Uma conversa com o inventor
Eremita
Mas nunca mais a viu?
Nunca mais.
E sem explicação?
Nem uma.
Nem um sms?
Naquela altura não havia.
Nem um bilhete?
Nada, nem sequer um escrito no espelho embaciado.
Ficou de rastos, imagino.
Não. Só a tinha visto duas vezes.
Ah, mesmo assim é estranho.
"Mesmo"? Não. Sobretudo. Sobretudo por isso é estranho.
De facto. Tentou encontrá-la?
Não. Só a tinha visto duas vezes.
Claro. Mas deve ter sentido algum vazio.
Ela morreu.
Foi como se tivesse morrido para si, percebo-o bem.
Não.
Então?
Não morreu para mim. Morreu. Imaginei que tinha morrido para toda a gente, inclusive para mim.
Percebo a diferença.
Percebe mesmo?
...Não. E se morreu mesmo? E se a mataram?
Eu teria sido o principal suspeito, a polícia daria comigo.
E ninguém o contactou?
Ninguém.
Imagino que isso seja reconfortante.
Sim, sobra só a hipótese da morte natural.
Acreditando que era uma pessoa decente, bem entendido.
Lembre-se que eu chego até a acreditar na competência da polícia.
Sobra ainda a hipótese de lhe ter feito alguma.
É uma hipótese meramente académica.
Não se lembra de nada?
De coisa alguma.
E se foi tão terrível que se forçou a esquecer?
Como quer que rebata esse argumento?
Justamente.
Em todo o caso parece-me inverosímil.
E ela reaparecer?
Ainda mais inverosímil.
Mas e se reaparecer...
O melhor será não fazer perguntas.
Receia a verdade?
Não, receio a mentira.
