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OURIQ

Um diário trasladado

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26
Jan09

Maria


Eremita

 

 

Há uns meses, já em Ourique, postava: quem consegue ser mais convincente a escrever sobre o amor dos cães, Houellebecq ou Manuel Alegre? É uma pergunta retórica. Não li Cão como nós, mas consigo imaginar. Houellebecq é mais pungente e ganha ao poeta porque nele é maior a diferença entre a forma como  se refere às pessoas e ao cão ou, pelo ar de burguês bem mimado de Alegre e a acreditar no que escreve o francês, é maior neste a diferença entre o carinho que as pessoas e o cão lhe dão. Houellebecq pode ser um poseur, só que resiste ainda e sempre à sua fama. Em parte, por ser feio. Agualusa não seria credível, mas Houellebecq nem sequer precisa de insistir na entrevista performance, com um olhar se percebe que há neste homem um défice de carinho que nem a fama planetária nem a conta bancária  astronómica remedeiam. São por isso belas, ainda que triviais e até de uma lucidez desencantada, as palavras que dedica ao cão em La Possilité d'une île. O cão é mesmo a mais perfeita das máquinas de amar, o que gera outras questões. Será lícito fazer dele um substituto de um filho que não se teve? Um filho é uma máquina bastante imperfeita de amar, basta ter tido um ou convivido com os progenitores para se concordar. Um cão terá então de ser de outra coisa qualquer. Talvez um rafeiro alentejano. 

 

Postei como quem aposta e ganhei, mesmo se não é um rafeiro alentejano. Contente? O meu eremitismo está agora ferido de morte; se sobre o  Ouriquense nunca chegou a pairar a sombra do ciúme, paira agora, monstruosa, a sombra do puppy blog; adio os russos, que a minha vida hoje é limpar o chão da cozinha dos cagalhotos da Maria. Mas aceito por fim que um cão desperta no dono sensações mais ricas do que um cágado. Não falo de cor. Tive um destes répteis em criança, de resto um cágado alentejano apanhado na ribeira do Cotovio e levado depois para Lisboa. O animal desapareceu tragicamente - queda da varanda - e nunca mais foi encontrado, nunca se fez o seu luto. Poderia ainda pairar nos meus sonhos, como pairam por aí Elvis, Morrison, Maddie. A verdade é que nunca despertou em mim qualquer compaixão. Já não ter dado com a Maria logo que hoje entrei em casa induziu uma forte sensação de culpa e ansiedade. Afinal o bicho estava só escondido debaixo da roupa estendida e não havia ligado o gás, saltado para dentro do forno, fechado a porta (esta coisa dos tripletos é viciante). 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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