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OURIQ

Um diário trasladado

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27
Mar12

This is Summer


Eremita

 

 

Sei quando deixei de ser novo. Conduzia na marginal e reparei num grupo de estudantes, rapazes e raparigas, que iam muito divertidos dentro de um carro descapotável. Horas antes, tinha sido o professor deles. Parece-me hoje óbvio que para o fim da minha juventude contribuiu o contraste entre o eco de sala de aula subitamente presente dentro do meu carro e os cabelos delas ao vento, como num anúncio de champô, mas mais determinante foi a assimetria entre a minha capacidade de conhecer por dentro o momento que eles viviam e a total ignorância deles quanto ao que me passava pela cabeça, bem como o contraste entre o meu profundo interesse por eles e o seu relativo desprezo por mim, apesar de até terem sorrido quando repararam em quem seguia à frente. Preferia - acreditem - não abusar da importância de os ter visto através do retrovisor, nem fazer mais um paralelo baseado em noções elementares de física, só que esse é um dos meus vícios de raciocínio irreprimíveis e não consigo deixar de pensar que a consciência fulminante de um ângulo de visão a captar uma cena à retaguarda só deixou espontâneo o primeiro segundo em que, por reflexo de automobilista, dei por eles, pois o que a seguir se passou ficou logo contaminado pela ilusão de estar a filmar a minha autobiografia. Mas não deixa de ser um momento precioso e feliz, apesar de se tratar de um óbito. Pior seria associar o fim da juventude à morte dos pais e à responsabilidade de cuidar de um irmão mais novo, ao nascimento de um filho, a fazer 40 anos, à visão do primeiro cabelo branco, a uma competição perdida para alguém mais novo que sempre vencera ou a qualquer outra circunstância estereotipada. É vaidade, claro, mas prezo esta capacidade de criar as minhas próprias efemérides. Matei a minha juventude pelos meus próprios meios, como agora tendo também a libertar o Verão das condicionantes da astronomia, das convenções de calendário, do regresso das camisas de linho. Não, o Verão não começa pelos sentidos - isso não basta e seria ainda um estereótipo. Ou melhor, haverá um sentido fundador e suspeito até que a enumeração de ervas aromáticas  que podem escutar no vídeo seja uma boa pista para o isolar, mas oficialmente, este ano, como no ano passado, o Verão começou quando na minha cabeça se fez ouvir a cadência de Rick Moody a ler o início do The Pale King. É o Midwest, só que parece ter sido sempre aqui.

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