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OURIQ

Um diário trasladado

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30
Jul11

Uma rede no montado


Eremita

A espreguiçadeira que tenho sob o plátano deu de si sem me magoar muito. O mais natural teria sido substituí-la, mas aproveitei para tentar algo diferente. Como tinha em casa uma daquelas redes que se trazem do Brasil, coisa de outros tempos oferecida não sei bem por quem, resolvi dar-lhe uso. Se o plano inicial era prendê-la ao tronco do plátano e a uma qualquer árvore de fruto próxima, no percurso até à horta fui tomado por uma outra ideia: e que tal prender a rede entre dois sobreiros, tão distantes quanto possível? Fiquei tão entusiasmado que pedalei de volta até à vila e depois meti-me no carro em busca de um cabo longo e resistente, que só consegui encontrar em Castro Verde. Ao fim da tarde estava de volta, peguei na rede que deixara cair por terra e imaginei-a entre duas árvores antes de me decidir por quais. Os sobreiros que escolhi estão a uns bons 90 metros e sei do que falo pois o cabo tem 100 e só sobraram uns poucos comprimentos de braço. Depois de corrigir a primeira instalação, que não levou em conta a capacidade elástica de todo aquele cabo, a rede ficou com a tensão certa e a pairar ao nível da cabeça, o que me fez ir buscar o banquinho que normalmente está encostado a uma parede arruinada, no cimo do monte. Quando já descia com o banquinho nas mãos, vi que a rede estava enfonada como uma vela pela nortada que se levantou e apeteceu-me partilhar o espectáculo com o Judeu. A rede ficou assim o tempo suficiente para me imaginar numa outra jangada de pedra, tentando rumar também a Sul movida a energia eólica mas incapaz de se mexer por causa do imobilismo dos latifúndios vizinhos e sem poder sequer reclamar a autoria do infinitésimo aumento na largura do Tejo, que mesmo o instrumento mais preciso teria dado por ruído de medição. A seguir o vento caiu, a rede recuperou a horizontalidade e fiquei a pensar se a avifauna local iria integrar aquele objecto estranho na sua rotina e algum dia veríamos abelharucos pousados nos cabos tensos. Para inaugurar a rede com o simbolismo devido, fiz ainda um desvio até à biblioteca, abri o tupperware onde guardo o Moby Dick, que coloquei sobre o banquinho e fui tentando lembrar-me do nome do capítulo, para que já instalado na rede não me custasse a dar com: Leaning over in his hammock, Queequeg long regarded the coffin with an attentive eye.

 

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