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Um diário trasladado

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02
Mar12

Humor e amor


Eremita

 Ponham o vídeo a correr, tem música.

 

 

A entrevista de Carlos Vaz Marques a Abel Barros Baptista (ABB) - o vídeo está a correr? - e Ricardo Araújo Pereira (RAP), na Ler de Fevereiro de 2012, abre com um momento de génio do catedrático ABB, que responde à pergunta "O que vos faz rir?" assim: "Velhinhas a cair". Sem conseguir manter este nível, o resto da longa conversa não deixa de ser um grande festival de inteligência e cultura literária. Mas pesa a ausência de uma explicação neurológica para o humor. É o costume. As humanidades preocupam-se mais com a mecânica dos fenómenos do que com a máquina que os produziu. Por exemplo, abri agora o tupperware com a História do Feio, dirigida por Umberto Eco, fui ao índice de autores e vi que Georges Bataille dá 5 a 0 a Darwin; li depois a introdução, reparei que Darwin até aparece en passant e só posso reforçar a impressão de que é grande o afastamento entre as humanidades e as ciências naturais, ao ponto de a ideia de simetria não ter neste volume o tratamento merecido que lhe é dado pela Psicologia Evolutiva e de a pessoa responsável pelo índice de autores não ter sequer a sensibilidade para reconhecer Darwin como um. Trata-se, como é óbvio, de uma separação artificial, no sentido em que reflecte mais uma lógica corporativa e a nossa incapacidade em dominar diferentes disciplinas do que uma opção reflectida sobre a melhor forma de entender a realidade. E não há sinais de que algum dia acabará, apesar da arrogância de uns, porque o grau de especialização crescente contrabalança a tendência também crescente para a multidisciplinaridade e a multidisciplinaridade ainda não fez o suficiente para eliminar a suspeita de que se trata de um conjunto de disciplinas distintas unidas pela ignorância recíproca. Ficamos então nisto: as velhinhas caem e a gente ri, sem ficarmos satisfeitos com as citações de Camilo e Eça que ABB e RAP discutem. Talvez tenha havido algum propósito de cauteloso obscurantismo, mas pareceu-me excessivo, porque explicar o humor não é o mesmo do que explicar uma piada. E o humor pode ser apenas isto:

 

To aid survival, our brains constantly and covertly use heuristics to generate expectations about what we will experience next, but we would be too inventive for our own good if we did not regularly search for and remove discrepancies between our expectations and our experiences. The immediate incentive to look for such discrepancies and thereby to reduce error comes from the pleasure of discovering a mistake in a currently harmless active belief that was introduced covertly. That pleasure is mirth, and humor is what produces it. Thus, humor is “a cognitive cleanup mechanism” that stains with mistaken belief before washing out the error (as in “I wondered why the Frisbee was getting bigger, and then it hit me.”). Laughter is then a public signal of our ability to clean up our minds. Because such cognitive prowess is useful, it attracts mates—both friends and sexual partners—and spreads throughout the world. Citação retirada da recensão que Walter Sinnott-Armstrong publicou na Science sobre o Inside Jokes: Using Humor to Reverse-Engineer the Mind.

 

Para que não haja equívocos, sou alérgico à banalização da Psicologia Evolutiva, que tende a produzir trivialidades aborrecidas (admito até que a correlação entre um rosto simétrico e uns genes bons desperte apenas um encolher de ombros), mas neste caso creio que dá um contributo estimulante e luminoso. O humor é visto como um prémio imediato pelo esforço com que avaliarmos a qualidade do nosso pensamento, melhorando-o pela descoberta das incongruências entre as nossas previsões e observações, tarefa que, como sabemos, à  partida não tentaria ninguém. Por outras palavras, a fugaz alegria que ganhamos com o humor está para a reflexão como o orgasmo para a reprodução e isto, sendo óbvio a posteriori, não me parece trivial, nem é apenas pícaro, porque faz-nos chegar a conclusões contra-intuitivas, como a de que o humor autodepreciativo, longe de ser o mais sofisticado, é o primordial. O resto é uma receita batida: não só o RAP Cro-Magnon tinha um controlo de qualidade do seu pensamento superior e por isso conseguiu antecipar os perigos e escapar ao pedregulho que soterrou o Badaró Cro-Magnon, chegando vivo à idade reprodutora, como as putativas parceiras do RAP Cro-Magnon aprenderam a reconhecer no seu humor um sinal de inteligência, ou seja, a capacidade que há milhares de anos fez do parceiro um bom caçador e hoje dá bons contratos de publicidade. É claro que não vale a pena ser demasiado sexista, até porque seria difícil ultrapassar o Christopher Hitchens do Why women aren't funny, talvez  a mais acidentalmente feliz reformulação do marianismo de que há memória, tal a importância que é dada à gravidez. No que me toca, o "he makes me laugh" com que Jessica Rabbit responde à perplexidade que o seu amor ao coelho gera admite a retribuição "she makes me laugh, too", que só não é absolutamente simétrica porque viria com o bónus do "Oh myshe finds me funny".  That's all, folks.

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