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OURIQ

Um diário trasladado

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19
Ago11

Blitz


Eremita

 Reportagem

 

 

costa alentejana com que sonho foi copiada das paisagens da Alta Normandia em que uma planície de pastagem verdejante é cortada por uma falésia esbranquiçada que desce a pique até ao mar azul. Vem nos postais. Na versão alentejana, a pastagem plana é substituída pelo ligeiro ondulado do montado e a rocha da falésia não é alva a lembrar o alabastro, antes alaranjada e cheia de veios verticais de erosão, como uma termiteira africana em modo de arranha-céus, só que do ar o contraste entre as cores do mar e da terra seria parecido, ainda que mais marcante no Alentejo, pois a vista de topo oculta a arriba abrupta e do fim do Inverno ao fim da Primavera as sementeiras vão tão além da Normandia na intensidade do verde que só por causa dos sobreiros se perceberia não estarmos na Irlanda. Não há memória desta paisagem, nem mesmo que alguém viesse dar testemunho presencial do Alentejo logo depois da invenção do montado, mas para algo existir é sabido que a falta de um nascimento pode ser largamente compensada por uma boa causa de morte. Eu diria então que a costa alentejana imaginada - e não vos falei sequer da avifauna, que inclui lontras e cegonhas, sardões e águias pesqueiras - foi morta pelos festivais de Verão. E por isso vive. Entre outras demonstrações, porque acabo de a descrever de uma barraquinha com ligação wireless de um desses eventos estivais - não sei bem como, parece até que estava a dormir pesadamente depois de uma inadvertida experiência quase psicadélica com umas bagas e cogumelos e que acordei com tudo isto montado em meu redor. Seja como for,  já que estou em pleno Sudoeste Prime, o festival que se reclama ainda mais a sudoeste  do que o rival festival do Sudoeste, mais vale tentar perceber o que se passa por aqui. São sete da manhã, o nórdico que ressona ao relento mesmo perto de mim passou de vicking a querubim com a luz nascente e há mais uns corpos por aí, como baixas esquecidas na ressaca da batalha, mas num campo sem nevoeiro - convém não abusar das imagens, porque nem sequer há neblina matinal. Creio que vou aproveitar o dia para brincar aos repórteres, no alinhamento do eixo Tom Wolfe- David Foster Wallace - Paulo Moura, para vos oferecer um daqueles frescos sociais que tantas vezes leio nas revistas ricas em crítica cultural.

 

7:30 Depois de umas voltas, percebi que estamos na margem norte da ribeira de Seixe, já a jusante de Odeceixe, e que a foz é "logo depois do gancho do rio, estás a ver?". Pareceu-me oportuno decidir logo que modus operandi usar durante o dia: nunca interpelar directamente em busca de informação concreta sobre o festival. Aplicada à mais comum actividade de pedir indicações para o caminho, este método proíbe perguntar como se chega a determinado lugar, o que fazer diante do entroncamento, os quilómetros que faltam, etc., introduzindo-se assim a aleatoriedade e tempo necessários para atenuar a perturbação do observador no que observa, mas sem a pretensão absurda dos métodos de mergulho na realidade que pedem à consciência um capricho do inconsciente. É claro que me farei passar por mais um festivaleiro e que escreverei todos os meus apontamentos nas casinhas com retrete, mas espero não ser obrigado a explicar-me com consumo de diuréticos ou algum desarranjo intestinal, pois conto circular por aí como uma social butterfly

 

7:55 As retretes devem ser limpas ao fim da noite, o que justifica um louvor à organização, mas acuso já a tendência para escolher a mesma das mais de 30 que se perfilam. Na porta da barraquinha, do lado de dentro, alguém escreveu a canivete "Cintra Sucks" e não chego a dar crédito à hipótese de que não é desabafo genuíno, antes encomenda da concorrência a uns infiltrados. A cerveja que domina este festival é a Cintra, do empresário Sousa Cintra, um self-made man com o difícil estatuto de ser desprezado pelas elites e gozado pelo povo, pelo menos desde o célebre acidente que é também a magia do directo, quando, em plena entrevista radiofónica via telefone, enquanto guiava, ao atirar uma garrafa de água vazia pela janela que julgava aberta partiu o vidro do seu próprio carro e a seguir relatou para o auditório o sucedido. Este episódio é um dos maiores diamantes em bruto ainda por facetar pelos publicitários, talvez por o peso dos gigantes Sagres e Superbock ser tal que ignorar os anões nem chega a ser táctica. A Cintra não vingou em Portugal como vingou no Brasil e pode ser que o Sudoeste Prime seja a lança em África que o empresário arremessou sobre o Atlântico para começar finalmente a conquistar mercado no seu país. De resto, o batuque que se ouve e o alinhamento previsto para a tarde de hoje são sinais de que o Brasil estará pelo menos tão presente neste festival como a música anglo-saxónica. 

 

8:30 Apesar de ser uma pechincha, adiei a Cintra para o almoço e preferi um iorgurte com sidecar de cereais, que pude comprar num mini-mercado praticamente a céu aberto e com uma instalação eléctrica que deve violar todas as regras comunitárias de segurança. Sentei-me numa longa mesa com bancos corridos, creio que pensada para promover o convívio, e ao meu lado abancou depois um francês de bíceps impressionantes, que se apresentou como o baterista dos Solitude. Depois de pronunciar o nome da banda, notei que ele esperou uma atitude de fã da minha parte, mas não lhe fiz a vontade, nunca ouvi falar dos Solitude e a minha reacção, que veio no tempo errado e agora me parece bastante tola, pois não deve ser original, foi ter engelhado a cara a fazer de Leo Ferré e entoado o refrão La solitude. Pierre, assim se chama, sacou depois um caderno da mochila e, como se fosse fumar, pediu-me licença para escrever. Perguntei-lhe se era para um making of da tournée dos Solitude e ele respondeu-me que eram notas para um ensaio sobre o blues do baterista. "Boa sonoridade, tens título", disse-lhe, mas ele já ia lançado na exposição: "tu conheces o Suskind? Teve o infortúnio de escrever um bestseller, mas há um livrinho dele muito bom, La Contrebasse. Leste?" É o monólogo de um músico de um contrabaixista de orquestra frustrado. "Quero escrever o La Contrebasse do baterista. Qu'en penses-tu?". Temo sempre quando me fazem tal pergunta, mas disse-lhe logo que era uma apropriação primária a que faltava golpe de asa. A conversa não sobreviveu.

 

 

 


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