Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

16
Fev09

Conversas com Afonso (republicação)


Eremita

 

Esta promissora série ainda não começou porque antes preciso de ler uma biografia do D. Afonso Henriques e esclarecer alguns dados mais obscuros sobre a Batalha de Ourique. O Ouriquense rege-se por elevados parâmetros de rigor. 

 

 

 

O Alentejo tem a maior taxa de suicídios do mundo. Parece que há uma certa apetência pelo enforcamento, talvez porque os ramos do sobreiro cresçam quase na horizontal, o que é um convite a lançar uma corda, e porque por aqui se encontrem muitos bancos de cozinha, que facilmente podem ser levados para o campo e tombados pelo próprio, já com a corda ao pescoço. Creio que o Alentejo precisa urgentemente de um hospital de campanha de psiquiatria, seria bom ver as searas com divãs a perder de vista, cada qual com aqueles tapetes persas ou lá o que era que o Freud tinha no consultório, ou então com tapetes de Arraiolos, porque a aculturação fica sempre bem e uma encomenda para equipar o tal hospital iria criar imensos postos de trabalho. Aqui em Ourique não há consultório de psiquiatria. Ou melhor, se existe um não dei por isso, mas imagino que ou não existe mesmo ou é clandestino (na sala das traseiras da barbearia), porque abaixo de um certo efectivo populational o consultório não pode funcionar, menos por falta de pacientes do que por ausência de discrição. Ir a um psiquiatra é coisa de grande cidade, pede que uma pessoa se perca pelas ruas e se cruze apenas com desconhecidos; assemelha-se em alguns aspectos a frequentar um prostíbulo. Há sobretudo um misto de empatia, pena e rancor cerimoniosos entre os frequentadores, um diálogo em telepatia, mudo mas não surdo, que não andará longe disto:

 

Paciente das 8 da noite (na cadeira da sala de espera): Ó minha cabra, vê lá se sintetizas os teus traumas porque estou farto de entrar sempre às 8:30. Deves pensar que tenho a tua vida de merda...

Paciente das 7 da noite (saindo do escritório do doutor): Cabrãozinho, como tens coragem de aparecer aqui com esse ar tão feliz? Andas assim há 3 semanas, não tens vergonha?

O das 8 (levantando-se da cadeira): Ao menos cumprimenta-me, vaca...

O das 7 (aproximando-se da porta): Estás a olhar para mim, filho da puta? Pensas que és superior, não? Deves julgar que me andam a encornar e que venho para aqui chorar baba e ranho poque não consigo arranjar quem me oiça de borla...

O das 8 (dirigindo-se para o escritório): Eu não me pareço com esta gaja, não posso ter esta figura patética. Eu não me pareço com esta gaja...

O das 7 (quase a sair porta fora): Aposto que também andas a encornar alguém. Vê se deprimes esta semana, escroque...

 

Ah, que saudades. Esta coisa do ar do campo é realmente tranquilizadora, mas uma boa consulta no psiquiatra é um programa social dificilmente superável - excepto em Nova Iorque, que tem maus psiquiatras e boa oferta cultural. Por isso resolvi inventar umas consultas. Ontem subi até ao castelo e fiz da estátua de D. Afonso Henriques o meu interlocutor. Encontrar um bom psiquiatra é mais difícil do que encontrar uma mulher para casar. Com a mulher, se a coisa não funciona, fica a experiência e sempre há a separação de bens e a partilha da comunhão de adquiridos. Com o psiquiatra eram 70 euros por sessão. Assim, o D. Afonso Henriques passará a ser o meu psiquiatra local, mas um que na verdade é uma quimera que recolhe todas as características boas dos psiquiatras que frequentei. Um super-psiquiatra. Há muitos anos, o meu primeiro chefe, um americano, disse-me que as mulheres que apareciam na Playboy não existiam, que eram montagens. A perna de uma, o rabo de outra, as mamas da próxima, etc. Creio que a inspiração vem daí. 

 

 

 

 

 

 

 

1 comentário

Comentar post

Pesquisar

Comentários recentes

  • ...

    Sobretudo parando de publicar lixo como Javier Cer...

  • caramelo

    É magnífico. É uma pena que muitas pessoas não ten...

  • Anónimo

    Eremita: sobre as cenas complexas da política naci...

  • Anónimo

    A Cristina Miranda é o Gustavo Santos dos liberais...

  • Anónimo

    Não chores, Eremita.

Links

WEEKLY DIGESTS

BLOGS

REVISTAS LITERÁRIAS [port]

REVISTAS LITERÁRIAS [estrangeiras]

GUITARRA

CULTURA

SERVIÇOS OURIQ

SÉRIES 2019-

IMPRENSA ALENTEJANA

JUDIARIA

Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D