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OURIQ

Um diário trasladado

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09
Mai11

Feirantes


Eremita

 

Não me desloquei à Feira, como devem ter calculado, mas voltei a marcar presença com o meu enviado, que comprou livros de manhã, de acordo com as minhas indicações, e foi surfar de tarde na praia de Carcavelos, respondendo às suas inclinações naturais. Ao contrário do que escreve Alexandre Andrade, um dos poucos lisboetas que ainda leio, os elementos que o último surfista de Ourique me vez chegar entretanto - as descrições na sua língua de idiot savant, vídeos e chamadas telefónicas que captam o som ambiente - levam-me a concluir que o túnel da Babel é ostensivamente contra o espírito de comunhão do evento, impossibilitando as diagonais que o frequentador da feira vai traçando entre as barraquinhas, como se fosse uma  caprichosa bola de flippers em câmara lenta. Aquele túnel é quase um centro comercial que encurrala  e corresponde ao segundo estadio do processo de balcanização da Feira do Livro, tendência que terá começado com a infame praça da Leya. Enfim, outro elemento perturbador, que posso provar em vídeo, foi a presença simultânea numa área confinada do padre Borga e de João César das Neves, situação que se deve evitar de futuro, sob pena de introduzirmos uma perturbação no espaço-tempo de consequências imprevisíveis e talvez catastróficas. Mas tenho ainda registos sonoros que me permitem continuar a acreditar no mundo dos livros e nos portugueses. Se é verdade que a única conversa sobre literatura a figurar na minha colecção de 2011 é a de jovens universitários - percebia-se na voz -  que falavam animadamente sobre o Tio Patinhas e o Batman, pescámos também um comentário de grande inspiração que me fez ganhar o dia:

 

 

"O Mia Couto tem tão bom aspecto que ao pé dele são todos os outros escritores que parecem vir de algum PALOP."

 

Confesso que ri muito com esta boutade cheia de eurocentrismo e vou evitar explicar a sua mecânica. Mia Couto devia ter falado com a troika e, em vez de ter perdido tanto tempo a parir novas palavras, bem podia ter também falado com o meu pai no já longínquo dia em que bati com o carro da família. O homem tem o rosto mais credível do planeta e é impossível dizer-lhe "não".  Naturalmente, podem usar o email ou os comentários para o hate mail e não pensem que farei argumento do facto de o Ouriquense ser o único blog português a inspirar-se num africano. É evidente que o meu interesse por Ricardo Chibanga é indissociável da cor de pele de Ricardo Chibanga e que um Chibanga finlandês nunca teria deixado marca em Ourique. O meu fascínio por pretos é infantil, mas só validando a tese de Rousseau isso seria redentor. De modo que nunca resolverei esta dúvida: acuso um fascínio pela novidade e espero que venha impoluto e sem juízos de valor, mas isto  - em rigor -  é apenas um desejo. A verdadeira cor da pulsão inicial perdeu-se na cadeia infinita de acções e reacções e só pode ser restaurada pela psicologia evolutiva e a neurobiologia, que na melhor das hipóteses dão um conforto estatístico.

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