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OURIQ

Um diário trasladado

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05
Mar12

Autobiografia do corpo


Eremita

 

 

John Coplans 

Se fosse de forjar epifanias, diria que o entendimento - digamos - profundo de um ginásio ocorreu no dia em que trabalhava os deltóides numa máquina e, mesmo à minha frente, uma rapariga corria de costas voltadas para mim. Tinha uma roupa - um top de licra? - que lhe descobria uns ombros muito harmoniosos, umas omoplatas bem revestidas, a região lombar com uma suave curvatura que fazia a transição concâvo-convexo no lugar perfeito... enfim, um corpo cinzelado com o bom senso de quem sabe que não deve perder toda a gordura nem crescer demasiado músculo. Eu tentava disfarçar o olhar fixado nas suas nádegas com uma máscara de esforço que me levava a semicerrar os olhos, mas aquele rabo não saía do campo de visão, apenas ficava ligeiramente desfocado, também por causa do suor nas pestanas. Só que em algum momento o rabo sublime e enxuto passou a ser visto como um símbolo de fertilidade e sem ponta de lascívia. À minha frente, a Vénus de Willendorf corria sobre a treadmill. Não estava a alucinar, limitei-me a fazer uma associação, mas como há um fascínio generalizado por aqueles seios pesados e coxas poderosas, e quase nenhuma imagem do traseiro da Willendorf, tê-lo imaginado a partir de um rabo pós-moderno fez-me dar descanso aos deltóides e pensar por momentos se não haveria ali um princípio de "deserotização" algo redentor, que talvez me reabilitasse ainda a escrita. Descair no extremo oposto e tornar aquele espaço num ringue em que se boxeia desesperadamente contra a efemeridade, pela tonificação do corpo (a defesa alta) e pela reprodução (o uppercut que dá a vitória por knockout) também me pareceu algo forçado. E como tudo me parecia bastante plácido, a sugerir que a tensão sexual era na verdade neutralizada pela concentração de narcisos, não via ali a malha social dos ginásios onde se pratica desporto de competição, algo capaz de me levar a um pastiche do conto de Ruben Fonseca que acabara de ler, só sobrava mesmo fazer do corpo pretexto e manifesto: se o que está ao alcance de um homem normal é escrever sobre si próprio e se o homem só tem poder sobre o seu corpo, embora nada o force a circunscrever-se à escrita sobre o corpo, não causará surpresa que em alguma altura inscreva o seu corpo na escrita.

 

Lembrei-me então de uma exposição do fotógrafo John Coplans, que vira na adolescência, na Fundação Calouste Gulbenkian. Eram auto-retratos enormes de um corpo nu e envelhecido. Como nunca se via o rosto, havia ali o mesmo efeito de apropriação que se explora nas sequências pornográficas de felação, em que o homem é excluído da imagem de tal forma que o ângulo do seu corpo se funde com o do espectador, que lhe toma de empréstimo a imagem do pénis. Também Coplans fazia com que um rapaz se apropriasse dele, mas para estender a sua vida e não o corpo - afinal, gostamos de comprar antiguidades. O corpo de Coplans ainda hoje me surge como o mais almejável dos desejos, embora lutasse contra ele todos os dias naquele ginásio. Era como se aceitasse que iria passar a vida atrás dos corpos de Mapplethorpe, num esforço inglório, mas a partir de então com a tranquilidade de quem na juventude passou revista ao lar onde sabe que teminará os seus dias e não desgostou da decoração. Por isso concluía sempre os exercícios com um sorriso, logo a seguir a desfazer a máscara de esforço. Isto criou vários e deliciosos equívocos. Por exemplo, a tal rapariga, quando se virou e me viu, sorriu de volta. Devo muito a John Coplans. in Um tributo a John Coplans, série.

 

 

Nova temporada de caça e recolecção junto à costa. Galé e arredores. Desta vez levo o carro do Judeu, aburguesei-me. Ah, lembrem-me de o lembrar que o vidro de uma das janelas já não desce. Volto no fim do mês. 

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