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Um diário trasladado

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13
Mai12

Estilhaços de um discurso amoroso


Eremita

Ao contrário da personagem de um dos pequenos contos de Herberto Helder, se eu quisesse, não enlouquecia. Sobre quem enlouquece por vontade própria fica a pairar a dúvida de que, afinal, continua são. Com o amor sucede o mesmo. A única diferença é que não despertaria a mesma empatia entre os leitores conto que começasse assim: "se eu quisesse, apaixonava-me". E isto porquê? Como ficaria a pairar sobre a autenticidade da paixão a mesma dúvida que aplicámos à autenticidade da loucura autodeterminada, a explicação tem de ser outra. Mas qual? Creio que é por reconhecermos em quem diz que se decide apaixonar um entendimento do amor mais deficiente do que o entendimento da loucura em quem diz que enlouquecia se quisesse; o que este tem de ignorância, o outro tem de incompreensão. E só para a ignorância há cura. Q.E.D. Mas o que acontece quando os dois enredos decorrem em simultâneo? Que dinâmica emerge e que legitimidade se cria? Não será verdade que, tal como um homem é levado à loucura pela mulher que põe em causa o seu amor, também um homem se apaixona pela mulher que acredita na sua sanidade? O que sucede, portanto, quando este homem e esta mulher vivem as duas situações em simultâneo? Não sei. Ora apetece escrever um programa de computador e correr a simulação esclarecedora, ora apetece escrever um poema de amor que mistifique. Mas não será o poema de amor também um conjunto de instruções destinadas a desencadear uma determinada resposta, ou seja, um programa? Qual é a diferença? E o que sobrará deste permanente questionar? Não terá a paixão, além da suspensão de descrença, para vencer o medo, também algo de suspensão de raciocínio, para vencer o impasse? 

 

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