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OURIQ

Um diário trasladado

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27
Abr11

O jardim de Fausto


Eremita

 

 

 

 

Como todos os cemitérios católicos, o de Ourique é feio de dia e assustador de noite. Por isso, a proposta de Fausto não chega a ser luminosa e não será sequer original. Ele quer fazer em Ourique o primeiro cemitério luso que seja um jardim. Um cemitério sem distinção de classe, para "respeitar Abril", em que não haveria campas modestas e jazigos luxuosos, apenas um "relvado interrompido por árvores e arbustos". Um cemitério em que cada família teria direito a escolher árvore que sinalizaria o local onde o seu morto foi enterrado, para que o jardim crescesse com jacarandás, magnólias, cerejeiras e sobreiros, que são árvores belas, mas também laranjeiras, que são árvores banais e de pomar, não adiantando logo Fausto que destino dar às laranjas, embora já tivesse pensado no assunto, por não gostar de encalhar a visão global em detalhes. Fausto partilhou a sua ideia comigo para a testar antes de ir falar com o presidente da câmara, mas também porque sabe que eu tenho uma lista de todas as famílias com mortos enterrados em Ourique e esse dado importa no cálculo do número de árvores e arbustos e da distância mínima que os deve separar.

 

Creio que o ajudei, porque ele vinha com uma proposta urbana e partiu com outra ideia: a de fazer um cemitério ao estilo de um montado, em que cada árvore tivesse a privacidade do sobreiro, mas podendo ser outra árvore qualquer. Ourique ficaria com o maior cemitério do território nacional e seria sempre Primavera, pois Fausto está seguro de que existe uma variedade de trigo que está verde e espigado o ano inteiro e se pode manter como o tal relvado que primeiro imaginou, bastando instalar um sistema de rega. Em qualquer altura do ano uma parte da seara estaria a ser ceifada, para que os pequenos roedores e a lagartada ficasse desprotegida e as águias de asa redonda nunca abandonassem aquele céu, de resto também rico em planadores, asas delta  e até parapentes lançados de lugares distantes, como a serra de Monchique e a pousada de Palmela, porque os estreitos caminhos serpenteantes desenhariam o mais belo dos labirintos, que deixaria de ser segredo e até estaria descrito nos guias turísticos, mas com o pedido explícito e sempre respeitado de não levar para ali máquinas ruidosas. O padre da vila alinharia, na lógica do "se não podes vencê-los..." e faria das silhuetas aladas o símbolo da cruz, aceitando que se enterrassem os corpos envolvidos numa mortalha de linho, para que as raízes mais depressa a eles chegassem, e teria ainda em atenção a meteorologia quando lançasse à terra as cinzas dos locais produzidas no crematório de Ferreira do Alentejo e trazidas de volta a Ourique, para que o vento não as dispersasse além do perímetro destinado a cada família. As peregrinações de simpatizantes do partido ecologista Os Verdes seriam escorraçadas por milícias de ouriquenses, que ergueriam uma vedação de arame farpado para dissuadir os forasteiros que ali também quisessem enterrar os seus mortos. Só os nativos de Ourique teriam direito ao cemitério, bem como os maridos das mulheres de Ourique, desde que não fossem de Castro Verde.

 

Continua, embora me pareça que o essencial foi exposto.

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