Inauguração da Primavera*
Eremita
Teria sido bonito ou, pelo menos, telúrico, descrever a inauguração da Primavera invocando o despertar dos aromas silvestres do montado. Infelizmente, o Ouriquense ainda mantém algum contacto com a realidade e senti a Primavera de outro modo. Esta manhã, ao sair de casa, uma rapariga cruzou-se comigo. Não é bonita e se me lembro de a ver antes é apenas pela pequenez da vila. Mas tem cabelos compridos, fortes e encaracolados, e hoje vinham ainda molhados do banho. Já se percebeu, creio. Estas mulheres, nestas condições, deixam um rasto do aroma dominante do champô atrás delas (enfim, depende da orientação do vento) que me cativa sempre muito mais do que o aroma dos perfumes. Não é pelo aroma em si, creio. É por conseguir identificar precisamente a sua fonte (os cabelos) e imaginar até como se chegou ali (mas nunca vou ao ponto das fantasias no chuveiro, porque tudo ocorre no espaço público). Começou assim a minha Primavera. Ciente do carácter inaugural deste encontro, decidido a dar-lhe a devida importância e gozando logo por antecipação a excentricidadade, que fez com que me sentisse absolutamente livre, dirigi-me de imediato à secção de champôs do Pingo Doce e, pela calada, fui abrindo um a um, entremeando cada inspecção de 5 com uma ida à secção de queijos para um reset dos receptores olfactivos. Este processo durou quase uma hora, mas ninguém desconfiou e creio que descobri o meu primeiro aroma primaveril:
* Sem patrocínio.

