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OURIQ

Um diário trasladado

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25
Ago12

Tão frágeis


Eremita

Li Tchekov Tchexov pela manhã. Já tinha visto a representação, mas começo a perceber que as grandes peças devem sobretudo ser lidas. Não consegui escolher uma passagem, todo o texto vai tão ao encontro daquilo que me interessa que até as ocasionais passagens à argumento de telenovela me parecem sublimes. 

 

"TREPLEV: BEm, quanto ao que ele escreve propriamente, como hei-de dizer? Cativa o leitor, tem imenso jeito... mas depois de um Tolstoi ou de um Zola, quem é que tem paciência para ler o Trigorin? 

 

(...)

 

TRIGORIN: E será sempre assim, até à hora da minha morte, bonito e talentoso, bonito e talentoso – só isso. E depois de eu morrer, essas pessoas ainda vão passar pela minha sepultura e dizer: “Aqui jaz Trigorin, um bom escritor, mas inferior a Turgueniev.”

 

(...)

 

SORIN: ... aqui metido no campo, nas brenhas para falar propriamente, sem dinheiro, sem posição social, sem futuro [TREPLEV]. E sem absolutamente nada que fazer. Andar sem fazer nada, por aí, fá-lo sentir-se envergonhado, intimidado. Eu gosto muito dele, e ele está muito ligado a mim, mas isso não impede que ele, aqui nesta casa, se sinta a mais, para dizer tudo, um parasita. Não há dúvida, o orgulho dele...

ARKADINA: Dá-me imensos desgostos... (Pensativamente) Parece- me que o melhor seria ele entrar para o funcionalismo público, ou coisa parecida.

 

(...)

 

ARKADINA: Tu não compreendes, Konstantin. Ele é uma pessoa superior...

TREPLEV: No entanto, quando lhe chegou aos ouvidos que eu tencionava desafiá-lo para um duelo, essa superioridade não o impediu de se portar como um cobarde. Vai-se embora. Uma fuga vergonhosa!

ARKADINA: Mas que tolice! Fui eu que lhe pedi para nos irmos embora... Uma pessoa superior! Estás a ver, nós aqui quase a zangar-nos e ele na saleta ou lá fora no pomar a rir-se de nós os dois... está a burilar a personalidade da Nina, e a tentar convencê-la de que é um génio.

Dá-te muito prazer dizeres coisas desagradáveis. Eu respeito esse homem, e peço-te que quando eu estiver presente, guardes para ti os teus verrinosos pensamentos a seu respeito.

TREPLEV: Eu não lhe tenho respeito nenhum. Claro, querias que eu me convencesse também de que ele é um génio. Perdoa- me, não sei mentir - os livros dele dão-me vómitos.

ARKADINA: É pura inveja. As pessoas pretensiosas, mas sem talento, acabam por não fazer mais nada senão maldizer os que são realmente dotados de talento! Que linda forma de se consolarem.

TREPLEV: (Com ironia) “Realmente dotados de talento”, ora vejamos! (Furioso) Quanto a isso, eu tenho muito mais talento do que vocês todos juntos. (Arranca a ligadura da cabeça) Vocês e as vossas convençõezinhas tacanhas são quem manda na arte, hoje em dia. Consideram que só o que é feito por vocês é genuíno, autêntico - suprimem e destroem tudo o mais. Recuso-me a reconhecer-vos, e à vossa supremacia! Não admito a tua, nem a dele!

ARKADINA: Decadente!

TREPLEV: Vai, vai para o teu querido teatro, representar essas peças lamentáveis, medíocres.

ARKADINA: Nunca representei peças dessas! Deixa-me. Tu, que nem sequer tens talento que chegue para escreveres um vaudeville miserável. Pequeno burguês de Kiev! Parasita!

TREPLEV: Forreta!

ARKADINA: Pé descalço! (TREPLEV senta-se, e chora em silêncio) Perfeita nulidade! (Caminha de um lado para o outro, muito agitada) Não chores. Não é preciso. (Chorando) Não devias... chorar... (Beija-o na testa, nas faces, na cabeça) Meu querido filho, perdoa-me. Perdoa à tua mãe, que é a culpada... Sinto-me tão infeliz...

TREPLEV: (Abraçando-a) Se soubesses! Perdi tudo, tudo. Ela deixou de gostar de mim, e agora não consigo escrever... As minhas esperanças foram-se todas...

ARKADINA Vá, não percas a coragem. Tudo se há-de remediar. Ele vai-se embora daqui a pouco, e ela volta a gostar de ti. (Limpa-lhe as lágrimas) Pronto, pronto. Acabou-se a zanga, reconciliamo-nos.

TREPLEV (Beijando-lhe a mão) Está bem, mamã!


(...)

 

TRIGORIN ... Ah, o amor de uma rapariga assim, tão encantadora, poética, e que me transporta para o reino dos sonhos - só um amor como este, e mais nenhum, pode trazer a alegria na terra! Eu nunca tinha experimentado este amor... Quando era novo, não tive tempo, andava a bater à porta de editoras (...)

ARKADINA: (Furiosa) Perdeu o juízo?

 

(...)

 

SORIN: Tenho um bom tema para uma história, que gostava de dar ao Kostya: “O homem que quis”, “L 'Homme qui a voulu”. Noutros tempos, quando eu era moço, queria ser escritor e nunca fui. Queria ser um excelente orador e sou um péssimo orador. (Imitando-se) “E está tudo dito, e por aí fora, e pode ser que sim, pode ser que não”; e sempre que precisava de sintetizar, num pequeno resumo, dava voltas e voltas, e o mais que conseguia era cobrir-me de suores frios. Estava também firmemente apostado em me casar - e não casei. Apostado em viver na cidade a vida toda - e cá estou eu, no campo, a acabar os meus dias, e está tudo dito.

 

(...)

 

DORN:  ... Só aqueles que crêem que há vida eterna é que têm consciência do medo da morte, e o que os apavora são os seus próprios pecados. Ora o senhor, em primeiro lugar, mal pode ser considerado um crente e, em segundo lugar, que pecados cometeu? Serviu no departamento da Justiça durante vinte cinco anos - só isso.

SORIN(Ri) Vinte e oito anos.

 

(...)

 

NINA: (Fixando a cara dele) Deixe-me vê-lo bem. (Olhando em volta) É confortável, tem calor. Aqui era uma saleta, antigamente. E eu, mudei muito?

TREPLEV: Mudou... Está mais magra, tens os olhos maiores. Nina, é tão estranho estar a vê-la, agora, assim. Porque é que não me deixava vê-la? Porque é que não vieste cá, até agora? Eu sei que está aqui há quase uma semana. Fui várias vezes onde está, estes dias todos. Tenho-me posto debaixo da sua janela, como um mendigo.

 

(...)

 

NINA: (Com uma expressão aflita) Porque está ele a dizer estas coisas, estas coisas?

TREPLEV: Estou sozinho. Não tenho ninguém, próximo de mim, que me dê calor, sinto frio, como se estivesse metido numa caverna, e tudo o que escrevo está cheio de secura, dureza, escuridão. Fique aqui, Nina, peço-lhe, ou deixe- me ir conssigo! (NINA põe apressadamente a capa e o chapéu) Nina? Porquê? Por amor de Deus, Nina... (Olha-a, a vestir-se. Pausa)"


A Gaivota, A. Tchekov Tchexov, tradução cheia de gralhas de Fiama Hasse Pais Brandão

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