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OURIQ

Um diário trasladado

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30
Dez11

Escrever? Para quê?


Eremita

 

 

Cada vez mais, toma-se conhecimento da boutade de Proust sobre a falta de imaginação dos homens que amam as mulheres bonitas como a primeira parte de uma piada recorrente, sempre contada com o entusiasmo de uma trouvaille, em que no remate se lembra que só um homossexual poderia pensar assim. Em tempos idos, esta foi uma boa piada, mas já então a lógica do encadeamento era fraca - e neste pormenor se percebe que o humor não chega para sustentar um pensamento crítico credível, apenas servirá para o decorar. Ora, quem percebe de literatura queer é o Eduardo Pitta, mas arriscaria dizer que, num observador hiperbólico, a orientação homossexual o torna mais capaz de descrever o comportamento amoroso entre homens e mulheres, ainda que o inverso não seja necessariamente verdadeiro. Parte da vantagem não resulta de nunca se vir a ser vítima daquele amor a uma mulher que tende a produzir prosa má, repetitiva e - quando falham as amizades - por vezes até má e repetitiva, porque o homossexual também não está a salvo do desgosto de amor, mas de um efeito de depuração do sentimento de amor no momento da projecção da experiência homossexual no enredo heterossexual. Isto é mais ou menos trivial. A questão é outra: na passagem seguinte, a substituição da tensão sexual  por uma intensa curiosidade, que confere à prosa uma objectividade nos antípodas da norma, é um relato rigoroso das sensações do miúdo na voz do narrador ou, pelo contrário, resulta ainda da sua condição homossexual? Inclino-me para esta possibilidade, como se a homossexualidade associada a uma extraordinária capacidade de dissecar sensações produzisse, na descrição do amor heterossexual, um curioso efeito castrato, isto é, uma combinação da pureza juvenil retida - neste caso, a curiosidade sem mágoa - com o raciocínio de um homem maduro invulgarmente inteligente e perspicaz. E tudo isto com a vantagem de não se cometer qualquer violação da integridade física de inocentes. Viva a literatura. 

Cette fille que je ne voyais que criblée de feuillages, elle était elle-même pour moi comme une plante locale d’une espèce plus élevée seulement que les autres et dont la structure permet d’approcher de plus près qu’en elles, la saveur profonde du pays. Je pouvais d’autant plus facilement le croire (et que les caresses par lesquelles elle m’y ferait parvenir, seraient aussi d’une sorte particulière et dont je n’aurais pas pu connaître le plaisir par une autre qu’elle), que j’étais pour longtemps encore à l’âge où on ne l’a pas encore abstrait ce plaisir de la possession des femmes différentes avec lesquelles on l’a goûté, où on ne l’a pas réduit à une notion générale qui les fait considérer dès lors comme les instruments interchangeables d’un plaisir toujours identique. Il n’existe même pas, isolé, séparé et formulé dans l’esprit, comme le but qu’on poursuit en s’approchant d’une femme, comme la cause du trouble préalable qu’on ressent. A peine y songe-t-on comme à un plaisir qu’on aura; plutôt, on l’appelle son charme à elle; car on ne pense pas à soi, on ne pense qu’à sortir de soi. Obscurément attendu, immanent et caché, il porte seulement à un tel paroxysme au moment où il s’accomplit, les autres plaisirs que nous causent les doux regards, les baisers de celle qui est auprès de nous, qu’il nous apparaît surtout à nous-même comme une sorte de transport de notre reconnaissance pour la bonté de cœur de notre compagne et pour sa touchante prédilection à notre égard que nous mesurons aux bienfaits, au bonheur dont elle nous comble. Combray II

 

Ficha Técnica: a série "Recherche" baseia-se na escuta do audiolivro A la Recherche do Temps Perdu: L'Intégrale (111 CD), que conta com André DUSSOLLIER, Lambert WILSON, Denis PODALYDES, Robin RENUCCI, Mickael LONSDALE e Guillaume GALLIENNE. As citações são retiradas da magnífica edição online da eBooks@Adelaide - e viva a Austrália.

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