O rapaz não se cala
Eremita
Desta vez foi ao almoço. O Judeu diz que a culpa é minha, diz que o incentivei. Discutimos depois se é legítimo reciclar a prosa de amor. O Judeu é a favor, porque, tal como o estado febril pode ter muitas causas, mas é bem descrito pelo aumento da temperatura do corpo, também o enamoramento é um estado que podemos descrever independentemente do amante. A tese não me pareceu má, mas o Judeu pareceu-me demasiado radical quando disse que o autor do poema não está obrigado a revelar ao seu novo amor que o poema foi escrito para outra pessoa. O rapaz seguiu a nossa conversa com um rosto de grande perplexidade. Creio que só amou uma vez na vida.
Azul
Porto onde se chega
A gritar mar à vista
Imagem partilhada
Com o escultor anónimo
A figura de proa
O mármore à chuva no jardim
As texturas inventadas
Há uma gota a escorrer
Mas é de carne
O rego por onde vai
E este corpo já não é meu
Se há uma cor que te diga
Eu digo azul
No reflexo de um corvo
Que depois das tangentes
Foge a sete asas
E semeia o Douro
Por caminhos inadiáveis
Voa sem os segredos
Que largou como lastro
Vai com confidências
Que aceita como um destino
Muito além da razão
Foi o meu corpo
Traiu-se sem traidor
Furta-se agora ao rio
Ganha o mar e o deserto
O horizonte em círculo
Esse truque fácil
De não sair do lugar
A patriótica vocação
O abandono existencialista
E a vida corre ao lado
Não se pára o curso de um rio
Com as palmas da mão
Não se troca de foz
Com as voltas na cama
Não cabe um oceano
Nas palavras de um conto
Há algo de trágico
Neste mergulho em apneia
Descubro-te em braçadas
Acima é à tona d’água
E ainda digo azul.
