400 apontamentos e um funeral
Eremita
Notas
1. Não há público mais fácil que num funeral; por isso, todos sorrimos quando alguém lembrou que o falecido não perdia nenhum.
2. Avalio o desempenho nos funerais como um trabalho de equipa, sem protagonistas, e creio poder afimar que estivemos todos muito bem. A família do rapaz do cineclube ficou muito surpreendida por ele ter tantos amigos e até algo invejosa; de outro modo não se percebe o desabafo do seu irmão mais velho: "espera até casares e vais ver quantos aparecem". Está errado, claro. O rapaz do cineclube seduz pela sua vitalidade, empreendedorismo, graça e bondade.
3. Como tema, o problema que a morte coloca é o oposto do problema do sexo. Talvez seja preciso mergulhar no Bataille para perceber os paralelos, mas basta tentar partilhar um exercício de observação feito durante um funeral com a partilha do mesmo exercício feito durante o acto sexual para sentirmos como são antagónicos. No primeiro caso, ficamos logo investidos de autoridade e nobreza; no segundo, somos uns pornógrafos até prova em contrário.
4. Divergimos sobre qual dos 5 irmãos se parece mais com o rapaz do cineclube. O Judeu escolheu o benjamim (o rapaz é o segundo mais novo) e eu escolhi a única irmã, que é a mais velha dos seis. É tão óbvia a parecença nos traços finos, olhos rasgados e linhas horizontais a dominar as verticais que, como noutras circunstâncias, voltei a duvidar das capacidades do Judeu para interpretar a realidade - e logo ele, que pretende descobri-la. Creio que é incapaz de ver parecenças entre um homem e uma mulher, a explicação só pode ser essa.
Continua
