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OURIQ

Um diário trasladado

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02
Dez08

A mão de Igor


Eremita

Os encontros com Tatiana fora do  Pingo Doce escasseiam, mas na sexta passada encontrei-a ao serão no café. Quando entrei estava sozinha à mesa e desviou o olhar, mas antes que me pudesse aproximar vi que Igor saía da casa de banho, ainda a ajeitar a braguilha. "O Igor não lava as mãos", pensei. Sentei-me a duas mesas de distância, diante de Tatiana, mas com as imensas costas de Igor entre nós. 

 

Os serões no café são dominados pela televisão, que Tatiana e Igor acompanham sem reagir ao zapping. Igor passou a noite a descascar pevides e a beber aguardente. Visto pelas costas, com aquele excesso de corpulência que lhe faz uma prega no pescoço grosso, o cabelo rapado a pente de tamanho 5 e os cotovelos ligeiramente afastados do corpo e simétricos  - uma tentativa de concentrar a destria na ponta dos dedos, mas que não evitava um chavascal de cascas a seus pés -, Igor parecia um símio. Talvez por isso, quando por momentos se espreguiçou, esticando os braços para trás com os os punhos cerrados, a sua mão direita ficou tão perto de mim e exactamente no enfiamento de Tatiana que se gerou um trompe d'oeil: vi nele um King Kong de loira presa no abraço dos seus dedos crispados. Tive uma reacção instintiva, levantei-me da cadeira e gritei: "Igor!". O símio virou-se então para mim, com os olhos pequeninos e brilhantes, a tez das bochechas vermelha  como as nádegas de um mandril  e um sorriso de anestesia. Atrás dele, Tatiana olhava-me  com um esgar de horror, quem sabe se por se lembrar daqueles que Igor  despachou nas pancadarias de bar. Só me ocorreu rematar a exclamação com "... Stravinsky! Estão a tocar Stravinsky na televisão... Um homónimo seu, Igor". Igor abriu o sorriso numa gargalhada, creio que sem ter percebido o que eu dissera, ofereceu-me a mão e depois do cumprimento voltou à sua pose prostrada de macho dominante. Tatiana baixou e levantou os olhos para mim, com um misto de condescendência e de cumplicidade. Eu mantive o braço direito pendido, e a mão abaixo do nível do assento, afastada do resto do corpo. A noite decorreu sem mais incidentes. Só à saída um homem de porte enxuto que devia ter uns 60 anos me pegou pelo braço, para me sussurrar: "então o amigo confunde Smetana com Stravinsky? Fixe o que eu lhe digo: sempre que estiver a passar um daqueles separadores na televisão com lagos e cisnes, é provável que se trate da Die Moldau". Foi assim que conheci o inventor que persegue a máquina de movimento perpétuo. Ofereci-lhe a mão esquerda e ele nem reparou - pode ser que seja canhoto como eu.

 

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