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OURIQ

Um diário trasladado

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07
Ago08

The Cleft


Eremita

 

Os meus últimos dias em Lisboa foram atípicos. Privei com um grupo de feministas e, naturalmente, cheguei a Doris Lessing. Em vez de escolher as obras que a  consagraram, optei pelo último livro que ela escreveu (que agora é o penúltimo), The Cleft. Lessing imagina uma sociedade só de mulheres que é perturbada pela chegada dos homens. O que irrita neste livro não é a quezília de género (a descrição dos homens como idiotas ou - nas páginas mais simpáticas - crianças crescidas). Sinceramente, não há pachorra para estas provocações e percebe-se para que plateia Lessing se exibe, sobretudo sabendo-se que os homens não conseguem acertar uma palma da mão na outra quando tentam bater palmas. O que irrita no livro é o erro de cálculo primário que o compromete. Em vez de ter recuado no tempo, Lessing deveria ter escrito uma história futurista. Uma sociedade sem homens é hoje algo tecnicamente possível pelos bancos de esperma e técnicas de inseminação artificial, e só o pretensiosismo de escrever mais um mito da criação ou o delírio de legitimar a superioridade da mulher pela precedência biológica explica por que motivo a escritora deslocou o enredo para a Pré-História. Mais: grande parte da tensão do romance assenta na curiosidade de um grupo de mulheres novas pelos homens (os "monsters"), coisa que no livro só pode ser descrito como um impulso inato, quando numa visão futurista essa dimensão poderia ser enriquecida com a curiosidade estimulada pelos relatos desses tempos imemoriais em que homens e mulheres fornicavam, digamos, inconscientemente. Lessing é incapaz de explicar como surge esta sociedade de mulheres e tenta esquivar-se a misticismos procurando verosimilhança pelas constantes referências a tempos imemoriais e a arquivos incompletos e com interpretações parciais. Mas nem essa indefinição faz com que dispense fenómenos estranhos, como marés e ventos fertilizadores que engravidariam as mulheres. Em resumo, atira areia aos olhos do leitor e nem assim o poupa a uns cenários patetas, quando o futuro era tão promissor. Este livro não merece ocupar um tupperware na pocilga dos autores contemporâneos mas ainda assim conto acabá-lo, para o poder diminuir com plena autoridade - no Alentejo há tempo para estes preciosismos.

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