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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

21
Set08

I


Eremita

 

John Coplans

 

 

 

 

23.03.08 Houve um tempo ainda não tomado pela imagem de uma região lombar já suada e intermitentemente iluminada pelos relâmpagos de uma trovoada. Nesse tempo, do cimo das nádegas à base do pescoço, as costas ainda não trocavam tantas vezes de rosto, não amava  vaga e genericamente, e ainda me dominavam as lembranças de estar sentado costas com costas com um amigo, o quadro  doméstico que era a mãe a espremer as borbulhas do pai e a imagem de um Robinson Crusoé nu e satisfeito, deitado de barriga para baixo na mancha de flores sobre a bissectriz definida pelos dois montes do prado, mais ao fundo, a cena mais erótica que alguma vez terá passado na RTP - e quem mais se lembrará?

 

Um tipo que trabalhava o músculo latíssimo do dorso ficou ontem uns minutos no meu enfiamento, de costas para mim  - eu dava aos músculos exteriores do antebraço, uma prioridade para quem gosta de andar de mangas arregaçadas. Gera-se um efeito quase hipnótico quando se vê a musculatura das costas de outra pessoa, que passa a ser uma engrenagem, sobretudo se for alguém muito musculado que tenha um ritmo regular e não se exercite no limite do esforço, pois aí os guinchos e a respiração ofegante não deixam dúvidas de que se trata de um animal. O tipo de ontem tinha uma cadência muito constante e não fazia barulho que se sobrepusesse ao da música ambiente. Era um homem enorme, com uma envergadura de albatroz, mas nem ele tinha o tamanho necessário para que, deitado, fosse um monte que apetecesse conquistar.

 

Não sei se cheguei a fazer de filhote de morsa com o meu pai. Teria de ser minúsculo para lhe escalar as costas e me deitar sobre elas ao sol como se fossem uma praia sobre a praia, tão pequeno que a minha memória não pode repescar esses momentos. De onde virá então a impressão das minhas mãos sobre as suas costas? Havia uma tensão entre as peles que poderia ser a do meu corpo erguendo-se e rastejando sobre ele, indo do lombo para a região cervical com uma urgência de segredar algo ao ouvido que dispensa até o domínio da fala. Mas nem a memória chega tão atrás, nem a carne de que me lembro era a de um homem forçosamente novo. Tacteava a brandura da fina camada adiposa que aos quarenta anos já se instalou.

 

De onde vinha aquela experiência? Enquanto o albatroz prosseguia as suas séries, regular como um relógio de parede, perdi-me em raciocínios, abusando da exclusão de partes para chegar depressa a um lugar que sumariamente transformei em certeza: as águas do cais da Ponta do Sol. Era aí que o pai ia às jacas (caranguejos) e às lapas de apneia, levando os filhos miúdos como ajudantes. Fazer o perímetro do cais assustava-me, porque ao fim da tarde o lado este está à sombra e num mar à sombra só se espera que um tubarão irrompa do azul profundo. Havia o relato de um ataque na costa norte, que ficava logo ao virar da ilha, e havia o Cousteau, a cujos mares longínquos a água do meu mar chegava. De vez em quando, depois de olhar com a viseira a 360 graus, certificando-me de que nenhum tubarão teria tempo de me apanhar, aproximava-me do meu pai e tocava-lhe nas costas. A tal tensão, aquele atrito de pele na pele, poderia vir da ponta dos dedos encarquilhados pelos mergulhos mais longos e de uma mão crispada de medo, embora tentasse sempre dar a impressão de um toque casual. Só pela proximidade, o dorso esbranquiçado do meu pai à tona de um mar ensombrado reconfortava-me. Mas sobrava uma impressão de taxidermia, talvez por ter tão presentes os grandes espécimes do museu de história natural do Funchal; afinal, o meu pai era o maior animal que eu via naquele oceano. Tentava por isso demorar o toque nas suas costas, certificar-me de que ele não seria carne para tubarão e que estava vivo para me proteger, apesar de o ver a mexer-se - também as grandes algas oscilam com as correntes e não têm movimento próprio. Sem que me denunciasse, chegava então a sentir o calor do seu corpo. Não há nada mais reconfortante do que a exotermia de um corpo endotérmico dentro de água, a menos que se trate de uma orca, claro. O meu pai nunca percebeu aquela minha rotina ou então percebeu tudo, porque o passado é mais fácil de gerir quando não há meio termo.  

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