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OURIQ

Um diário trasladado

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17
Mar11

Dois breves apontamentos de leitura


Eremita

 

A escrita de Tolstói funciona melhor nos salões da alta sociedade do que no campo de batalha. Nos salões, pode ir de um daqueles longos planos à Robert Altman até um close-up à Cassevetes, mas no terreno de batalha as grandes imagens de conjunto e as cenas de acção falham sistematicamente, resultando apenas as descrições de pormenor e em grande proximidade. A culpa não é de Tolstói, é da populariadde do cinema e da televisão. Quem vê os minutos iniciais de Saving Private Ryan passa imediatamente à condição de veterano de guerra a custo zero, pelo menos no que respeita à informação visual. A escrita nada pode fazer contra isto, seria o mesmo que pedir o K.O. de um peso-pesado a um peso-pluma. Onde a escrita ganha à imagem é quando entra na cabeça das personagens. Se a voz-off no cinema soa quase sempre bizarra e é um recurso de alguma maneira desonesto, na escrita é perfeitamente natural  e no campo de batalha o efeito resulta muito bem, como se só o crânio pudesse ser a caixa-de-ressonância dos tiros de canhão.

 

Um tique de escrita que muito me diverte em Tolstói é o de oferecer várias opções ao leitor, sempre em discurso directo, para ajudar a perceber uma determinada acção ou expressão facial. Fica ao critério de cada um concluir se Tolstói  se revela incapaz de se decidir pela melhor opção ou se  investe propositadamente nas opções múltiplas, ou seja, se é por narcisismo ou virtuosismo justificado. Deste recurso ao discurso directo emerge um paralelo que compara versões extremadas de um mesmo recurso. Ou o seu bom e mau uso, se quisermos. Este contraste cristaliza-se no uso de duas palavras. Na tradução que leio (em inglês), as opções apresentadas por Tolstói são separadas por "or", que transcende a sua simples função de conjunção, assumindo pela sua precisão lógica o papel de operador booleano, e nisso contrastando com o "like" usado pelos adolescentes americanos para o mesmo efeito. No fundo, creio que me diverte esta associação entre a forma de escrever de um dos mais conceituados escritores da história da literatura e a degenerescência do inglês dos jovens americanos que é o processo de gramaticalização em curso do "like" para introduzir um discurso directo,  seguramente um dos mais baixos pontos na tradição oral desde que há registos fonográficos e talvez até desde o Homo erectus.

 

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