Mais poesia inédita do rapaz do cineclube
Eremita
Esta madrugada vimos Sol Enganador. Depois o rapaz partilhou alguns dos seus trabalhos sobre o Alentejo e disse-lhe que ele abusa das virtudes fonéticas de "ceifeira-debulhadora". Retive um outro poema, sobre o tempo. Tempo, mulheres e ceifeiras-debulhadoras, eis o universo poético do rapaz.
Do tempo suspenso
Um ponteiro das horas ao abandono
Sem roda dentada
Os minutos em ferrugem
Um peso que não se toca
Um segundo vai
E o segundo volta
Sabes,
Via sempre a mesma sombra
No corpo em movimento
Uma sombra parada
Que não se parecia com nada
O céu dava ares de fotografia
Uma imagem sem retoques
A eterna alvorada,
E vinha o padeiro
Depois o carteiro
Mas sobrava sempre a mesma sombra
No corpo em movimento
Era como se o tempo trespassasse
Sem deixar ferida
Um qualquer truque de ilusionismo
Sem verbo, nem nada
