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OURIQ

Um diário trasladado

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13
Ago08

A possibilidade de um cão


Eremita

 

 

Quem consegue ser mais convincente a escrever sobre o amor dos cães, Houellebecq ou Manuel Alegre? É uma pergunta retórica. Não li Cão como nós, mas consigo imaginar. Houellebecq é mais pungente e ganha ao poeta porque nele é maior a diferença entre a forma como  se refere às pessoas e ao cão ou, pelo ar de burguês bem mimado de Alegre e a acreditar no que escreve o francês, é maior neste a diferença entre o carinho que as pessoas e o cão lhe dão. Houellebecq pode ser um poseur, só que resiste ainda e sempre à sua fama. Em parte, por ser feio. Agualusa não seria credível, mas Houellebecq nem sequer precisa de insistir na entrevista performance, com um olhar se percebe que há neste homem um défice de carinho que nem a fama planetária nem a conta bancária  astronómica remedeiam. São por isso belas, ainda que triviais e até de uma lucidez desencantada, as palavras que dedica ao cão em La Possilité d'une île. O cão é mesmo a mais perfeita das máquinas de amar, o que gera outras questões. Será lícito fazer dele um substituto de um filho que não se teve? Um filho é uma máquina bastante imperfeita de amar, basta ter tido um ou convivido com os progenitores para se concordar. Um cão terá então de ser de outra coisa qualquer. Talvez um rafeiro alentejano.

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