Tatiana e as laranjas
Eremita
Num fim de tarde de um dia lento no supermercado, dei comigo a espreitar Tatiana furtivamente. Em minha defesa só posso argumentar que cheguei ali por acidente, pois conferia a composição de uma caixa de cereais. Como as caixas se empilham na esquina que faz a transição para os enlatados, ao retirar uma criou-se uma fresta que abriu uma vista para a zona das frutas e hortaliças e por onde podia espreitar sem ser visto, como se estivesse num posto de observação de aves. Tatiana e duas colegas gozavam uma pausa sentadas no parapeito de um dos expositores refrigerados, de costas voltadas para o alho-porro, os nabos e a alface frisada. Em frente delas tinham as caixas de fruta. Estavam muito divertidas e à distância a que me encontrava não consegui perceber de que falavam. Mas a dada altura, parecendo intuir que alguém mais a observava, Tatiana levantou-se, pegou em duas laranjas, enfiou-as dentro da bata, pelo decote, colocando-as ao nível do peito, uma de cada lado. Com destreza, deslizou depois as mãos pelo corpo abaixo, mantendo sempre a bata sob tensão, para que as laranjas não descaíssem. As mãos acabaram por lhe ficar à altura da cintura, numa posição natural, mas sempre mantendo a bata tensa. O resultado final foi uma silhueta de pin-up, que Tatiana se apressou a animar, com uma passada lenta, um abanar de ancas exagerado e trejeitos de estrela de cinema. As colegas quebraram-se em gargalhadas e eu fui forçado a retirar com cuidado mais uma caixa de cereais, para abrir o ângulo de visão. Tatiana tem graça, o que é raro numa mulher. E tem um jeito teatral, talvez até alguma loucura, o que é essencial.
