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OURIQ

Um diário trasladado

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10
Dez08

Um recurso finito


Eremita

 

 

As pessoas têm um prurido face à inteligência que é certamente explicável, mas que não justifica querer transformar em diferenças de qualidade todas as diferenças de grau. A verdade é que há pessoas objectivamente mais inteligentes do que outras, para uma mesma tarefa intelectual. O Joseph Brodsky de On Grief and Reason, por exemplo, é mais inteligente do que a maior parte dos outros escritores que também li recentemente. Brodsky disse que "the real history of consciousness starts with one's first lie." Quem discorda só pode estar a mentir, embora fosse mais rigoroso falar da lembrança da primeira mentira. É a partir desse momento que se transforma o conceito de injustiça numa sensação. Em certas pessoas, uma segunda mentira, de outra natureza, basta para calibrar essa sensação, mas também há quem - por medo ou incapacidade - siga pela vida incapaz de fazer tal afinação. Qualquer mentira é então interpretada como a pior das transgressões e, em regra, estas pessoas ficam tolhidas para sempre, porque só seriam capazes de manter a capacidade de indignação à custa da hipocrisia. A religião e a psiquiatria de pouco lhes servem, pois aceitar a relativização que lhes é proposta sem  ter feito a tal calibração significa deslizar para a amoralidade total. Sobra a via das metáforas. 

 

Ouvi de um antigo professor que "as metáforas são muito perigosas", no sentido em que nem sempre captam o essencial. Por exemplo, goza de alguma popularidade a metáfora do Space Invaders, o arquétipo dos jogos de computador bélicos. O jogador pilota uma nave que tem por missão eliminar todos os invasores que vão descendo pelo monitor. Se é atingido, pode recomeçar, porque tem vidas para gastar. A metáfora está no número de vidas. Cada pessoa teria então um certo número de mentiras para usar ao longo da vida. Esta metáfora é perigosa, no sentido usado pelo professor, porque não se muda de consciência como se troca de nave espacial. Mas uma metáfora superior que traduza uma perda de inocência a cada nova mentira ou falha - a eliminação sucessiva dos membros da equipa do escafandrista que se revezam à superfície para lhe bombear o ar de que precisa  - é ainda perigosa. Porque a redenção implica uma epifania e, por isso, uma metáfora nunca pode servir o seu autor -  a epifania faça-você-mesmo não existe. Resta a possibilidade de a metáfora de alguém iluminar outra pessoa - é o que se tenta na religião, na psiquiatria e na amizade. Mas ainda aqui a epifania vem ensombrada, porque nunca se sabe quão justa é a epifania que melhor se nos ajusta. Afinal, quem quer  ser salvo inventa a sua salvação. Feitas as contas, o grande motor é o instinto de sobrevivência e tudo o resto são apenas medidas para uma economia da consciência, que não surge aqui como um bem intocável, antes como um recurso finito. Brodsky seria certamente capaz de ir um pouco mais além...

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