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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

02
Abr11

Arctic Monkeys


Eremita

 

 

 

Faz quase um mês que a carta chegou e não tenho pensado noutra coisa, querendo com isto dizer que, sem deixar de lado outros assuntos, é sempre à carta que o pensamento regressa. Não era para mim, vinha endereçada a uma mulher de nome próprio escandinavo e apelido italiano. O endereço estava certo, não foi extravio, e andei uns dias sem saber o que fazer. O mais correcto teria sido perguntar ao dono da casa que aluguei se ele conhecia aquela mulher e se sabia onde ela agora se encontrava. Foi o que fiz, mas só quando me convenci da improbabilidade de ele me poder esclarecer; a vontade de ler aquela carta era já tão grande que ia apenas tentando erguer umas barricadas para resistir à cavalgada do remorso. Não abrir a correspondência alheia é um dos grandes ausentes dos dez mandamentos e até mais importante do que um outro ausente, o "não desperdiçarás comida", porque este ofende genericamente e aquele ofende destinatário e remetente. Ensinam-nos isto quando somos crianças, antes de termos escrito ou recebido a primeira carta, e nem nos passa pela cabeça que um dia seremos postos à prova. Vivi até ontem sem violar essa regra. 

 

O dono da casa soube apenas informar-me que a mulher de nome italiano tinha alugado aquela casa em 2007, durante uns meses, saindo em Agosto ("queixava-se do calor e o ar condicionado foi ela que comprou e instalou, você devia agradecer-lhe"). Como calculei, ele mais nada sabia sobre ela. E com alívio confirmei que ele não ficara com o seu contacto telefónico (perguntei-lhe pelo número  baixando a voz, enfiando a pergunta entre duas frases desconexas) e que mais ninguém na vila a conhecia ("ela era um pouco estranha no modo de vestir... não falava com ninguém. Creio até que era vegetariana"). A conversa só me animou durante alguns dias. Nunca duvidei que o gesto certo teria sido meter a carta dentro de uma carta, que endereçaria ao remetente e a que juntaria um bilhete explicando o meu esforço para a ajudar, rematado  com uma frase simpática e pouco indiscreta. Se há alturas em que falhamos por falta de lucidez ou de uma imaginação que encontre a solução mais justa, esta não foi exemplo.

 

Para me demover,  tentei imaginar o conteúdo que mais implicações nefastas me trouxesse, se dele tomasse conhecimento. Um bilhete suicida que me obrigasse a tomar medidas rápidas, contactar os bombeiros de Brighton, explicando-lhes de Ourique o que estaria prestes a acontecer; a confissão de um crime; o anúncio do assassínio iminente de alguém conhecido...  Afinal, talvez me tenha faltado imaginação, porque estes cenários só aumentaram a tentação. Abri o envelope com o máximo cuidado, para que o pudesse voltar a fechar sem sinais de ter sido violado. Lá dentro encontrei uma fotografia e uma única folha, manuscrita de ambos os lados numa caligrafia de mulher que não me impressionou. O texto vinha em português e inglês, não como uma edição bilingue, antes passando de uma língua à outra com facilidade, segundo um princípio que me pareceu logo óbvio: as partes em que mais se exaltava estavam em português e as partes mais descritivas e reflexivas em inglês. Não havia palavrões, nem sequer insultos educados, embora fosse uma carta de desgosto de amor e rompimento. Não retive o essencial, perdi-me logo nos pormenores: era escrita automática ou fluxo de consciência (nunca percebi a diferença, a primerira parece-me um caso extremo da segunda), cheia de interrupções no raciocínio e múltiplas referências, algumas que me eram completamente estranhas.  Para um contexto tão estereotipado, pareceu-me uma escrita invulgar,  em contraste com o gesto de separar os amantes rasgando a fotografia. Lá se via então apenas uma mulher a sorrir, abraçada pela que tinha desaparecido. Fiz como o Ray Charles: a partir do perímetro do pulso que se via tentei imaginar-lhe o corpo. Porque embora não houvesse uma forma lógica de perceber se a que ficara na foto era o remetente ou o destinatário, eu já fizera uma escolha e preferia não conhecer a cara de quem escrevera o que tinha acabado de ler, para poder gozar a curiosidade. Tudo isto aconteceu ontem.

 

Hoje, pela manhã, resolvi escrever-lhe. Senti-me um pouco Zelig, pois notei que lhe imitava o estilo, não como se tentasse um pastiche, nem sequer um pastiche falhado, era só aqui e ali um detalhe, uma escrita mais acelerada e livre, que não é a minha. Talvez fosse só por estar a ouvir os Arctic Monkeys, banda que ela conhece e cujo nome na minha cabeça soa sempre a Attic Monkeys, corruptela que deve ter a sua inevitável explicação freudiana, embora a associação a "macaquinhos no sótão" me pareça embaraçosamente infantil. Também lhe dizia mais do que se esperaria num primeiro contacto. Senti necessidade de lhe contar a verdade, mesmo sendo fácil ter deixado eliminado os vestígios do meu acto.  Não o fiz por desejo de descansar a consciência, estava ciente de que era tudo parte de um plano. Um plano que passava por me colocar em situação de inferioridade moral, que mais depressa lhe provocará uma reacção do que um gesto de civismo. É verdade que agora não me sinto muito bem e precisei de desabafar, mas a carta já está no marco do correio e os dados estão lançados. Brighton. Chovia muito no dia em que cheguei a Brighton.

 

 

 

 

 

 

 

 

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