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Eremita

(pub) A brief history of romance comics
- Fingi um orgasmo para o meu marido a pensar em si.
- Foi bom?
- Não seja cruel.
- Bem... perguntava se foi bem.
- Perguntou se foi bom.
- Desculpe. Foi bem?
- Ele não notou.
- Pode ter fingido.
- Acredite que não.
- Não fingiu o orgasmo dele, mas quem lhe garante que não fingiu ter acreditado no seu?
- Já lhe aconteceu?
- Eu acredito em toda a gente.
- De certeza que já fingiram consigo.
- É possível.
- Isso não o irrita?
- Se não reparar, não.
- Mas a dúvida não o incomoda?
- Não.
- Gosta que tenham pena de si?
- Não chega a ser uma mentira piedosa, é simples pragmatismo.
- Não pode saber.
- Tem razão, chego lá por aproximação.
- Por aproximação?
- Deduzo o sentiria a partir do que senti com quem nunca fingiu orgasmos.
- Mas como pode saber que essa pessoa não fingiu orgasmos?
- Não os teve.
- Nunca?
- Nunca.
- Muitas vezes?
- Não os teve muitas vezes, sim.
- Como sabe que não fingiu que não os teve?
- Vamos excluir essa hipótese.
- Ao contrário do homem, a mulher tanto pode fingir que teve como fingir que não teve.
- Pensava eu que a impossibilidade de um homem fingir o orgasmo sugere a impossibilidade de a mulher esconder o seu.
- Você e essas simetrias...
- Também reparou?
- Pensa sobre tudo da mesma maneira, é aborrecido.
- Sou "sobretudo" consistente, é isso?
- Sobre. Espaço. Tudo. Percebeu?
- Está quase a sorrir.
- Estava a fingir.
- Não estava. Solte-se.
- Não vou sorrir.
- Vai.
- Não... não vou.
- Quer uma ajuda para não sorrir?
- Quero.
- Pense no seu marido.
- Você é uma besta.
- Viu? Ficou séria de repente.
- Posso estar ainda a fingir.
- Você também usa sempre os mesmos truques.
- Os mesmos truques?
- Para se fazer interessante. Abusa da recorrência.
- Está incomodado por eu ter pensado em si enquanto fingia o orgasmo, não está?
- Não, estou surpreendido.
- Não me julgava assim tão má?
- Não a julgava tão criativa.
- É o primeiro elogio que me faz, não é?
- Já tinha elogiado a tracção do seu jeep.
- Land Rover, querido.
