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OURIQ

Um diário trasladado

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18
Ago12

Bestiário de Verão


Eremita

Andei uma semana fascinado com uma formiga que se passeava sobre a papelada que tenho espalhada na secretária. A formiga reaparecia com a regularidade do mero que convive com o mergulhador, só que mais resoluta, e deixava-me a imaginar o quanto eu precisaria de diminuir de tamanho até começar a vê-la como um monstro. Quando percebi que eram pelo menos duas formigas, perdi todo o interesse.

 

Gastei várias horas de uma tarde a tentar apanhar vivo um pequeno rato fêmea. O confronto decorreu numa sala de onde o rato não podia sair e só essa certeza evitou que desesperasse durante os vários momentos em que o animal andou escondido. Por vezes ouvia uma voz dentro da cabeça, que dizia, num tom familiar e provocador: "are you trying to corner me?". É possível que tivesse então passado a ponto de honra não apanhar o rato num dos quatro cantos, mas numa das suas corridas desprotegidas ao longo das arestas. E assim foi, até com algum engenho, pois consegui orientá-lo na direcção de uma caixa ligeiramente levantada, armadilha que ela tomou por abrigo.

 

Dei de comer ao rafeiro de um vizinho durante uma semana. Trata-se de um cão muito estúpido que costumo alimentar com alguma periodicidade, sem nunca ter conseguido corresponder ao seu entusiasmo quando me vê. Ele corria para mim cheio de vontade de conviver e eu assumia uma postura dissuasora, com uma das pernas armada para desferir um pontapé. O pontapé não saía e cheguei a fazer festas ao rafeiro, mas creio que ele foi a primeira entre as criaturas que respeito que me vez duvidar das minhas competências emocionais.

 

Na praia da Galé, voltei a apanhar conquilhas na maré vazia. Reparei que umas poucas destacavam-se das restantes por tentarem enterrar-se de novo na areia colocando-se a prumo, nisso lembrando o cachalote que mostra a cauda antes de desaparecer no mar. Quando a travessa veio para a mesa, consolei-me com a ideia de que essas poucas conquilhas eram as que o lume não chegou a abrir.

 

Tentei ouvir no barulho das cigarras o bater de um coração ofegante, mas intrometeu-se a imagem de um sistema de rega automático. Ao contrário da memória incisiva de um cheiro da infância, o som das cigarras é como uma caixa de ritmos sobre a qual podemos compor o que quisermos. Ou então nada de memorável na minha vida aconteceu ao som das cigarras.

 

Pela manhã, várias moscas da fruta pareciam ter nascido por geração espontânea do fundo de um jarro com um resto de limonada açucarada que sobrara do serão. Embora demasiado pequenos para singrarem no star system natural, são insectos encantadores, que nestas latitudes só perdem em graça para as joaninhas. Imaginei-lhes uma biografia colectiva, porque é difícil distinguir umas moscas das outras. 

 

Tem sido um Verão praticamente sem répteis, excluindo os cágados do Judeu, que são demasiado lentos para merecerem algum respeito. Cheguei a ir na esteira de uma ceifeira-debulhadora, na esperança de dar com os bichos rastejantes que se escondem nas searas; havia rapinas a pairar, estava uma tarde propícia para a observação da lagartada. Mas nada. Os caçadores queixam-se da falta de rolas. Eu só pergunto: para onde foram as lagartixas?

 

Nunca fui um observador de aves, não tenho a disciplina de coleccionador que o passatempo exige. São poucas as sessões de observação, poucas as espécies que me causaram forte impressão e sempre de acordo com o esperado, pois para se gostar de um pássaro banal são precisas muitas horas e eu não me distingo dos amadores, gosto mais dos pássaros coloridos do que dos pássaros raros. Não sei é se todos farão o que faço. É que, para responder a urgências físicas, a minha cabeça tende a imaginar mulheres, nisso não se distinguindo da cabeça de outros homens, mas quando preciso de me acalmar gosto de pensar em abelharucos. Num mundo ideal, esta seria uma mania só minha e que haveria mais alguém a fazer o mesmo, só que com o guarda-rios. 

 

 

 

 

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