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OURIQ

Um diário trasladado

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21
Mai09

Quo Vadis?


Eremita

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Acordei de um pesadelo estranho ou inventei esta cena em vigília? O cenário era a arena de um coliseu romano onde se encontrava Igor, de tanga e tronco nu. Agora que volto a pensar na imagem, Igor parecia-se muito a Salvação Barreto, o forcado que actuou em Quo Vadis. Seria natural pensar que Tatiana estivesse atada ao poste, mas quem estava atado era o inventor. Aliás, o inventor armou-se em Peter Sellers no sonho, pois fazia também o papel do Imperador, do centurião e ainda de um elemento mais exaltado da plebe. Como interpretar isto? Foi talvez uma manifestação pouco subtil da minha frustração com a incapacidade de desenvolver as personagens ouriquenses. O inventor ainda não ganhou espessura psicológica e já se passaram meses desde a sua entrada em cena. A máquina de movimento perpétuo, que deveria ser o metrónomo para o ritmo desta ficção, nem sequer foi descrita. As madrugadas das duas libertinas de Lisboa são um trunfo que continua por ser usado e faria disparar o número de leitores. Tatiana permanece como o único atractor. Talvez por isso, demorei a dar por ela no meu sonho, vindo só a descobri-la imediatamente antes de acordar. Toda a segunda metade do sonho foi dominada pela actuação de Ricardo Chibanga, que entrou  à super-herói na arena, usando o capote para abrandar a aproximação ao solo, acercando-se depois em passada oblíqua do touro, que media forças com Igor, para espetar um par de bandarilhas no dorso do ucraniano. A besta tombou e o touro enfiou-lhe um corno entre a tanga e o rego do rabo,  arrastando-o de seguida pela areia grossa em círculos de rabejador, até o deixar completamente esfolado, ensanguentado, numa desintegração que quase ameaçava os órgãos internos e remetia para a cena em que Messala está reduzido a bife tártaro falante num outro épico hollywoodesco, o Ben-Hur. Não houve sequer tempo para chorar Igor, pois Chibanga de imediato reciclou as bandarilhas e com ambas vazou os olhos do cristão atado ao poste, projectando-as de seguida, com a técnica de um ninja, de encontro aos outros dois inventores que estavam na tribuna imperial, morrendo um com a bandarilha no coração (o imperador) e o outro com a bandarilha na testa, talvez por ter uma armadura (o centurião). O inventor plebeu escapou a tempo e com alguma sorte não terá sido espezinhado pela multidão em fuga que se afunilava nas portas. Ricardo Chibanga, com um salto verdadeiramente alado, ganhou depois o parapeito da tribuna imperial e, sem nunca desviar o seu olhar dos meus olhos, começou a afagar os seios de uma estátua em tamanho natural. A estátua era Tatiana. Eu viria então a acordar, em grande sobressalto, ao som de uma gargalhada diabólica de Chibanga misturada com um bizarro barulho de seixos rolando sobre seixos ao sabor das ondas que só podia vir dos dentes partidos do matador à solta na sua boca. É que Chibanga não se saciou a apalpar os seios marmóreos e precisou de os morder violentamente. Ignorando a grande crítica literária, creio que algo em mim exige mais realismo mágico no Ouriquense e um papel de relevo para o fantasma de Ricardo Chibanga. Que se lixem os críticos, pois não quero outra noite assim. Enfim, feitas as contas, é verdade que acabámos de assistir à primeira  morte de Igor. Talvez valha a pena fazer uma série com as mortes imaginadas desta criatura. A crise aumentou a minha simptatia pelos desempregados, mas ainda estou dominado pelo delírio do crime passional

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