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OURIQ

Um diário trasladado

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02
Nov11

Metamorfoses


Eremita

 

 

Quando Tatiana toma novas qualidades, muda a forma antes do conteúdo. Não houve grande originalidade em a criar, se pensarmos no Pigmalião de Ovídio ou nas suas versões modernas, da de Bernard Shaw, erudita, artística e elitista, à boneca insuflável, vulgar, comercial e democrática. A única inovação, que me faz reclamar algum crédito, foi ter conseguido manter Tatiana sem corpo e sem rosto ao longo destes 3 anos. É certo que houve a tentação de lhe dar o nariz de RoseMarie DeWitt, mas que na verdade concretizou uma contradição. E mesmo nesta única descrição, um momento de menor clarividência e non sequitur, a ideia mais importante é a de esquisso de Hugo Pratt. Imaginemos então Tatiana como uma massa de barro e aquele dia em que a descrevi como uma cedência à tentação, como se me tivesse demorado um derradeiro segundo a mais antes de devolver à massa informe o rosto moldado. Assim se cumpre a tal função de passe-partout passional. As mulheres passam por Ourique, umas aqui chegando por estrada, outras vindas da memória, outras ainda nos relatos do meu moço de recados, e no dia seguinte cruzo-me com a Tatiana, ela na caixa registadora, eu com os meus pacotes de gaspacho, e parecendo que a cena se repete, como se fosse o Bill Murray de Groundhog Day, Tatiana mudou. Ganhou um novo gesto, uma expressão que me cativou, uma ideia, uma atitude. A diferença essencial para Groundhog Day não é o tempo ir passando em Ourique, enquanto no filme é sempre o mesmo dia; a diferença é Bill Murray aprofundar o conhecimento que tem daquela única mulher lembrando-se de tudo o que aprendeu na véspera, enquanto eu preciso de esquecer o acessório para chegar ao essencial de todas aquelas mulheres, o denominador comum. Sobram então duas interpretações diametralmente opostas para esta errância. Que é uma estratégia dominada pelo medo do desgosto de amor, uma infantilidade cínica e cobarde que me salva do mergulho de cabeça e da entrega total, ou que é a minha busca quixotesca, não o Quixote que faz uma donzela de uma camponesa, mas o Quixote a investir contra moinhos de vento - ou seja, o equivalente horizontal do vertical mergulho, o que provavelmente quer dizer alguma coisa, pois existe na geometria uma verdade amoral. Faz frio.

 



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