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OURIQ

Um diário trasladado

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14
Abr12

A trompete


Eremita

Não se sabe ao certo como se disseminou o vício de tocar trompete em todo lado. Ninguém aguentava mais de cinco minutos sem aproximar o bocal dos lábios. Conversava-se, mas entre fraseados melódicos. Às vezes era só um trilo, mas que bem que aquilo parecia fazer. Jazz, Telemann adorado como uma estrela de rock, melodias lânguidas entre os lençóis, depois do amor. As festas eram cacofónicas e nas ruas já nem se buzinava. O cidadão comum tinha pelo menos três trompetes. Gente abastada, três trompetes em cada assoalhada. A iconografia subjugava-se ao instrumento, da publicidade às galerias. Qualquer escritor aspirante fotografava-se abraçado ao seu trompete, com a bochecha encostada à trompete, jogando a trompete ao ar. Fizeram-se fortunas. Os grandes empresários da trompete concordaram em produzir instrumentos tão medíocres quanto tecnicamente possível. Não havia trompete que durasse mais de três dias, com o uso frenético que lhe era dado. Alimentar tal vício tornou-se então um problema para os agregados familiares mais necessitados. Houve penhoras. Nas lixeiras, mas depois nos parques e por todo o lado, acumularam-se trompetes enferrujados. Qualquer criança aprendia a tocar como Arturo Sandoval antes ainda de saber a tabuada.
Passaram-se décadas. Um dia provou-se que o trompete matava. Era do verdete. A conclusão demorou a chegar porque toda a gente tocava e morria sincronamente. Perante esta revelação, alguns conseguiram cortar com o vício. Era um grupo minoritário, olhado com algum desdém pelos trompetistas, que os viam como traidores, gente patologicamente sadia.
Passaram-se anos. Trompetistas e não-trompetistas conviviam sem grandes atritos, apesar de tudo. Mas um dia provou-se que o barulho do trompete ensurdecia. E que arreliava ao ponto de chegar a matar. Deixou de haver paz. Alguém ainda conseguiu enriquecer com a venda de surdinas, mas era uma solução precária. Como conciliar o direito à trombetada com o direito ao silêncio absoluto?
O trompetista começou a sentir-se perseguido. Com aqueles dedos sempre à procura dos pistões, os lábios deformados, as bochechas caídas, era a imagem do homem fraco, vergado pelo vício. Ou pelo menos era assim que pensava que os outros o viam. Coisas complicadas. A verdade é que investiu tempo e energia em alguma produção panfletária curiosa, onde reclamava o seu direito à trompete.
Tudo isto se passou há muito tempo. Não há hoje trompetes enferrujados nas ruas. As crianças continuam sem saber a tabuada, mas por outros motivos. Toca-se trompete em casa, às vezes com amigos, uns que tocam também, outros que apenas escutam. A cidade recuperou o silêncio. Há agora um outro vício, em plena expansão: pintar. Anda tudo a pintar ou desenhar, mesmo quando falam uns com os outros. Ninguém dispensa a sua latinha de spray, para cumprir o graffiti diário. É coisa para durar, com tanta parede virgem e o hábito deselegante de pintar por cima. Vão também passar muitos anos até que alguém prove que o spray é tóxico. E mais anos ainda, até se perceber que a agressão pictórica em níveis saturantes pode levar à loucura. Ascensão e queda. 

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