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OURIQ

Um diário trasladado

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23
Jan09

Tripletos*


Eremita

 "XXXXX, tem de cortar cabelo. Mais bonito. Mais jovem. Mais simpático."

 

Isto acaba de me dizer Tatiana, tinha eu as compras já dentro dos sacos de plástico. Como soube ela o meu nome? Há quanto tempo me observa? Cheguei aqui em Julho, com  o cabelo cortado a pente 5. Creio que o cortei mais uma vez em meados de Novembro. Fui fazendo a barba só ao domingo, até ao fim do ano. Estou agora com barba de duas semanas, menos bonito, menos jovem, menos simpático. Tenho reparado ultimamente que as pessoas recorrem muito a tripletos - não era só o Conrad. Que coisa boa, esta revelação. Apetecia-me ficar a escrever um longo poema de amor toda a manhã. Sucede que ao acondicionar os 48 rolos de papel higiénico no armário tive uma ideia para um conto: um homem chega a casa vindo do supermercado e apenas comprou rolos de papel higiénico (48 rolos). A mulher protesta, dizendo que é um exagero. Discutem, percebe-se que há atritos antigos entre os dois. No dia seguinte, acordam com a cidade debaixo de uma tempestadade. Há um enorme nevão, que lhes bloqueia a porta (estão numa vivenda? E as janelas? Isto precisa de ser trabalhado). Passam-se dias e o nevão só se intensifica.  A cidade entra em colapso (pilhagens, falta de mantimentos, etc), mas a distopia só é descrita pela janela da sala deles, que nunca chegam a saber exactamente o que está a suceder (isto para introduzir alguma subtileza e tornar também o leitor refém da claustrofobia doméstica) . O casal começa a ficar com poucos alimentos em casa. A mulher lembra o absurdo de ele ter comprado 48 rolos de papel higiénico e não haver comida em casa  - passam ideias horríveis pela cabeça do homem. O casal começa a tentar comer partes da mobília (usar aqui algum humor negro, recriar a cena das solas dos sapatos, de Chaplin, brincar com "arroz de caruncho" e afins). Mais dias. O homem faz pirâmides na sala com os rolos de papel higiénico (e aqui entraria uma reflexão algo pedante sobre o fim do mundo, temperada pela ironia da própria personagem, que mistura a escatologia dos excrementos com a da teologia - "Ah, eis que consigo finalmente uma compressão da polissemia!", dirá ele, já perto da loucura). O conto acaba com a mulher ainda viva,  enrolando o corpo do marido nos 48 rolos de papel higiénico (nota: fazer dela uma egiptóloga, com conhecimento das técnicas de mumificação; falar de óleos com alguma propriedade e um léxico rico, para contrastar com a banalidade do único óleo que ela tem à mão, que é o Fula). Houvesse justiça no mundo e este conto seria publicado na revista Ficções, para quem há filhos, enteados, bastardos. 

 

*"tripleto" não existe em português, mas "trio" não capta o sentido que pretendo. A proximidade com a vila de Odemira (37.3 km)  pode ter sido determinante para esta escolha.

 

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