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OURIQ

Um diário trasladado

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02
Fev09

Canis sapiens, Homo habilis


Eremita

 

 

"That no testimony is sufficient to establish a miracle, unless the testimony be of such a kind, that its falsehood would be more miraculous than the fact which it endeavours to establish." Hume

 

Não foi difícil perceber que Maria era o cachorrinho mais esperto dos três que restavam. Ter visto que um dos outros quatro escolhidos era absolutamente deslumbrante, felpudo como o pai, malhado como a mãe, foi também reconfortante, uma indicação de que haviam escolhido os bichos mais belos e não os mais vivos. Mas regressei a casa com a dúvida de saber quão esperta Maria seria. A dúvida entretanto desfez-se. Apetece-me concluir que a Maria aprendeu sozinha a fazer as necessidades sobre os jornais. Tinha lido por aí que é difícil ensinar os cachorrinhos e que só com técnicas de positive reinforcement e fear conditioning se lá chega, mas não foi preciso passar por esse clockwork orange doméstico. Há dois dias, em vez de cobrir de jornais os 50 ladrilhos da cozinha, cobri apenas 12. Ontem, Maria tinha deixado 7 cagalhotos sobre os jornais e 1 de fora. Qual a probabilidade se este resultado ter sido fruto do acaso e não da capacidade de Maria discriminar entre onde se pode e onde não se pode cagar? Se o fizesse aleatoriamente, esperaríamos que no máximo 2 cagalhotos estivessem sobre os jornais e os restantes sobre os ladrilhos. Mas o que se observou foi 7 para 1 em vez de 2 para 6. Bem sei que estamos aquém de uma significância estatística satisfatória (Exact Fisher's Test, P=0.04), mas isto é um resultado promissor. Estou plenamente convicto de que em 3 dias Maria aprendeu sozinha onde se pode aliviar. Há genialidade neste cachorro. Aliás, creio que Maria está cada vez mais esperta e eu cada vez mais burro. A rotina que é cuidar dela vai-me estupidificando. Chego até a experimentar algum entusiasmo quando descubro formas mais simples de apanhar todos os jornais conspurcados. Agora recolho os jornais recorrendo apenas aos meus pés até os ter reduzido a um volume compactado. Isto deixou-me profundamente feliz e aposto que foi uma felicidade destas que um qualquer  Homo habilis do Plistocénico sentiu ao descobrir o melhor ângulo de ataque para lascar uma pedra. Pelo contário, o desprezo de Maria por estas minhas tarefas é coisa de existencialista. Coloco pois a hipótese de que a ideia de que os cães se parecem com os donos possa ser pouco rigorosa. O dono e o cão vão-se parecendo um com o outro, até que se encontram num ponto de equilíbrio; vão convergindo, como se converge para um preço intermédio nos souks marroquinos. Mas a imagem que aqui melhor nos serve é a da árvore filogenética. A Maria é o meu hopeful monster, parece saltar entre ramos. E eu apenas vou deslizando pelo meu, trocando o transcendente pela resolução de problemas de ordem prática.

 

 

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