Um plágio
Eremita
O poema que o rapaz recitou esta tarde é meu. A princípio, ele não deu o braço a torcer; mais tarde, chorou. Não foi difícil fazer prova e até usei o telefone celular, muito adequado para convencer os jovens. O cabrãozinho mudou o nome ao poema, saiu-lhe curto o rasgo criativo. Quando acabou de chorar, perguntei-lhe se alguma vez o foram esperar a uma estação ferroviária. Então ele disse-me que jamais tinha andado de comboio. Fiquei a pensar no empobrecimento de biografia que foi ir, em apenas três gerações, da experiência do Ultramar à da internet, passando pelo InterRail. Pobres miúdos. O título é dele, relembro, mas o poema é meu.
Gare
Na Gare de L´Est regressei ao útero
Não o das arcadas, dos espaços resguardados
E princípio de um fim ou não, carris são carris
Regressei ao útero, pontualmente
O que se espera da ferrovia gaulesa
Mas não de todas as mães.
