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OURIQ

Um diário trasladado

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12
Abr12

O Triângulo


Eremita

A importância que se dá à invenção da roda sempre me pareceu exagerada. A contrapor, à invenção da mesa redonda ainda não foi feita justiça. Não espanta pois que no hotel se tivesse optado por um design rico em ângulos obtusos. Numa das mesinhas triangulares sentou-se o primeiro cliente da manhã. O fulano vinha com uma indumentária estival mas trazia a tiracolo uma sacola de material sintético, que parecia rebentar pelas costuras com a papelada. Tinha um perfil semita, óculos de aros finos, uma magreza atlética e alguma tensão acumulada nas extremidades do corpo. Pediu um café. Aos poucos o local foi-se enchendo com gente de perfis variados, óculos e compleição física diversos, mas todos, sem excepção, traziam a tiracolo a mesma sacola de material sintético, nuns mais vazia, noutros já rebentada. Entre eles, tratavam-se cordialmente. Alguns conheciam-se e houve inclusive algumas trocas de posição entre mesas. A forma das mesas terá talvez criado um problema de geometria que reprimiu em alguns a tentação de as juntar mas a explicação, na verdade, é mais prosaica: o pé das mesas estava aparafusado ao chão. No máximo, formavam-se grupos de três. O primeiro cliente (chamemos-lhe A, para efeitos que em breve se tornarão evidentes), encontrara um colega (B) e tinham começado a conversar à mesma mesa. Era uma conversa desequilibrada, em que A falava e B sobretudo ouvia, pontuando aqui e ali o discurso do outro com interjeições e grunhidos mansos. Em breve deixou de haver assunto e os silêncios longos começaram a tomar conta da mesa; a colherzinha a bater na xícara teve então o seu momento. Mas quando tudo parecia pedir o remate de uma despedida atabalhoada, surge C, que vendo A de frente e B de costas se aproxima cheio de entusiasmo. O entusiasmo desapareceu no instante em que, aberto o ângulo, percebe quem B é. Como era demasiado tarde para voltar atrás, C senta-se à mesa com os outros dois. Cumpridas as palavras de circunstância, a conversa começou a desenvolver-se com um ritmo e uma dinâmica peculiares. A, B e C conhecem-se, mas A prefere falar com e ouvir B, enquanto B prefere falar com C, o qual -percebeu-se desde o primeiro instante- não está interessado em ouvir B e só se dirige a A, que parece só não o desprezar por ser uma pessoa educada. O discurso começou então  a fluir num só sentido e sem atalhos, de A para B, depois para C, chegando de novo a A. Como nenhum dos que ouvem estava interessado em ouvir,  conversa mudava constantemente, mantendo-se apenas o tom, cordato. Os três homens aguentaram a rotina durante cerca de meia hora, até que, de repente, todos se sentiram incomodados, a tal ponto que só lhes apeteceu abandonar a mesa. Foi o que fizeram, prontamente, como se à boleia de um daqueles círculos de progressão excêntrica que perturbam os planos de água. Na vastidão do café, o ângulo de 120 graus das trajectórias de cada um, enquanto se afastavam, fora a efémera prova matematica da repulsa que todos sentiram. De onde estava, pareceu-me óbvio que houve naquela mesa um momento de omnisciência síncrone que muito os abalou. Arrisco-me a dizer que A percebeu que B, o seu psiquiatra, fazia terapia com C, paciente de A, e que os outros dois tiveram a mesma percepção, no mesmo exacto momento. Do que falavam eles, seria matéria para tratar com enormes reservas. Por sorte não os ouvia muito bem da mesa onde estava, ou então teria agora que me debater com um problema bicudo de -arrisco-me a dizê-lo- sigilo profissional. Uma coisa é certa: aqueles três homens, vestidos com camisas de padrões exóticos e cores berrantes, com sandálias e folgadas bermudas de cáqui , não iriam gozar o resto da manhã livre do congresso internacional de psiquiatria.

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