluções". É possível que a moda das "resoluções" resulte apenas da influência crescente da língua inglesa, mas contribui para uma laicização e desresponsabilização pelo discurso que frustram este vosso ateu supostamente progressista. A promessa pressupõe um castigo (divino, claro) pelo incumprimento. Pelo contrário, a resolução exprime apenas um propósito, uma decisão que não vincula - de resto, soa-me sempre a expressão fraca,  no plano moral e também no da convicção, pois remete para o universo da música, em que "resolver" é eliminar a tensão harmónica. Daí que no Ouriquense só haja promessas e castigos, embora estes excluam a autoflagelação no sentido literal, pois somos um blog que se pauta pela moderação e, essencialmente, de centro-esquerda com bolsas de conservadorismo. A propósito de centro-esquerda, a nossa grande promessa para 2019 é nunca escrever sobre política e as grandes polémicas da actualidade. Nunca. Nunca... Nunca (eis um daqueles raros instantes em que tenho pena de não saber alemão para não deixar dúvidas sobre esta minha vontade, pois desconfio que nenhuma outra língua captará tão bem o que me vai na alma, sobretudo quando penso numa daquelas palavras intermináveis resultantes de concatenação pronunciada em tom exclamativo e intrinsecamenre rude). Nem sequer deixarei aqui links para intervenções minhas noutros espaços quando o assunto for a actualidade política ou a polémica do momento. Se algum leitor nos apanhar a discutir o Sócrates com o Valupi, peço-lhe que me envergonhe em público recorrendo a todos os meios legais que tiver à sua disposição. 

 

Pela enésima vez, vamos restaurar o Ouriquense como universo da autobiografia fictícia, de um tempo e espaço inventados, da literatura, da snobeira intelectual, das "afinidades electivas", enfim, da busca de uma escrita que se aproxime da mais preciosa das nossas ilusões, que é a liberdade. Literatura russa e reconstrução em taipa. Muitas guitarras e bandolins, mas também um esporádico instrumento de sopro com a insuperável beleza da nota sustentada em crescendo e decrescendo sobre uma sequência de acordes. Muito onirismo com  Ricardo Chibanga e Nuno Salvação Barreto, mas sem qualquer vontade de entrar em polémicas sobre touradas, se isto isto não vos parecer irremediavelmente contraditório. Uma ocasional declaração de amor à minha L. e às minhas filhas. Também muito eu, eu, eu, mas sem voltar a escrever "eu". Parafraseando uma expressão que ouvi no magnífico podcast do Daniel Oliveira, o Ouriquense é um blog em que eu perderei leitores sempre.

 

Desejo um bom ano a todos.  E começo com uma afinidade. Evito as listas dos melhores ______ do ano pela ansiedade que me causam, mas abro uma excepção, porque o que hmbf nos oferece no seu belíssimo post sobre os livros de 2018 é profundamente inspirador. Eis outra paráfrase: Amem como hmbf ama, sonhem como hmbf sonha, pensem como hmbf pensa, vivam como hmbf vive, sintam como hmbf sente, sorriam como hmbf sorri, pois saibam que, chegando o dia ao fim,  domirão muito mais felizes . 

 

26
Nov18

Até 2019

Eremita

Aproxima-se um final de ano particulamente intenso e não terei tempo para o blog. Prefiro anunciar uma pausa para voltar ao Ouriquense em 2019 com entusiasmo renovado. Prevejo uma nova série: Esperança Imobiliária, em que darei conta da evolução dos trabalhos de recuperação do monte. 

24
Nov18

Identidade

Eremita

Bibliografia gratuita [em construção]

Metacanhotismo

A série Canhotismo: a Coligação das Minorias ou simplesmente A Coligação das Minorias ou ainda A Educação de um Revolucionário (talvez um subtítulo) ou Julião: um Percurso Político, enfim, esta coisa será sobre a política identitária. A ideia pareceu-me boa e não podia ser mais actual: um canhoto megalómano faz do canhotismo uma identidade e ataca o poder pela via democrática coligando todas as minorias esquecidas. Cheguei aqui pela vontade de escrever sobre a biologia do canhotismo sem repetir o que já se encontra na literatura estrangeira, tendo ainda presente que muita divulgação científica é  aborrecida e irritante por se basear no pressuposto pateta de que a ciência é interessante. A sátira política pareceu-me um exercício útil, em parte por tornar mais difícil a divulgação científica - ainda não descobri a fórmula para o fazer de modo orgânico, mas talvez passe pelo estratagema usado por Coetzee no romance Elisabeth Costello. A outra dificuldade é: como ir além da caricatura óbvia a que a interseccionalidade e a última regurgitação de Foucault se prestam? Como ter sempre presente que um cromo como o blasfemo Vitor Cunha não poderá nunca ser o narrador, mas merece ser uma personagem? Não faço ideia, para ser franco. Entretanto, tenho acumulado leituras, links e pdfs. Continuo surpreendido com a facilidade de acesso à melhor e mais actual informação. É verdade que algumas vias serão ilegais e uma discussão sobre a ética do leitor levar-nos-ia por caminhos tortuosos, mas não deixa de me surpreender que em segundos consiga aceder sem qualquer custo a um artigo do Fukuyama, à útlima diatribe de John Gray contra Fukuyama e até ao pdf de um livro do conceituado Kwame Anthony Appiah publicado em 2005 e que certamente não passou ainda para o domínio público. 

23
Nov18

"O Púlpito dos Charlatães"

Eremita

O que descobrimos quando frequentamos esta vasta bibliografia é que a questão animal, nas suas mais variadas dimensões (morais, antropológicas, legais, etc.), incluindo a questão maior de saber se eles podem e devem ser sujeitos de direito, está presente nos grandes obras de filosofia, desde Aristóteles a Heidegger, de Derrida e Martha Nussbaum. Está longe, portanto, de ser uma questão exclusiva do nosso tempo. Daí que seja chocante ouvir pessoas que são chamadas a falar sobre o assunto porque lhes é conferida, por qualquer razão, autoridade para tal, mas discorrem sobre ele com a maior das ignorâncias. Neste último Pros e Contras destacou-se neste exercício de desinformação e de ignorância um aficionado chamado Luís Capucha, imbuído de filosofia das Lezírias que nem dá para comentar neste espaço. Mas vale a pena revisitar um dos seus argumentos, o de que regime nazi foi muito amigo dos animais e fez legislação que o comprova, para dizer que esse mito com origem na propaganda ( “O nosso Führer ama os animais”) já foi longamente desmentido, em primeiro lugar por Victor Klemperer, o autor de LQI. A Linguagem do III Reich. E, no início dos anos 90, em França, Luc Ferry publicou um livro onde transmitia essa mensagem (e onde traduzia documentos da legislação nazi) que foi muito contestado e deu origem a uma enorme polémica. Ora, o que se passa entre nós é que alguém (na circunstância, um professor universitário de Sociologia) pode dar-se ao luxo de fazer afirmações na televisão como se fossem verdades irrefutáveis, desconhecendo ou fazendo que desconhece a contestação e a polémica que elas suscitaram. Este dispositivo retórico, propagandístico e inimigo do saber e da ciência porque é usado com fins exclusivamente ideológicos é o do discurso político, em relação ao qual já criámos muitas defesas, mas não pode ser a regra numa discussão na televisão pública, sobre um assunto sério, para o qual se convida, para o debate, “especialistas”, gente a quem se confere uma qualquer autoridade. O sociólogo, o aficionado, o propagandista e o inimigo do saber, tudo na mesma pessoa, só na televisão é que é possível. António Guerreiro, serviço Público

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