Os primeiros anos
Eremita

O Ouriquense é a criação de que mais me orgulho nos últimos anos. Não é uma afirmação forte, pois pouco mais fiz. Mas que sirva ao menos para reforçar esta outra: encontrei o meu instrumento e passarei o resto da vida a aprender como tocá-lo. A ideia que aqui se explora, nem sempre com a disciplina e regularidade exigíveis, é a de trasladar as experiências quotidianas para outra geografia (Ourique) e outros interlocutores (as personagens do Ouriquense), em número tão pequeno quanto o estritamente necessário para que não deixe de contar um episódio real só porque não tenho uma circunstância verosímil para criar. Além do capricho, a motivação para trasladar veio de um problema com que provavelmente se deparam todas as pessoas que escrevem para algum público, mesmo que se trate de um blog obscuro: como evitar a interferência daquilo que escrevemos na forma como os outros se relacionam connosco? Este problema teria, à partida, uma solução óbvia: o pseudónimo. Mas quantos conseguem viver sempre na sombra do seu pseudónimo? Reformulando, para que a resposta seja mais quantificável, se houvesse pachorra: quantos livros permanecem efectivamente anónimos, isto é, não associáveis a um dado cidadão? O pseudónimo, na prática, é apenas um pedido de desresponsabilização, como o boneco do ventríloquo.
(Continua)
