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OURIQ

Um diário trasladado

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09
Fev12

"Puta que os pariu!"


Eremita

 

 

Natalie hum Portman

[Tenho andado entretido com...  8.01.12] Li a biografia de Luiz Pacheco, a aguardada obra de João Pedro George, publicada pela Tinta da China. Subscrevo este texto de Sérgio Lavos, sublinhando que a tralha sociológica do livro é a única parte má, embora me tivesse servido para confirmar que a Sociologia  e as interpretações de teor psicanalítico - há disso algumas pinceladas - dificilmente se destacam nas suas conclusões das banalidades da linguagem e pensamento comuns. O resto é extenso e muito bom, a léguas - no fôlego, clareza, profundidade, português - da última biografia de um escritor luso que li, o muito publicitado livro de Filomena Mónica sobre Eça de Queirós. 

 

Pausa. Há afazeres.

 

Há mais para dizer sobre o livro, George e Pacheco. Por exemplo, que Pacheco emerge como uma espécie de sistema fechado, em que as suas evidentes contradições e hesitações são essencialmente a manifestação de uma profunda convicção. Que o admirador de Pacheco, sobretudo admirador burguês (essencialmente, todos os que compram este livro, que não é barato), é permanentemente agredido por Pacheco, o que faz desta leitura uma experiência vagamente religiosa, de punição. 

 

Nova pausa. Entretanto li a crítica de João Bonifácio (Público).

 

Que George nunca escreve asneiras como este naco que encontrei na crítica de Bonifácio:"... parece haver em Pacheco uma necessidade constante de denúncia do abuso - como se o facto de em Portugal se produzirem obras de baixa qualidade, quase sempre amparadas pela crítica devido a razões de amizade, constituísse para o leitor e para a literatura um abuso. Tendo em conta que Pacheco foi abusado sexualmente, e além disso vítima de abandono pelos pais, é perfeitamente natural que denunicasse formas de abuso". Eis um encadeamento abusivo para a lógica. Mas retomemos.

 

Que George consegue o extraordinário efeito de escrever uma biografia que não é queer, mas possivelmente pós-queer; em todo o caso, não é anti-queer, o que seria inadvertidamente queer (para se perceber este efeito, leia-se na biografia o texto curioso de Eduardo Prado Coelho, à época "menino-prodígio", em que denuncia Pacheco como o mais convencional dos escritores por, justamente, fazer propaganda do seu estatuto de marginal).  E que o que seduz em Pacheco, pese embora os esforços e a óbvia inclinação de George para revelar um escritor com uma honestidade patológica dentro de um indivíduo que podia ser um grande caloteiro, é o seu talento inquestionável para a prosa, claro, mas também o seu elevado grau de ineficiência, exceptuando talvez o seu trabalho como editor. Como escritor (produziu pouco para uma vida dedicada em exclusivo à escrita e fez inúmeros planos), como pai de família (fazer filhos sabia ele, os problemas só vinham a seguir; ainda assim, que inveja um pai poder ser salvo por um texto como Comunidade, a que o filho Paulo - aprende-se na biografia - por vezes ainda regressa), como sedutor (levou tampa até do magala de Braga), como amigo (a zanga com Cesariny, documentada na biografia com um detalhe que chega a aborrecer, parece ser apenas um exemplo), como tradutor (o famoso episódio do Dicionário Filosófico de Voltaire é hilariante também por revelar uma incompetência atroz), como "homem de negócios", etc. E isto seduz porquê? Porque a ineficiência nas pessoas que fazem a diferença dá-nos sempre a ilusão de que talvez nós - leia-se: eu -  também possamos escapar à mediocridade. 

2 comentários

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    Eremita

    14.01.12

    Não seja desagradável. Era preciso mencionar Castro Verde?
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