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OURIQ

Um diário trasladado

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24
Jun09

Devoto do silêncio


Eremita

Por vezes perguntam-me sobre os motivos que me levaram a pedalar até Ourique e por aqui ficar. Existe a suspeita de que o faço para curar um desgosto de amor, mas é um erro. A partir de certa altura, o desgosto de amor deixa de ser uma desilusão e passa a ser uma inevitabilidade. Um dos verdadeiros motivos que me trouxeram para Ourique foi a ressaca que experimentava depois de falar em público. Se no início ficava em pânico quando precisava de enfrentar uma plateia, uma vez cumprida a tarefa sentia-me bem. Mas com os anos o pânico deu lugar a uma melancolia por antecipação, pois era inevitável que iria ressacar depois da aula, do seminário ou da palestra. Nunca - mas nunca - me senti minimamente realizado com estas actividades. Uma frustração imensa apoderava-se de mim e só uma noite bem dormida era capaz de a fazer partir. A simples ideia de dar aulas regularmente, uma das poucas saídas profissionais com que podia contar, desesperava-me. Esta fobia foi depois crescendo. O que dizia aos jantares. O que respondia quando me apresentavam alguém. A troca de impressões com o sector terciário - excluindo uma rapariga que trabalhava no bar do meu local de trabalho e com quem tinha uma interacção com um subtexto de malandragem e completamente inócuo que muito nos divertia. Aqui em Ourique, um lugar em que por vezes passo dias sem abrir a boca, percebi finalmente que a exposição oral, da anedota à palestra, não é para mim e que apenas no comentário espontâneo consegui ser mediano. Sonhava em interagir com o mundo por escrito. Escrever as palestras e as aulas, em vez de as dar de improviso ou após uns ensaios. O improviso não é para qualquer um.  Por isso, só ambicionei ter um gadget na vida: o teleponto. E na vez em que visitei um familiar que tinha sido operado à língua e só podia comunicar com um bloco de notas, senti uma enorme inveja. A inveja de não ter sofrido um daqueles acidentes que legitimam as nossas mais inconfessáveis excentricidades. Bem sei que este desabafo passa por capricho e cobardia,  e é até ofensivo para quem quem realmente teve um desses acidentes, mas  fazê-lo assim - por escrito - talvez seja uma atenuante. 

 

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