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OURIQ

Um diário trasladado

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11
Ago08

Hunter versus Goldblume


Eremita

 

A morte em directo dos sequestradores que assaltaram um banco em Portugal é um dado novo.  Aqui no café as reacções foram comedidas, mas tratava-se de uma repetição das imagens da noite passada. Andei mais tarde pela blogosfera e vim de lá mareado pelo excesso de opinião. O cúmulo foi uma teoria  capaz de sossegar todos os reféns deste mundo desde que em número inferior a 3. A lógica dessa teoria é tão cristalina que por momentos me apeteceu ser raptado; afinal, não correndo o refém risco de vida, a síndrome de Estocolmo é uma tentação, mesmo para um eremita. Mas vamos à teoria: a um sequestrador o refém só interessa se com ele pode, em simultâneo, aumentar o seu poder negocial e reforçar a sua protecção. Quando há 3 ou mais reféns, matar um para se mostrar que não se está a brincar é uma estratégia válida, porque sobram 2 ou mais. Quando há 2 reféns, matar um faz com que sobre apenas o outro. Matar depois também este significaria perder o escudo humano, pelo que o refém derradeiro tem um poder negocial nulo. Este cenário não interessa ao sequestrador, que por isso não não matará nenhuma das vítimas potenciais. Chamar-hes "vítimas potenciais", de resto, não é só um erro de linguagem, constitui mesmo um erro de lógica. Q.E.D.neutralizar o(s) sequestrador(es) nunca se justifica quando há 2 reféns. Esta teoria atropela todos os imponderáveis resultantes do stress, ignora o sentimento de vingança, as - digamos - más práticas de sequestro e acusa até falta de imaginação, pois é possível ir aumentando o poder de negociação com um refém apenas, à custa de lhe martelar uma falange por cada hora que passa. Enfim, com os eventos passados há a ilusão de que o  l'esprit de l'escalier chegou a horas. 

 

 

 

 

 Sobre as perplexidades que o caso levanta, convém não ser muito ambicioso. Ficámos já a saber que a polícia tem um Hunter, o operacional de Hill Street Blues que era adepto das intervenções musculadas. Resta saber se tem também um Goldblume, o polícia com coração que tentava sempre esgotar todas as hipóteses de negociação com os sequestradores. Não havendo um poder independente que escrutine as acções da polícia, este é provavelmente um trabalho para jornalistas de investigação. A tarefa nem se afigura difícil. Há testemunhas vivas, há desejo de protagonismo (pasmei quando li no Expresso o nome do policial que deu a ordem para neutralizar), há o hábito instalado de deixar escapar escutas telefónicas e presume-se que a negociação terá sido gravada. Duvido é que se esclareça aquilo que nos perturba. Não há, por exemplo, facto a apurar que nos diga se a pressão mediática (agravada pelos casos muito noticiados de insegurança e pela presença da televisão no local deste crime) foi determinante para a decisão. Nem haverá provavelmente forma de concluir que neutralizar era a única solução, porque os cenários alternativos não deixarão de ser incógnitas.  Resta apenas apurar se foi uma decisão limpa ou se houve má-fé na negociação. 

 

 

 

 

 

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