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OURIQ

Um diário trasladado

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12
Mar11

Incompletude como método de leitura


Eremita

Abandonei a leitura de Infinite Jest por volta da página 200 (o que corresponde a cerca de 400 páginas de um livro da Quetzal, a cerca de 750 páginas da edição que estou a ler de Watermark e provavelmente a outras 200 páginas de algumas edições da bíblia). Foi há uns meses. O abandono coincidiu, como tantas vezes, com a perda do livro, mas há aqui um claro mecanismo de protecção. Reencontro quase tantos livros como os que perco, pelo que o desaparecimento momentâneo dos meus livros é, em última análise, um acto tão consciente como deixar uma amizade perder-se por um afastamento geográfico. Trata-se pois de uma desistência e não de um acidente que me ilibe. Retomei ontem a leitura de Infinite Jest, reencontrando o prazer do primeiro impacto, embora temperado por um olho crítico que antes estava ausente e que agora topa os evidentes tiques de Wallace (em parte, também, porque li muito sobre o autor e ouvi-o a fazer a sua autocrítica). Vejo nisto uma vantagem. É como se a leitura ganhasse contornos de releitura pela sua simples fragmentação, que nos permite sair do estado hipnótico em que alguns autores nos deixam ao primeiro contacto. Entretanto, descobri uma segunda vantagem. 

 

Durante esta pausa li alguns outros livros e livrinhos, folheei alguns, atirei volumes ao ar imprimindo-lhes um movimento de rotação para ver se os coloridos da capa se dissolviam em branco, mudei livros de um lado para o outro, empilhei-os em arranha-céus como peças de Lego para adultos e descobri o audiolivro. Com as possíveis excepções de Noivado em São Domingo, Hstórias do senhor Keuner (Brecht parece ter sido uma influência forte em Gonçalo M. Tavares) e Watermark, do meu adorado Brodsky, foi a audição de Lolita e de  D. Quijote que marcou este período. O audiolivro será o meu instrumento de conquista dos clássicos volumosos cujo desconhecimento me envergonha tanto como nunca ter ido a Roma. Sobre esta polémica decisão é inútil perder mais tempo, porque já escrevi a minha defesa

 

Armado com este novo recurso e incapaz de corrigir velhos hábitos, Infinite Jest entra-me agora pelos olhos e Guerra e Paz pelos ouvidos (esclareço que isto ainda não acontece em simultâneo). A convocação de diferentes sentidos para diferentes leituras aumenta a capacidade de processamento em paralelo do cérebro e lamento hoje não saber Braille, sobretudo porque todos os grandes clássicos estão seguramente traduzidos neste sistema e ler a passagem da madeleine à custa da sensibilidade epicrítica dos dedos seria um grande triunfo para o sistema nervoso central, não desprovido de uma certa ironia. 

 

Chego assim ao argumento que procurarei desenvolver melhor numa entrada futura (aqui se nota que a incompletude na leitura dialoga em harmonia com a incompletude na escrita). A leitura em paralelo de grandes obras equipa momentaneamente o leitor com recursos que só um leitor de grande cultura literária e memória poderia explorar. Este distingue-se daquele porque as comparações que faz são filtradas pela memória e enriquecidas pela capacidade de escolha, enquanto o leitor que vive em simultâneo numa academia de ténis e no meio das invasões napoleónicas está refém, não só das contingências resultantes de como os diferentes enredos e os tempos de progressão na leitura se conjugam, mas também do aumento de acuidade momentânea que a leitura em paralelo permite e que praticamente oblitera a sua memória literária, pelo que estes dois leitores, mais do que apenas diferentes, são antagónicos. Com este - chamemos-lhe assim -  método as conexões surgem tão facilmente e são tão contrastantes que o leitor indisciplinado pode iludir os outros com uma cultura literária que na realidade não possui. Denunciada à partida esta acidental fraude, deixa de haver motivo para não explorar as comparações que surgem tão naturalmente entre dois livros que leio em paralelo.

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