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OURIQ

Um diário trasladado

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01
Set11

Peter


Eremita

Voltei da costa e venho mais magro. Emagrecer, que para a maioria das pessoas é uma boa notícia, no meu caso corresponde a activar o alerta laranja. E como estou praticamente sem dinheiro, resolvi tentar a minha sorte no mundo das traduções técnicas e deixar-me de fantasias. Tenho alguma formação e até já dei conta de um livrinho, para não falar das inúmeras traduções e revisões pro bono. Vamos ver se é desta que começo a ganhar dinheiro. 

 

Tudo começou quando uma pessoa (digamos, o Peter) me contactou por email. Como a proposta era suficientemente aborrecida para não vir da Nigéria, comecei a trocar impressões com ele, que diz ser de Nova Iorque. Numa primeira abordagem, destinada a evitar que ele perdesse o seu precioso tempo e eu criasse falsas expectativas, enviei-lhe uma versão simplificada do meu currículo feita à base de links. Peter deu-me então luz verde para eu me candidatar a sério, o que fiz nesse mesmo dia. Veio depois um teste de tradução de inglês para português, incluindo um excerto de uma intervenção cirúrgica com corte e dissecção de uma mucosa vaginal que se oferecia ao tradutor como a origem do mundo do Courbert ao visitante da antiga Gare d'Orsay, o que, por um instante, tendo em conta o pudor do protestantismo americano, trouxe de volta os nigerianos. Mas lá completei o teste, rodeado dos glossários e dicionários que cravei ao Judeu (ele possui todos os factos anteriores a 1978). Aguardo o resultado. 

 

Ganhar dinheiro com traduções técnicas não poria apenas pão na mesa, pois preciso de uma nova; seria sobretudo o culminar de uma fuga iniciada desde que vim para aqui. Não fujo de credores, nem sequer - perdoem-me - de mim próprio. Fujo do meu nome. De resto, há indícios de que tudo começou há muitos mais anos, a julgar pela degenerescência da minha assinatura, bem registada na série de documentos de identificação, declarações e contratos que fui acumulando. Um trabalho publicamente anónimo, nos antípodas do que antes fazia, seria a solução para a minha vida. A brincadeira frustrada como ghost writer já apontava nessa direcção. O problema não é o fardo da responsabilização, que aceito e até me dá gozo sentir, mas o da competição. Sempre pensei que gostava de competir, quando na verdade gostava era de ganhar. A derrota não me enobreceu, mas trouxe-me lucidez. Para escapar a este destino não basta um pseudónimo, é preciso uma libertação completa e ficar assim mesmo, uma coisa por nomear. Sem nome acaba o track record e com um percurso interrompido todos os caminhos voltam a ser possíveis. 

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    Também tu, brutus?_____4 de Novembro de 2019.Nota....

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