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OURIQ

Um diário trasladado

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20
Dez08

A cartomante de Castro Verde


Eremita

Não é propriamente um hábito, mas vou a Castro Verde de bicicleta com uma certa periodicidade. Até me mudar para Ourique, Castro Verde fazia parte da toponímia pessoal que vale apenas pelo nome. Eu era incapaz de imaginar a fachada da igreja de Castro Verde. Castro Verde existia nas placas de trânsito e na voz da minha mãe, que me contava das idas do avô a Castro Verde e nos seus impressionantes exercícios de genealogia sempre recuperava uma amiga de Castro Verde. Castro Verde, nome sem imagem, gozou durante décadas de uma serena perenidade. 

 

Há na cabeça um mapa destes lugares, que na disposição relativa mimetiza os mapas das estradas, mas em que o tamanho da mancha urbana traduz as vezes que ouvi dizer Castro Verde e também efeitos de precedência. Castro Verde, uma vila, perde para os Grandaços, um lugarejo, embora ganhe a Panóias, que ganha a Santana da Serra, que ganha ao Carregueiro, que ganha aos Aivados. O Carregueiro, o Carregueiro... Em rigor, lembro-me do apeadeiro do Carregueiro e de lá perto ter visto uma vez um casal de poupas. O Carregueiro fica pois fora deste grupo de topónimos puros e junta-se à Aldeia das Alcarias, lugar que um autarca voluntarioso legendou a placas de mármore - "poço de Alcarias", "Alcarias saúda-vos", etc. - e que fotografei durante anos.

 

Imagens vivas. É mesmo verdade que uma imagem vale por mil palavras. Ver a mulher que se ama com outro é o estímulo mais eficaz para lhe escapar de vez com um desembaraço de Houdini. Podemos ouvir dizer que estão juntos, podemos lê-lo e o artigo vir até ilustrado com a fotografia do casal, que não nos livramos de estar reféns de ilusões. Trust me, I know. Mas se finalmente o presenciamos, a velocidade com que a ilusão se desmancha chega a dar pena  - é como se pressentíssemos uma frente que tudo rebenta à sua passagem e avança inexoravelmente sobre ela. Na verdade, nem se trata de um pressentimento, é logo o testemunho da frente que passou e o que se vê lembra-me uma publicidade francesa - não sei se chegou a passar cá - a um creme anti-rugas, que mostrava um rosto com a pele estilhaçada como a tinta de um quadro antigo. Aguenta-te tu, Castro Verde, aguenta-te quando faço ciclovias das tuas ruas. Tens sobre a mulher amada a vantagem da memória serena. 

 

Na última vez que fui a Castro Verde, quando almoçava ao balcão de um restaurante do centro, meteu conversa comigo uma rapariga de piercing na narina e roupas andrajosas, mas que ainda assim tinha um cabelo limpo e negro, que respondia com reflexos que só conhecia dos anúncios de champôs à luz violeta de uma doomsday machine de moscas suspensa sobre nós . Chamava-se Eva - juro - e como se apresentou primeiro, foi a custo que reprimi a piadola que deve ter ouvido inúmeras vezes, embora tivesse chegado a rodar a cadeira para ela, a fim de ganhar ângulo de nu frontal, e a pegar numa das folhas de alface da minha salada ainda por temperar, com ideias de a transformar numa parra. "Olá, eu sou o..." Ela percebeu, claro, mas ofereceu-me um sorriso pela originalidade da variação, que me pareceu ter coincidido com o zumbido final de uma mosca a esturricar-se.

 

Há uma lógica que, das prostitutas aos pais de família benfiquistas, passando por Bill Clinton,  corta transversalmente  as sociedades. Segundo essa lógica, é redutor englobar um conjunto de práticas distintas sob a designação genérica de sexo. Há quem reserve a boca apenas para a pessoa amada, como há quem reserve o ânus. O importante é reservar alguma coisa. Há quem faça uma hierarquia dos actos sexuais segundo o grau de intimidade e consiga ver no handjob um simples aperto de mão. O importante é encontrar um sistema. Quem tem um estilo e um sistema tem tudo. Só assim consegui salvar o meu amor por Tatiana. Quando Eva terminou, pediu-me para ler a minha mão e perguntou-me a hora e o dia do meu nascimento. Fiquei então a saber que algo vai acontecer durante o próximo ano que me livrará de um trauma. Eva disse-me que não preciso de fazer nada, pois tudo está já determinado. Perguntei-lhe se o que nos havia acontecido poderia ser a tal coisa que me livraria do trauma, mas respondeu-me sem sorrir que me "havia aliviado e não livrado". Quando nos despedimos, optei por não partilhar com ela a dúvida que tenho sobre a hora do meu nascimento. 

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