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OURIQ

Um diário trasladado

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03
Jul11

Desenhar o ar


Eremita

 

Anda toda a gente (pachequiana) a reparar na ode à Natureza que é o The Tree of Life, mas ainda ninguém reparou (VPValentiana) que a Natureza está quase sempre presente. Não é preciso ir ao Moby, repare-se nisto: 

 

La cousine de mon grand-père,— ma grand’tante,— chez qui nous habitions, était la mère de cette tante Lèonie qui, depuis la mort de son mari, mon oncle Octave, n’avait plus voulu quitter, d’abord Combray, puis à Combray sa maison, puis sa chambre, puis son lit et ne «descendait» plus, toujours couchée dans un état incertain de chagrin, de débilité physique, de maladie, d’idée fixe et de dévotion. Son appartement particulier donnait sur la rue Saint-Jacques qui aboutissait beaucoup plus loin au Grand-Pré (par opposition au Petit-Pré, verdoyant au milieu de la ville, entre trois rues), et qui, unie, grisâtre, avec les trois hautes marches de grès presque devant chaque porte, semblait comme un défilé pratiqué par un tailleur d’images gothiques à même la pierre où il eût sculpté une crèche ou un calvaire. Ma tante n’habitait plus effectivement que deux chambres contiguës, restant l’après-midi dans l’une pendant qu’on aérait l’autre. C’étaient de ces chambres de province qui,— de même qu’en certains pays des parties entières de l’air ou de la mer sont illuminées ou parfumées par des myriades de protozoaires que nous ne voyons pas,— nous enchantent des mille odeurs qu’y dégagent les vertus, la sagesse, les habitudes, toute une vie secrète, invisible, surabondante et morale que l’atmosphère y tient en suspens; odeurs naturelles encore, certes, et couleur du temps comme celles de la campagne voisine, me déjà casanières, humaines et renfermées, gelée exquise industrieuse et limpide de tous les fruits de l’année qui ont quitté le verger pour l’armoire; saisonnières, mais mobilières et domestiques, corrigeant le piquant de la gelée blanche par la douceur du pain chaud, oisives et ponctuelles comme une horloge de village, flâneuses et rangées, insoucieuses et prévoyantes, lingères, matinales, dévotes, heureuses d’une paix qui n’apporte qu’un surcroît d’anxiété et d’un prosaïsme que set de grand réservoir de poésie à celui qui la traverse sans y avoir vécu. Combray II

 

Proust dá um suspeito protagonismo olfactivo aos protozoários. É uma jogada arriscada, mas também uma lufada de ar fresco. Porque muito mais seguro seria evocar o cheiro da terra molhada, que é o cheiro dos actinomicetos (não são protozoários), o perfume das flores e das ervas aromáticas, a maresia e outros clichés. Não aqui. Ele  compara a complexidade do odor dos quartos antigos ao cheiro produzido em certos lugares por "myriades de protozoaires" e a eventual incorrecção científica é irrelevante. Quando se lê "protozoaires" logo surge na memória a imagem da fauna que vive nas poças de água e que nos parece tão estranha, tão complexa, tão difícil de abarcar. No fundo, Proust  concretiza uma feliz passagem de testemnho para o leitor, que é também uma passagem de testemunho entre sentidos: do olfacto, em última análise intransmissível, para a visão. Não creio que este truque resulte apenas com quem teve aulas de microscopia óptica. No princípio do século XX, como agora,  o leitor medianamente culto já teria certamente sido confrontado com desenhos do mundo microscópico que "nous ne voyons pas" ou até visto uma gota de água barrenta com o microscópio do liceu. Por outras palavras, aquele universo microscópico era já algo que não se via normalmente, mas se imaginava a partir de uma observação concreta e usando um instrumento que apenas revela, não traduz, nem representa, ao contrário do universo infinitamente pequeno das moléculas, dos átomos e das partículas subatómicas, que era - como ainda é - inimaginável ou então apenas acessível por instrumentos que traduzem e pelo trabalho da imaginação de outros, capazes de fazer uns bonecos que acabamos por aceitar não como modelos mas como próprio objecto que representam. As "myriades de protozoaires" são uma dádiva de Proust ao leitor, como se dissesse: "toma lá, põe essa cabeça a funcionar com o que tens aí dentro". 

 

 

 

 

 

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