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OURIQ

Um diário trasladado

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24
Abr09

Contra o aborrecimento


Eremita

Estou há 14 dias sem me olhar ao espelho. O encontro acidental com o reflexo da minha imagem na montra da lavandaria não conta. Vou esquecendo a cara que tenho. A higiene facial é feita às escuras. Mas creio que nunca tive um ar tão asseado. Faço a barba todos os dias. Arranco com os dedos os pêlos mais compridos das sobrancelhas. A solidão potencia a excentricidade.

 

O homem é uma criatura visual. Há mais referências visuais do que experiências visuais. Saturamos ainda crianças. Ver é quase sempre reconhecer. Tactear deveria ser outra coisa, mas não é. O próprio tacto desperta imagens. Toco no meu rosto. Com quem me pareço? Com um irmão Metralha. Só serei bonito nos dedos de minha mãe. 

 

Ando há meses nisto. Poderia abrir um clássico da literatura, mas opto por estes jogos absurdos. Assim vou suportando a solidão. Ao incipiente transtorno de obsessivo-compulsivo que é voltar repetidas vezes a casa, quando já me encontro na rua, para confirmar que fechei o gás, junto comportamentos menos espontâneos e mais criativos, como  descer as ruas em slalom lento pelas laranjeiras, pintar os "ós" de todos os editoriais do Correio do Alentejo a esferográfica azul, descascar uma pevide a cada 10 segundos sempre que me sento à mesa do café e encontrar uma sequência de beirais em que o número de ninhos-de-andorinha forme a série de Fibonacci. O que há de absolutamente assustador nestas práticas reiteradas é a sua eficácia imediata. O momento em si parece que se eterniza, não como se o tempo pesasse, antes como o tempo deixasse de existir. Por isso, nunca me senti aborrecido em Ourique. Mas parece que este efeito se concretiza às custas de a lembrança do passado se comprimir tanto que agora julgo sempre ter chegado a Ourique só há uma semana. Por isso, tenho deixado de me sentir em paz. Começo mesmo a precisar de reler o que aqui vou escrevendo para ter mão no passado. Os dedos para ver o rosto e os olhos para tactear o tempo. 

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